Rússia tenta anexar províncias ao admitir soberania, diz Geórgia

Medvedev reconhece independência de regiões separatistas pró-Moscou; comunidade diz que medida é ilegal

Agências internacionais,

26 de agosto de 2008 | 13h55

O presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, afirmou nesta terça-feira, 26, que o reconhecimento independência das duas províncias separatistas georgianas pela Rússia é uma tentativa de anexar os territórios. O presidente russo, Dmitri Medvedev, reconheceu formalmente a soberania da Ossétia do Sul e da Abkházia, dois enclaves georgianos com aspirações pró-Moscou, apesar da pressão internacional   Veja também: Rússia reconhece independência de separatistas Entenda o conflito separatista na Geórgia   A decisão, tomada após o fim das operações do Exército russo no país vizinho, tenta consolidar o sucesso da ação militar em ganhos políticos permanentes, além de provocar ainda mais o Ocidente, que insiste na integridade territorial da Geórgia. Um dia depois da aprovação do pedido do Parlamento para o reconhecimento, Medvedev anunciou que ratificou o decreto que o governo russo reconhece a soberania dos dois territórios e culpou o presidente da Geórgia por provocar um banho de sangue e forçar uma ação de Moscou.   Medvedev reafirmou que era claro que as províncias não poderiam mais viver como parte da Geórgia, e que a Ossétia do Sul e a Abkházia devem ser independentes. "Esta não foi uma escolha fácil, mas é o único caminho de salvar a vida das pessoas", afirmou. O chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou que Moscou não espera que as regiões separatistas sejam anexadas pela Rússia. "A questão não nos foi apresentada (pelo líderes da Ossétia do Sul e da Abkházia) e eu não acho que será levantada", disse Lavrov a repórteres durante uma teleconferência.   O presidente georgiano, por sua vez, voltou a acusar a Rússia de tentar incorporar as regiões georgianas. "Esta é a primeira tentativa na Europa, desde o Nazismo alemão e de Stalin, que um grande país tenta anexar o território de outro país", Saakashvili. "É um passo absolutamente ilegal e que não terá conseqüências jurídicas para a Geórgia e para o resto do mundo", declarou em mensagem à nação pela TV.   Comunidade internacional   A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) rejeitou a decisão da Rússia. A aliança afirmou que Moscou violou resoluções da Organização das Nações Unidas e não demonstrou comprometimento com a paz na região. O secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, disse que a medida foi uma "violação direta" de várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que haviam sido apoiadas pelo governo russo. Scheffer confirmou o apoio da Otan à soberania e à integridade territorial da Geórgia. "As ações da Rússia nas últimas semanas levantam a questão sobre o comprometimento russo com a paz e a estabilidade no Cáucaso", disse o secretário-geral em comunicado.   A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, qualificou a decisão russa como "lamentável". "Como os Estados Unidos são um membro permanente do Conselho de Segurança, isso simplesmente estará terminado ao chegar ao CS", afirmou ela. O anúncio do reconhecimento das duas províncias separatistas como Estados independentes foi feito nesta terça-feira pelo presidente russo, Dmitry Medvedev. Para Condoleezza, a medida coloca a Rússia em oposição a uma resolução do Conselho de Segurança, do qual a própria Rússia é parte.   A chanceler alemã, Angela Merkel, também condenou a posição russa como "absolutamente inaceitável". Porém Merkel pediu que os canais de comunicação entre Moscou e a Europa permaneçam em funcionamento. Em Londres, o ministro de Relações Exteriores britânico, David Miliband, qualificou a atitude de Medvedev como "injustificável e inaceitável". "Nós apoiamos totalmente a independência e a integridade territorial da Geórgia, o que não pode ser mudado por um decreto de Moscou."   Em Paris, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Eric Chevalier, disse a repórteres que a França considera a decisão "lamentável, e nós reafirmamos nosso compromisso com a integridade territorial da Geórgia". A França mantém a Presidência rotativa da União Européia e convocou na segunda-feira um encontro de líderes do bloco para discutir a crise entre a Rússia e a Geórgia. A Itália e a República Checa também respaldaram a Geórgia na crise. Em Viena, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) condenou a atitude de Moscou e pediu a retirada imediata das tropas russas da Geórgia.   A Organização das Nações Unidas (ONU) não conseguiria adotar sanções contra o país porque este, na qualidade de membro permanente do Conselho de Segurança, possui poder de veto dentro do órgão. Além disso, as potências ocidentais temem realizar qualquer manobra que faça a Rússia cancelar seu apoio aos esforços para conter o programa nuclear do Irã ou sua anuência à movimentação de forças da Otan no Afeganistão.   Uma eventual retaliação poderia envolver alguma grande entidade internacional: expulsar a Rússia do Grupo dos Oito (G8, que reúne grandes países industrializadas) ou vetar o acesso dela à Organização Mundial do Comércio (OMC). Em uma entrevista concedida ao canal de TV Russia Today, controlado pelo governo russo, Medvedev disse não ter medo de uma nova Guerra Fria. "Nada nos assusta, mesmo a possibilidade de instalar-se uma nova Guerra Fria. Mas nós não queremos isso", afirmou o presidente. "Nesta situação, tudo dependerá da postura adotada por nossos parceiros."   Rompimento com a Otan   A Rússia afirmou que a política de "dois pesos e duas medidas" do Ocidente em relação ao conflito da Geórgia forçou o país a congelar a cooperação militar com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Porém Moscou afirmou que ainda deseja trabalhar com a Otan para enfrentar o terrorismo e o tráfico de drogas.   Em um comunicado divulgado nesta terça-feira, a Rússia informou que iria interromper todos os exercícios militares, as trocas de delegações militares, as visitas de alto nível de funcionários da Otan a Moscou e o desembarque de navios de combate da Otan em portos russos. Além disso, o governo russo afirmou que um comitê sobre a manutenção de paz seria suspenso, bem como um acordo que teria permitido às tropas da Otan cruzar o território russo, e também as negociações para que aviões militares de carga russos trabalhassem com a aliança. Porém os russos afirmaram estar prontos para "manter a cooperação no combate ao terrorismo internacional, ao tráfico de drogas, no planejamento para emergências civis e no controle de armas".

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