Sátira ao governo com jumento dá cadeia no Azerbaijão

Dois blogueiros produzem vídeo para criticar os altos preços pagos pela importação dos animais

Ellen Barry, do The New York Times,

16 de julho de 2009 | 07h24

MOSCOU - No fim do mês passado, um grupo de blogueiros do Azerbaijão divulgou sua mais nova obra irônica: um vídeo em que um jumento participa de uma entrevista na qual jornalistas balançam a cabeça com ar de seriedade.

 

Vestindo uma volumosa fantasia de mula, Adnan Hajizada parece um trovador recitando a respeito da vida mansa que espera os jumentos no Azerbaijão. Para seu público - jovens azerbaijanos cosmopolitas que acompanham seus comentários em blogs e no Facebook -, o vídeo foi um bem-humorado recado para o governo, acusado pela mídia local de ter pago preços exorbitantes para importar jumentos.

 

Hajizada, de 26 anos, e seu colega de ativismo, Emin Milli, de 30 anos, foram detidos na semana passada em Baku. Segundo seus partidários, o fato marcaria o início de uma onda de repressão contra a mídia online.

 

Autoridades disseram que eles agrediram outros homens, apesar de testemunhas afirmarem que os dois estavam com amigos em um restaurante quando desconhecidos interromperam a conversa e provocaram a briga. Hajizada e Milli denunciaram a agressão, mas a polícia abriu um processo criminal contra eles sob a acusação de perturbar a ordem pública, o que corresponde a uma pena de 1 a 5 anos de prisão.

 

No Azerbaijão e em outros países da região, o uso da internet aumenta na mesma proporção que a liberdade de imprensa sofre restrições. Com o governo azerbaijano beneficiado pelos altos preços do petróleo nos últimos anos, as vozes da oposição praticamente desapareceram da vida pública.

 

A TV, antes financiada por oligarcas concorrentes, foi posta sob sólido controle estatal. Páginas na internet - especialmente as registradas em servidores estrangeiros, que não podem ser bloqueados pelo governo - tornaram-se "a última fonte de informação", segundo o jornalista Magerram Zeynalov.

 

Milli e Hajizada voltaram a Baku após frequentar universidades nos EUA e Alemanha. Milli lançou um canal de TV online. Hajizada organizou um grupo de jovens, chamado Ol, e começou a explorar a sátira em vídeo - algo que seu pai, um destacado opositor, disse que seria perigoso.

 

Miriam Lanskoy, da National Endowment for Democracy, fundação que ajudou a financiar a organização de Hajizada, disse que a notícia das detenções foi um choque, pois teve como alvo um grupo de jovens de boa formação que usam a internet para buscar notícias.

 

"É como dizer aos jovens que estão mais bem preparados que eles não podem se expressar", disse Miriam. "Trata-se de um país que faz um grande esforço para não perder esses jovens. Esta é também uma mensagem para eles."

Tudo o que sabemos sobre:
Azerbaijão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.