Rússia aproxima tropas da Ucrânia e EUA advertem sobre intervenção

Quatro dias após a queda de Yanukovich, aliado de Moscou, militares russos conduzem maior exercício de guerra em vários anos na região

Lourival Sant’anna, Enviado Especial / Kiev - O Estado de S. Paulo,

26 de fevereiro de 2014 | 10h33

Milhares de ucranianos acompanharam a divulgação dos membros do novo governo na Praça da Independência (Foto: Uriel Sinai/NYT)

(Atualizada às 23h10) KIEV - O presidente Vladimir Putin colocou na quarta-feira, 26, em estado de alerta as Forças Armadas no oeste da Rússia e ordenou manobras militares de grande escala na região, que faz fronteira com a Ucrânia. A medida lembra os preparativos para a invasão da Geórgia, em 2008, em apoio a milicianos separatistas ossétios aliados de Moscou.

Foi a primeira reação da Rússia à queda, no sábado, do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, em meio a violentos protestos contra a interferência russa no processo de associação de Kiev à União Europeia.

É a primeira vez, nos últimos anos, que as Forças Armadas russas realizam exercícios nessa região. O ministro da Defesa, Serguei Shoigu, disse, em encontro com o alto comando, que as tropas devem estar "prontas para bombardear áreas de teste desconhecidas".

A manobra deve envolver 150 mil homens, segundo o ministro. De acordo com a Reuters, Shoigu afirmou que os exercícios não têm relação com os acontecimentos na Ucrânia e já estavam planejados. Desde que reassumiu a presidência, em 2012, Putin tem ordenado esse tipo de manobra em várias regiões russas.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, alertou que a Rússia incorrerá em "um grave e imenso erro" se intervier na Ucrânia. Ao mesmo tempo, ele anunciou a concessão de um empréstimo de US$ 1 bilhão ao novo governo de Kiev - os dois maiores bancos russos congelaram suas linhas de crédito para a Ucrânia.

Putin não fez nenhuma declaração desde a queda de Yanukovich. Em novembro, depois de se reunir com seu aliado em Moscou, o presidente ucraniano resolveu interromper um processo de associação à União Europeia, optando, em troca, por uma união aduaneira com a Rússia.

A decisão desencadeou as manifestações em Kiev e em outras partes da Ucrânia, que evoluíram para a exigência de sua renúncia. Yanukovich deixou Kiev na sexta-feira e foi destituído pelo Parlamento no sábado.

Uma eventual entrada da Ucrânia na UE, que envolve várias etapas, tornaria o bloco europeu vizinho da Rússia. Moscou já assistiu à adesão dos seus antigos satélites no Leste Europeu tanto à UE quanto à Otan, a aliança militar ocidental criada para conter a URSS. A Ucrânia, com sua indústria siderúrgica, minas de carvão e grande produção de trigo, além de sua posição entre a Rússia e a Europa Oriental, é peça-chave na estratégia geopolítica de Moscou.

Controle. O ministro interino do Interior ucraniano, Arsen Avakov, anunciou na quarta-feira a dissolução da Berkut, a temida polícia de choque ucraniana. Essa força de elite é considerada responsável pela maior parte das cerca de cem mortes de manifestantes, não só em confrontos nas ruas, mas também pela ação de franco-atiradores no alto de prédios, na manhã da quinta-feira.

Os manifestantes afirmam que não desocuparão a praça enquanto Yanukovich e outros responsáveis pelo massacre não forem punidos. Vários locais na praça ainda estão com manchas de sangue, objetos que pertenciam aos mortos e flores em sua homenagem.

A polícia desapareceu das ruas. Grupos de manifestantes têm guardado dia e noite as saídas de Kiev e os acessos aos dois aeroportos da cidade, exigindo a apresentação de documentos de todos os que passam, para evitar a fuga de membros do antigo governo.

O paradeiro de Yanukovich é desconhecido desde que ele tentou embarcar em um avião com destino à Rússia. Especula-se que ele tenha fugido para a Crimeia, no sul da Ucrânia, onde se concentra parte da minoria russa e se localiza uma importante base naval da Rússia. O Departamento do Tesouro americano ordenou aos bancos que fiquem atentos a transferências de valores suspeitas por Yanukovich, bem como por seus parentes e colaboradores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.