Queda do Muro poderia ter causado guerra, diz Gorbachev

Ex-líder soviético afirma que poderia haver um grande conflito mundial se tentasse barrar manifestações

Guy Faulconbridge , Reuters

03 Novembro 2009 | 17h00

O Kremlin poderia ter começado a Terceira Guerra Mundial em 1989 se tivesse enviado tropas para esmagar as manifestações que precederam a queda do Muro de Berlim, disse nesta terça-feira, 3, o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev.

Gorbachev é elogiado no Ocidente por ter ignorado os linha-duras do regime, que o aconselharam a garantir o futuro da União Soviética esmagando a crescente onda de dissidentes nos países comunistas do Leste Europeu. Essas manifestações levaram à queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989.

Quando um repórter perguntou por que ele não usou a força para deter as manifestações, Gorbachev respondeu que isso teria desencadeado uma sequência catastrófica de eventos e mesmo uma guerra mundial.

"Se fosse pelo desejo da União Soviética, não haveria nada do tipo (a queda do Muro) nem a unificação alemã. Mas o que teria acontecido? Uma catástrofe ou a Terceira Guerra Mundial", disse Gorbachev, de 78 anos.

"Minha política era aberta e sincera, uma política com o objetivo de usar a democracia e não derramar sangue. Mas isso me custou muito caro, posso lhe dizer", afirmou ele.

A maioria dos russos despreza Gorbachev por sua fraqueza em permitir o colapso da União Soviética e a perda do império russo. Uma pesquisa feita no ano passado mostrou que 60% dos russos ainda enxergam a ruína da União Soviética como uma "tragédia".

Milhares de alemães orientais atravessaram o Muro para Berlim Ocidental em novembro de 1989, depois que as autoridades da Alemanha Oriental, que eram apoiadas pelos soviéticos, inesperadamente ordenaram a abertura dos pontos de travessia no Muro, antes fortemente protegidos.

Gorbachev poderia ter recorrido a quase meio milhão de soldados soviéticos estacionados na Alemanha Oriental para esmagar a rebelião. Ele disse ironicamente aos repórteres que teve "uma boa noite de sono" depois que o Muro caiu.

A queda do Muro de Berlim - um símbolo da Guerra Fria que dividia a Europa - foi um dos pregos no caixão da União Soviética, que desmoronou em 1991. 

União Soviética 

Depois que se tornou líder soviético em 1985, Gorbachev - então com apenas 54 anos - lutou contra a ala conservadora do Partido Comunista pressionando por reformas que desmantelaram o sistema de partido único, aprovaram a liberdade de imprensa e acabaram com as restrições religiosas.

O pai da "glasnost" (abertura) e da "perestroika" (reestruturação) disse que não desejava presidir o colapso da União Soviética, acrescentando que o país foi destruído por discórdias internas.

A queda da União Soviética também foi o fim da carreira política de Gorbachev. Apesar de ganhar o Nobel da Paz em 1990, ele nunca mais foi eleito para um cargo público.

Mas Gorbachev observou que o Ocidente também cometeu erros, perdendo a chance de construir uma paz duradoura na Europa por ter sido triunfalista em excesso depois do colapso soviético.

"O Ocidente e, acima de tudo, os Estados Unidos pensaram que tinham um monopólio total nas suas mãos. Seu complexo triunfalista custou um preço alto: muito poderia ter sido resolvido e guerras teriam sido evitadas na Europa", disse ele.

"Eles agora precisam de uma perestroika", afirmou Gorbachev, acrescentando estar contente pelo fato de Barack Obama ter vencido a eleição presidencial dos EUA.

Mais conteúdo sobre:
ALEMANHA MURO GORBACHEV*

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.