Referendo da Grécia enfurece os alemães

Os alemães reagiram com raiva e decepção à surpreendente decisão do governo grego de convocar um referendo sobre o novo pacote de ajuda ao país, e alguns viram na iniciativa uma manobra para tirar a Grécia da zona do euro.

ERIK KIRSCHBAUM E NOAH BARKIN, REUTERS

01 de novembro de 2011 | 10h23

"Não dá para não pensar que eles deveriam ser gratos à Europa por tentar ajudar", disse a estudante Konstanze Pilge, de 26 anos, que caminhava perto do Portão de Brandemburgo, no centro de Berlim. "Agora parece que eles estão querendo bagunçar as coisas."

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, anunciou o referendo na segunda-feira à noite, menos de uma semana depois de os líderes europeus definirem as linhas gerais de um segundo pacote de resgate para a Grécia, condicionado a novas medidas de austeridade fiscal.

"Isso só mostra que grande equívoco foi não ter expulsado a Grécia da zona do euro no começo", disse Wolfgang Gerke, professor de negócios bancários e presidente da entidade Centro Financeiro Bávaro.

A Alemanha, maior economia da Europa, e seus parceiros da zona do euro foram surpreendidos pelo anúncio do referendo grego.

Rainer Bruederle, líder parlamentar do partido Democratas Livres, integrante da coalizão do governo, sugeriu que Atenas estaria tentando se desvencilhar do pacote de 130 bilhões de euros e das contrapartidas correspondentes. "Fiquei irritado (com a notícia)", disse ele à rádio Deutschlandfunk. "Essa é uma forma estranha de agir."

Papandreou, que enfrenta uma onda de greves e protestos, além de deserções na bancada do seu Partido Socialista, disse que convocou a votação porque precisa de um amplo apoio político às medidas.

Uma pesquisa feita no fim de semana mostrou que quase 60 por cento dos gregos veem o pacote de forma negativa, o que indica que a ajuda pode ser rejeitada no referendo, que provavelmente acontecerá no começo de 2012.

"Só se pode fazer uma coisa: preparar-se para a eventualidade de um estado de insolvência na Grécia, e se ela não cumprir os acordos, então terá chegado o ponto em que o dinheiro será rejeitado", disse Bruederle.

"O primeiro-ministro havia (aceitado) um pacote de resgate que beneficiava seu país. Outros países estão fazendo sacrifícios consideráveis por causa de décadas de má gestão e má liderança na Grécia - decisões erradas foram tomadas, e o país se colocou na crise."

Joerg Rocholl, presidente da Escola Europeia de Administração e Tecnologia, em Berlim, qualificou a convocação do referendo como "surpreendente e corajosa", mas disse que ele pode levar a uma situação em que "a Grécia não possa mais permanecer como membro da zona do euro."

A Grécia deve receber em meados de novembro uma parcela de 8 bilhões de euros do pacote de ajuda, mas provavelmente seu caixa voltará a se esgotar em janeiro, na época do referendo.

(Reportagem adicional de Madeline Chambers, Stephen Brown and Gernot Heller em Berlin, Kathrin Jones, Andreas Kroener e Vera Eckert em Frankfurt)

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