Rússia busca apoio da China para política contra a Geórgia

Presidentes russo e chinês se reúnem na quinta; França alerta que Ucrânia pode ser próximo alvo de Moscou

Agências internacionais,

27 de agosto de 2008 | 12h21

O presidente russo, Dmitri Medvedev, buscará o apoio dos países orientais, especialmente da China, para sua dura política para a Geórgia após desafiar o Ocidente ao reconhecer a independência das províncias separatistas pró-Moscou. O líder do Kremlin viajou para a cúpula da Organização e Cooperação de Shanghai (SCO, sigla em inglês), que acontece na quinta-feira. A China, porém afirmou nesta quarta-feira, 27, que está preocupada com a decisão russa, segundo a agência Nova China.   Veja também: Rússia envia navios para região separatista da Geórgia França acusa Rússia de agir unilateralmente contra a Geórgia Medvedev afirma que não buscou conflito   Bush critica Rússia por reconhecer separatistas Otan e UE condenam reconhecimento russo Entenda o conflito separatista na Geórgia   Os governos ocidentais emitiram fortes protestos contra a decisão do Kremlin admitir a soberania da Ossétia do Sul e da Abkházia, que aprofundou as diferenças e chegaram a ser comparadas com a Guerra Fria. Os aliados de Moscou na antiga União Soviética e na Ásia, porém, mantiveram silêncio ou pediram por uma solução por meio do diálogo. O maior prêmio para a Rússia seria conseguir o apoio da China, que assim com a Rússia tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. Medvedev deve se reunir com o presidente chinês, Hu Jintao, durante a cúpula, mas analistas acreditam que Moscou não convencerá Pequim, que já enfrenta seus próprios separatistas, como o Tibete.   A Marinha russa recebeu ordens de monitorar o crescente número de embarcações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Mar Negro, informou o general Anatoly Nogovitsyn, subcomandante do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia. Mais cedo, navios da Marinha russa posicionaram-se na costa da Abkházia. Os navios russos estão na região para "apoiar a paz e a estabilidade na Abkházia e nas águas territoriais da república" separatista, disse o vice-almirante Serguei Menyailo, citado por agências locais de notícias.   "Nossas tarefas incluem o controle das águas territoriais da Abkházia, a prevenção de embarques de armas" e a distribuição de ajuda humanitária, afirmou ele. O grupo de navios inclui o cruzador Moskva - nau almirante da Frota Russa do Mar Negro -, informaram as agências Interfax e Ria Novosti. Os navios da Otan encontram-se no Mar Negro para a realização de manobras militares programadas antes da eclosão da guerra entre Rússia e Geórgia no início de agosto. O conflito levou Moscou a suspender seus contatos militares com a Otan por causa do apoio da aliança atlântica ao governo georgiano.   Os outros membros da SCO - Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, firmes aliados da Rússia e membros da ex-república soviética -, mantiveram silêncio sobre a questão georgiana, pois construíram suas próprias estratégias de política externa para tentar manter o equilíbrio entre a lealdade aos russos e a construção de vínculos com o Ocidente.   Retirada diplomática   A Geórgia anunciou a redução "drástica" do número de diplomatas que mantém em sua embaixada em Moscou. A medida desta quarta-feira é resultado da crise entre os dois países. O ministro da reintegração, Timur Yakobashvili, informou que Tbilisi pretende reduzir o corpo diplomático em Moscou ao mínimo possível. Segundo ele, o embaixador da Geórgia não retornará à Rússia e os dois países manterão relação no nível de enviados especiais.   Um funcionário do Ministério de Relações Exteriores da Geórgia informou que apenas dois funcionários seriam mantidos na embaixada em Moscou, entre eles um enviado especial. Uma lista da equipe que trabalhava no local anteriormente continha 14 diplomatas. Yakobashvili disse que o serviço consular seguirá operando.   O presidente francês, Nicolas Sarkozy, acusou nesta quarta a Rússia de tentar promover uma "mudança unilateral de fronteiras" da Geórgia ao reconhecer a soberania das províncias separatistas, o que considerou "simplesmente inaceitável". Segundo a AFP, Sarkozy disse ainda que ninguém quer uma nova Guerra Fria e pediu para que a Rússia cumpra o acordo mediado por Paris e recue suas tropas até a posição que estavam antes do início dos confrontos.   A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) advertiu que a estabilidade e integridade da Geórgia "são importantes para a Aliança", por isso pediu que volte atrás em seu reconhecimento da independência das repúblicas separatistas. O Conselho do Atlântico Norte, principal órgão decisório da Otan, analisou nesta quarta a situação no Cáucaso e emitiu um comunicado no qual "condena a decisão da Federação Russa" e pede que volte atrás em sua decisão.   A possível entrada da Geórgia e da Ucrânia na Otan protagonizou grande parte da cúpula passada de líderes da Aliança Atlântica, realizada no início de abril, em Bucareste, e na qual os EUA apoiaram a entrada de ambos os países, a que a Rússia se opõe firmemente. A Aliança não tomou uma decisão diante da rejeição de vários membros, como Alemanha, França e Espanha, mas os líderes aliados declararam que ambos os países "serão no futuro membros da Otan".   Ucrânia   A Rússia pode estar de olho em outros países vizinhos, como a Ucrânia e a Moldávia, depois de ter atacado a Geórgia, disse o ministro das Relações Exteriores francês, Bernard Kouchner. Perguntado sobre se a Rússia preferiria confrontar o Ocidente ou cooperar com ele, Kouchner disse, em entrevista à rádio Europe 1: "isso não é impossível".   "Repito que isso é muito perigoso e já há outros objetivos que pudemos supor e objetivos da Rússia, em particular a Criméia, a Ucrânia e a Moldávia", disse Kouchner, cujo país detém a Presidência rotativa da União Européia. Olli Rehn, comissionário de expansão da UE, disse que os países-membros devem manifestar claramente o seu apoio aos esforços ucranianos de se juntar ao bloco, diante da possível ameaça da Rússia.   "A Ucrânia pode ser a próxima a sofrer pressão política da Rússia... Então, é importante, do ponto de vista da estabilidade, mandar um sinal positivo, mostrando que é possível que a Ucrânia progrida em relação à União", disse Rehn em Helsinki, Finlândia.   Assim como a Geórgia, a Ucrânia também tem um presidente pró-Ocidente que quer se juntar à Otan, medida que afastaria o país da esfera de influência da Rússia, o que desagrada o Kremlin. Parte considerável da população ucraniana fala russo, mas o país é bem maior que a Geórgia.   A Ucrânia afirmou nesta quarta-feira que deseja negociar novas tarifas pelo aluguel de uma base naval do mar Negro à Rússia, uma manobra que pode aprofundar as tensões em uma região já transtornada pelo conflito entre os russos e os georgianos.  O presidente ucraniano, Viktor Yushchenko, ficou ao lado dos países ocidentais ao condenar a decisão russa, anunciada na terça-feira, de reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia. "Lamentamos essa decisão. Para a Ucrânia isso é inaceitável e, portanto, não podemos dar apoio a essa posição", disse Yushchenko em uma entrevista concedida à Reuters. Segundo o presidente ucraniano, seu governo pretendia discutir com a Rússia o aumento do aluguel da base naval de Sevastopol, na região da Criméia. A base serve de quartel-general da frota russa no mar Negro. A Rússia disse que qualquer renegociação significaria o descumprimento de um acordo firmado entre os dois países em 1997 e pelo qual a base ficará alugada aos russos até 2017 por um valor de 98 milhões de dólares ao ano.

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