Yves Logghe/AP
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Sarkozy vê crise como 'melhor amiga' e enfurece esquerda

Presidente da França adota postura pouco comum em época de aproximação das eleições

Reuters

02 de janeiro de 2012 | 15h31

PARIS - Com a economia francesa em queda , o presidente Nicolas Sarkozy está buscando uma estratégia de campanha pouco ortodoxa: pintar a crise como tão ruim e tão global que seus opositores sem experiência não conseguiriam lidar com ela, e esperar que essa imagem se mantenha até o dia da eleição.

A lista dos problemas franceses - o nível recorde de desemprego, as perspectivas desoladoras de crescimento, a ameaça de um rebaixamento da nota de crédito do país e planos de redução de déficit cada vez mais duvidosos - colocaria muitos líderes em modo de preservação, buscando limitar os danos.

Mas Sarkozy adotou um caminho diferente, fazendo um discurso em 31 de dezembro sobre temores de uma crise econômica que ele descreveu como "planetária", "inédita" e "a pior desde a Segunda Guerra Mundial".

Os socialistas da oposição, cujo candidato para a eleição presidencial de abril, François Hollande, tem uma clara vantagem sobre Sarkozy nas pesquisas de opinião, criticou o discurso como uma forma desleal de Sarkozy mascarar as suas falhas, enquanto capitalizava sobre as ansiedades populares.

"Houve uma admissão de fraqueza", disse Manuel Valls, porta-voz de Hollande, depois do discurso de Sarkozy. "Essa é a postura de Nicolas Sarkozy... brincar com os medos e o temor da crise".

Analistas dizem que a mensagem subliminar de Sarkozy foi a de que, sem sua liderança, a França estaria em uma posição muito pior do que a atual, dada a natureza global inédita da crise, na qual os problemas da França são apenas um sintoma.

Para a oposição, a implicação é a de que os outros candidatos não são fortes ou experientes o bastante para liderar a França em meio à tempestade.

O analista político Pascal Perrineau resumiu a estratégia em um comentário feito ao jornal Les Echos: "Se a crise estiver ruim, Sarkozy é derrotado; se a crise estiver muito ruim, ele é eleito".

Valls insistiu que Sarkozy havia empurrado a França para a beira da recessão. "Temos um milhão de pessoas desempregadas a mais do que no início de seu mandato de cinco anos", disse em uma coletiva de imprensa.

Em seu discurso de Ano Novo, Sarkozy prometeu usar uma reunião no dia 18 de janeiro com sindicatos, a apenas três meses do dia da eleição, para tentar chegar a um tipo de acordo para melhorar a flexibilidade do mercado de trabalho, a fim de reduzir o desemprego.

Mas os Socialistas torcem o nariz para suas chances de alcançar uma reforma tão perto da eleição. "Não acho que ninguém tenha sido enganado, todo mundo sabe que ele é um candidato e todo mundo sabe que não dá para fazer em quatro meses, na questão de empregos, desemprego e segurança trabalhista, o que ele não fez nos primeiros quatro anos de sua presidência", disse Valls.

Um Sarkozy solene pediu aos franceses que sejam firmes enquanto pedia uma nova tributação sobre bens importados para ajudar a sustentar um sistema de bem-estar social que hoje depende em grande parte das taxas sociais tiradas do salário dos trabalhadores.

"A estratégia que estamos perseguindo nos últimos 20 anos é a de reduzir os custos trabalhistas para nos tornarmos mais competitivos. Isso produziu algum aumento de salário até agora? Não. Vai aumentar os salários na crise? É claro que não", disse o porta-voz do Partido Socialista, Benoit Hamon.

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