Rússia adverte contra o posicionamento de armas no espaço

Em referência aos EUA, general diz que Moscou irá retaliar caso país inicie corrida militar na órbita terrestre

Agência Estado e Associated Press,

27 de setembro de 2007 | 13h47

A Rússia será obrigada a retaliar caso outros países posicionem armas no espaço sideral, advertiu nesta quinta-feira, 27, o comandante das Forças Espaciais Russas, general Vladimir Popovkin.  Apesar de não mencionar explicitamente a qual país se referia, está claro que Popovkin falava dos planos americanos de posicionar armas no espaço, contra os quais a Rússia se posiciona abertamente contra. "Não queremos nos engajar em uma guerra no espaço sideral, não queremos dominar o espaço, mas não permitiremos que nenhum outro país o faça", advertiu Popovkin em declarações levadas ao ar pela televisão russa. "Se algum país posicionar armas no espaço, a regra da guerra é o surgimento de armas de retaliação", afirmou. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, critica os planos americanos por considerar que tal iniciativa desencadearia uma nova corrida armamentista. Em janeiro, quando a China testou um míssil anti-satélites, Putin observou que a iniciativa era uma resposta aos planos americanos de posicionar armas no espaço sideral. Tanto Moscou quanto Pequim pressionam em favor da elaboração de um tratado por meio do qual seja proibida a instalação de armas no espaço, mas propostas nesse sentido são combatidas por Washington. "É necessário estabelecer as regras do jogo no espaço", disse Popovkin. Segundo ele, a complexidade das armas espaciais poderia levar a uma guerra. Um satélite pode falhar por causa de problemas técnicos, mas seu proprietário pode achar que ele foi incapacitado por um inimigo e pode se sentir tentado a retaliar, advertiu. Segundo ele, se uma situação assim acontecer, surgiria uma dúvida pertinente num governo afetado: seria isso o início de um esforço para incapacitar satélites para bloquear as comunicações e o fluxo de informações? Em outubro do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, assinou uma ordem administrativa na qual reivindica abertamente o que considera ser o direito americano de posicionar armas no espaço e de se opor à elaboração de tratados e de outros instrumentos jurídicos que restrinjam tal iniciativa. Escudo antimísseis Bush também tem levado adiante um ambicioso plano de defesa antimísseis baseado no espaço e o Pentágono trabalha no desenvolvimento de mísseis, lasers e outras tecnologias capazes de derrubar ou desabilitar satélites. Esse plano tem estremecido as relações entre Moscou e Washington. Os EUA querem instalar interceptadores de mísseis na Polônia e na República Checa. Putin rejeita a versão americana de que tais mísseis visam fazer frente a um eventual ataque do Irã e denuncia que a iniciativa ameaça a contenção nuclear de Moscou. A Associated Press apurou que destacados cientistas americanos chegaram à conclusão de que os EUA basearam-se em informações incorretas quando apresentaram a aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) seus planos de defesa no leste europeu. Segundo eles, ao contrário do que afirma o governo americano, interceptadores eventualmente instalados na Polônia e na República Checa seriam, sim, capazes de abater mísseis russos, o que poderia ameaçar os planos de contenção nuclear de Moscou.  A agência do Pentágono responsável por supervisionar o programa de mísseis rejeita a conclusão dos renomados cientistas. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, já chegou a qualificar a preocupação russa como "cômica". Mais seis renomados cientistas americanos disseram em entrevistas à Associated Press que a preocupação russa procede.  "A alegação da Agência de Defesa de Mísseis é incorreta", diz Theodore Postol, um físico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e crítico do americano. "E é difícil entender como foi cometido um erro tão banal." Ofensiva diplomática Para convencer governos estrangeiros e o público de que o escudo antimísseis proposto pelos EUA é projetado somente para reagir a um eventual ataque iraniano, militares dos EUA realizaram no início deste ano uma ofensiva diplomática. O general Henry Obering, diretor da Agência de Defesa de Mísseis, apresentou slides e projeções segundo os quais um míssil russo ICBM lançado do leste de Moscou na direção de Washington não poderia ser alcançado por projéteis lançados a partir dos interceptadores na Polônia. "O motivo pelo qual selecionamos a Polônia e a República Checa para posicionar esses itens é porque são perfeitos para a ameaça iraniana", disse Obering num encontro com autoridades alemãs em Berlim em 15 de março. "Eles não estão posicionados onde possamos interceptar mísseis russos." Mas os cientistas consideram a informação incorreta e inconsistente. Segundo eles, os interceptadores podem alcançar os mísseis russos e, se visam conter o Irã, deveriam estar posicionados em algum local mais próximos da república islâmica para se tornarem mais eficazes. Postol, um ex-conselheiro científico do Comando de Operações Navais, e George Lewis, diretor associado do Programa de Estudos da Paz da Universidade de Cornell, elaboraram uma análise do assunto e pretendiam apresentá-la hoje em Washington. Pavel Podvig, um pesquisador russo do Centro de Cooperação e Segurança Internacional da Universidade de Stanford, fez suas próprias estimativas e confirmou as conclusões de Postol e Lewis. Mais três cientistas revisaram as conclusões do estudo e disseram à Associated Press que as consideraram consistentes: Richard Garvin, laureado pela Academia Nacional de Ciências; Philip Coyle, subsecretário de Defesa na administração Bill Clinton; e David Wright, físico dedicado a um grupo de cientistas em defesa do ambiente e da não-proliferação nuclear. Ceticismo Todos eles mostraram-se céticos quanto à eficácia do escudo antimísseis em uma situação real, mas concluíram que teoricamente a interceptação seria possível. De acordo com os autores do estudo, as autoridades militares americanas subestimaram a velocidade dos mísseis lançados pelos interceptadores. Os cientistas não abordaram o argumento americano de que os dez interceptadores planejados para a Polônia seriam insuficientes para deter o vasto arsenal russo. Mas Moscou já manifestou temores de que, uma vez estabelecidas as bases, os EUA espalhem interceptadores e melhorem sua capacidade.

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