Rússia reconhece independência de separatistas da Geórgia

Tbilisi acusa Moscou de anexar os territórios Ossétia do Sul e Abkásia, invadidos na incursão russa no país

Agências internacionais,

26 de agosto de 2008 | 08h22

Desafiando a pressão dos Estados Unidos, o presidente russo, Dmitri Medvedev, disse nesta terça-feira, 26, que Moscou reconhece a independência das duas regiões separatistas na Geórgia. Após o anúncio, a chancelaria georgiana acusou a Rússia de tentar anexar os territórios da Ossétia do Sul e Abkásia, com aspirações pró-Moscou.   Veja também: Entenda o conflito separatista na Geórgia   O Parlamento russo aprovou na segunda, por unanimidade, a resolução que abriu caminho para o reconhecimento da Ossétia do Sul e Abkásia. A moção, aprovada pelas duas câmaras do Parlamento, aumentou ainda mais a tensão entre Moscou e o Ocidente, que exige que a integridade territorial da Geórgia seja mantida. Em discurso pela televisão, o chefe do Kremlin informou que assinou os decretos sobre o reconhecimento das duas regiões como Estados independentes e pediu que outros países sigam seu exemplo e façam o mesmo.   O anúncio vem à tona dias depois de a Rússia ter retirado suas tropas da Geórgia após uma breve guerra deflagrada no início do mês, quando forças georgianas invadiram a Ossétia do Sul em uma tentativa de recuperar o controle sobre a província separatista.   O líder russo disse que a decisão é baseada nos postulados da Carta da ONU, a declaração de 1970 sobre os princípios do direito internacional sobre as relações amistosas entre os Estados e outros documentos internacionais. "Não foi uma opção fácil, mas é a única possibilidade de garantir a vida das pessoas", afirmou em referência aos habitantes das duas regiões que romperam com Tbilisi no início da década passada.   Medvedev acusou o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, de genocídio devido a seu ataque à Ossétia do Sul, que levou a Rússia a intervir militarmente no conflito. "Em 8 de agosto, em Tbilisi, fizeram sua opção. Saakashvili escolheu o genocídio para cumprir suas tarefas políticas", disse o presidente russo, que ressaltou que o dirigente da Geórgia, "com suas próprias mãos, afogou as esperanças de convivência pacífica de ossetas, abkhazes e georgianos em um só Estado".   O governo da Geórgia respondeu rapidamente, afirmando que a decisão isolará Moscou ainda mais. O vice-ministro de Relações Exteriores, Giga Bokeria, afirmou que a decisão é uma anexação do território georgiano por Moscou. "Esta é uma anexação visível destes territórios, que fazem parte da Geórgia".   Os líderes da Abkházia, Serguei Bagapsh, e da Ossétia do Sul, Eduard Kokoiti, comemoraram a decisão russa. "É um dia histórico para nosso povo. Estou agradecido às autoridades e ao povo da Rússia pelo grande passo que deram hoje ao reconhecer a independência da Abkházia", disse Bagapsh por telefone à agência russa Interfax. Bagapsh acrescentou que a Abkházia há muito tempo "escolheu a via da independência" e sempre estará "junto à Rússia". O líder da Ossétia do Sul disse que pedirá a Moscou que estabeleça uma base militar em seu território, informou a agência de notícias Interfax.   Analistas acreditam que poucos países sigam os passos do Kremlin. No entanto, o reconhecimento de Moscou à independência das duas regiões separatistas da Geórgia certamente acirrará a tensão com Washington. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, vinha insistido em que a Rússia respeitasse a integridade territorial da Geórgia durante e depois do conflito.   A Abkházia e a Ossétia do Sul romperam com Tbilisi em meio a sangrentas guerras travadas no início da década passada, em meio ao colapso da União Soviética (URSS). As duas províncias chegaram a declarar independência na época, mas até a iniciativa tomada hoje pela russa, as aspirações separatistas delas não contavam com respaldo internacional. Após a dissolução da URSS, a Geórgia permaneceu aliada a Moscou. A situação começou a mudar em 2004, quando Mikhail Saakashvili assumiu a presidência do país buscando estreitar os laços com o Ocidente.   Protestos internacionais   A França, mediadora do cessar-fogo entre Geórgia e Rússia, qualificou a decisão de Medvedev como "lamentável", segundo afirmou o porta-voz do Ministério francês de Relações Exteriores, que ressaltou ainda a integridade territorial georgiana.   A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, afirmou durante entrevista coletiva na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, que o anúncio da Rússia foi "lamentável". A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, condenou de maneira veemente a decisão e disse que foi "absolutamente inaceitável".   O Reino Unido rejeitou a decisão do presidente russo. "Rejeitamos isto categoricamente e reafirmamos a soberania e a integridade territorial da Geórgia", disse uma porta-voz do gabinete de Relações Exteriores do governo britânico. "Isto contraria as obrigações que a Rússia assumiu repetidamente com as resoluções do Conselho de Segurança (da Organização das Nações Unidas). (A medida) não faz nada para melhorar as perspectivas para a paz no Cáucaso", acrescentou a porta-voz.   O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jaap de Hoop Scheffer, disse que as ações da Rússia nas últimas semanas, incluindo o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, "colocam em dúvida" seu compromisso "com a paz e a segurança no Cáucaso". Em comunicado, De Hoop Scheffer expressou sua rejeição à decisão e disse que representa uma "violação direta a várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a integridade territorial da Geórgia". "Resoluções que a própria Rússia apoiou", lembrou o secretário-geral da Aliança.   Matéria atualizada às 12h10.

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