Revoltas expõem miséria e crime nas periferias britânicas

Em 30 anos, desigualdade em Londres explodiu; desemprego e criminalidade em Tottenham estão entre os mais elevados do país

Andrei Netto, enviado especial,

13 de agosto de 2011 | 21h00

LONDRES - Nos discursos políticos e na imprensa da Grã-Bretanha, um consenso informal consolidou-se na semana em que as periferias do país arderam em chamas: os quatro dias de mortes, saques e violência fora de controle em Londres e nas maiores metrópoles são frutos de criminalidade e nada mais.

 

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Mas o argumento, usado à exaustão pelo primeiro-ministro conservador David Cameron entra em choque com a constatação das ruas e das universidades. Para habitantes e estudiosos de áreas "sensíveis", as revoltas põem à tona a miséria de subúrbios britânicos como Tottenham, onde a criminalidade é recorde, assim como a desigualdade, o desemprego e a falta de perspectivas.

 

Durante a semana, o Estado mergulhou no cotidiano do ponto exato da periferia onde os distúrbios sociais explodiram na noite do sábado passado, dois dias após a morte de Mark Duggan, de 29 anos, em um confronto com a polícia, suspeita de uso excessivo da força. O retrato, traçado com a ajuda dos próprios vândalos, de moradores e comerciantes de Tottenham, além de acadêmicos, não deixa dúvidas: situado a 14,5 km da opulência da Inner London, o centro urbano mais abastado da Europa, Tottenham é a síntese de uma Inglaterra minada pela pobreza, discriminação e tensão constante com as forças de ordem.

 

Na principal avenida de Tottenham o trânsito de veículos e pedestres seguia interrompido e a presença ostensiva de agentes da Scotland Yard garantia a segurança até o fim da semana. Mas nos prédios, lojas e veículos destruídos pelo fogo as marcas da cólera social são visíveis. Vivendo em um ginásio, várias das 27 famílias desabrigadas pelo incêndio criminoso do Carpet Right - edifício cujas imagens rodaram o mundo - ainda se mostram desorientadas com a violência do ataque. "Tive de fugir para não morrer. Todo o prédio foi destruído como em um filme catástrofe de Hollywood", descreveu o jornalista Lance Chinnian.

 

O pastor brasileiro Marcos Brito, de 38 anos, presenciou o vandalismo contra joalherias e lojas de eletrônicos e a destruição de casas. Ao filmar os distúrbios com um celular no sábado, foi agredido por manifestantes e teve o celular destruído. "Foi muito violento", diz Brito. "Não posso pensar em ir embora, pois tenho o trabalho na igreja. Mas a comunidade brasileira, e não apenas ela, está muito assustada."

 

Se comunidades estrangeiras estão amedrontadas é porque um dos orgulhos britânicos, a política de "miscigenação urbana" não evitou a segregação, constatam sociólogos britânicos. Ao todo, 40% da população londrina é constituída por imigrantes, mas eles se concentram em maior número em regiões como Tottenham ou East End. Nestes bairros, impera a visão de que a polícia é racista e as autoridades dividem os imigrantes como guetos, sejam quais forem suas origens.

 

Em Tottenham, uma das regiões de maior diversidade étnica da Europa, mais de 300 línguas podem ser ouvidas pelas ruas - e o inglês é das mais raras. Descendentes de africanos e caribenhos são maioria, mas irlandeses, colombianos, albaneses, curdos, turcos, somalis, portugueses e brasileiros se misturam à paisagem urbana.

 

"Os eventos de Tottenham foram claramente resultado de tensões crescentes entre a polícia e a comunidade local, em parte por causa de raça e dos esforços da polícia em combater gangues criminosas", pondera o sociólogo Hugo Gorringe, especialista em periferias europeias da Universidade de Edimburgo.

 

Mas o pior elemento parece ser a sensação crescente de que nos subúrbios as chances de prosperar são mínimas, em contraste com a capital. Segundo estudo do Escritório Estatístico das Comunidades Europeias, a Inner London, o centro geográfico onde habitam 3 milhões de pessoas, a renda média chega a € 96 mil ao ano, a mais elevada da Europa. Na Outer London, a periferia onde vivem 4,8 milhões de pessoas, a remuneração média cai para € 30,6 mil.

 

Somados ativos financeiros, imóveis e bens pessoais, como automóveis, a média de riquezas dos 10% mais ricos é 97 vezes maior do que dos 10% mais pobres. A diferença só cresce há 30 anos, dos governos ultraliberais de Margaret Thatcher até o de Cameron, passando pelos trabalhistas Tony Blair e Gordon Brown.

 

A consequência é visível: a Grã-Bretanha é cada vez mais uma terra de desigualdade. "O pessoal aproveitou os distúrbios para roubar o que nunca consegue comprar", diz o traficante The Owl (mais informações nesta página), referindo-se a tevês LCD e celulares saqueados durante a revolta.

 

Em comum, os subúrbios de Londres, Liverpool, Birmingham e Manchester têm as estatísticas adversas. E, mais uma vez, Tottenham serve de exemplo negativo. Dados de junho indicam que o distrito sofre as maiores taxas de pobreza do país. O desemprego soma 8,3%, o dobro de Londres - 4,2% - e entre os jovens com menos de 24 anos chega a 20%. É nesse cenário que a indústria do crime floresce. Além de uma gangue já histórica, a Manden, a cidade agora é dominada pela máfia turca, acusada de controlar 90% do tráfico de heroína do país. Na cidade, o crime virou um meio de sobrevivência. "Ninguém aqui precisa de emprego. Tem muitos modos de fazer dinheiro sem trabalhar, e Tottenham já entendeu isso", diz The Owl. Não por acaso, lembra, Mark Duggan era traficante.

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