Sérvia propõe divisão de Kosovo em linhas étnicas

Belgrado apresenta proposta para separar maioria albanesa da minoria sérvia na província independente

Agência Estado e Associated Press,

24 de março de 2008 | 11h47

Nove anos depois de a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ter deflagrado uma guerra contra a antiga Iugoslávia por causa de Kosovo, Belgrado propôs que a província separatista que declarou independência no mês passado seja dividida em linhas étnicas. A sugestão é separar a maioria albanesa da minoria sérvia. Veja também:Mapa: a disputa dos Bálcãs Putin diz que enviará ajuda humanitária aos sérvios do Kosovo A proposta, publicada pela mídia sérvia nesta segunda-feira, 24, foi enviada à Organização das Nações Unidas (ONU). A entidade é responsável pela administração de Kosovo desde o fim dos 78 dias de ataques aéreos da Otan para conter a violenta investida sérvia contra os separatistas de etnia albanesa em 1999. O documento informa que Belgrado reconhece a jurisdição da ONU sobre Kosovo. Mas acrescenta que apenas os sérvios, e não os albano-kosovares, podem controlar a polícia, o Judiciário, e as fronteiras em cerca de 15% da área de Kosovo em que os sérvios são maioria. "Os policiais sérvios estão respondendo às autoridades locais sérvias, e trabalham sob o comando" da polícia da ONU em Kosovo, afirma o documento. Até então, a força policial da ONU tem reunido tanto funcionários sérvios como étnicos albaneses. Analistas observam que Belgrado está tentando assumir controle administrativo e político da maioria das regiões do norte de Kosovo, onde os sérvios representam a maioria da população. O ministro da Sérvia para Kosovo, Slobodan Samardzic, disse que por causa da declaração "ilegal" de independência dos albano-kosovares, em 17 de fevereiro, apenas os sérvios, com o auxílio de Belgrado, podem implementar a autoridade das Nações Unidas na região. Samardzic afirmou que a proposta criaria uma "divisão funcional" entre os albano-kosovares e os sérvios. Os albaneses representam 90% dos cerca de dois milhões de habitantes de Kosovo. Um alto funcionário albano-kosovar rejeitou a proposta. "Eles estão saudosos do velho modo de pensar. Nossos únicos interlocutores sobre Kosovo são o povo de Kosovo e a comunidade internacional", disse Hajredin Kuqi, vice-primeiro-ministro de Kosovo. O vice-chefe da missão da ONU para Kosovo, Larry Rossin, informou que o documento foi enviado para a sede das Nações Unidas em Nova York para avaliação. O Parlamento de Kosovo declarou independência da Sérvia em 17 de fevereiro. A Sérvia, que considera o território o berço histórico de sua nação, vê a declaração como inválida perante a lei internacional. Os sérvios de Kosovo enfrentaram tropas da ONU e da Otan, este mês, em Mitrovica, no norte de Kosovo. O confronto deixou um policial da ONU morto e dezenas de pessoas feridas. A ONU acusa funcionários de Belgrado de orquestrarem a violência com o objetivo de manter controle sobre as áreas de população sérvia de Kosovo. Enquanto isso, sérvios e albaneses étnicos marcaram de forma nitidamente diferente o nono aniversário do início dos bombardeios da Otan contra a extinta Iugoslávia. O primeiro-ministro da Sérvia, Vojislav Kostunica, e outros membros do governo estiveram em uma cerimônia realizada em uma igreja de Belgrado recordando as centenas de sérvios mortos durante os ataques aéreos da Otan. Em Pristina, o presidente kosovar, Fatmir Sejdiu, agradeceu à aliança pelo bombardeio que "interrompeu a agressão dos militares e paramilitares da Sérvia contra o povo de Kosovo". "Nós expressamos nossa mais profunda gratidão e agradecemos aos EUA e à União Européia (UE) por ajudarem o Kosovo quando nosso povo estava ameaçado de extinção", disse Sejdiu, em uma mensagem marcando a data. Kostunica, cujo governo caiu no início do mês por causa de divergências entre nacionalistas e parceiros da coalizão pró-Ocidente sobre Kosovo e a integração à UE, criticou a Otan pelos bombardeios. "Agora está mais que claro que a destruição impiedosa da Sérvia no bombardeio da Otan tinha apenas um objetivo, que é tornar Kosovo o primeiro Estado criado pela Otan no mundo", escreveu Kostunica em um comunicado. Rússia Em Moscou, o presidente Vladimir Putin ordenou ao governo da Rússia que prepare e envie auxílio humanitário para ás áreas de população sérvia de Kosovo, informou uma agência de notícias russa. Putin disse ao primeiro-ministro para tratar do assunto durante uma sessão do gabinete. Segundo o presidente, não há nenhum significado político no gesto, segundo a RIA-Novosti. A Rússia apoiou enfaticamente a oposição da Sérvia à independência de Kosovo. A separação da província, por sua vez, foi reconhecida por países da Europa e pelos Estados Unidos. Putin qualificou o gesto de Kosovo como ilegal e imoral. Funcionários do governo russo alertaram contra o uso da força contra os sérvios no norte de Kosovo. "Se auxílio humanitário é necessário, façamos isso, mas sem conotações políticas", disse Putin, segundo a RIA-Novosti. Putin pronunciou-se depois de o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, dizer no encontro do gabinete que "a situação humanitária piorou um pouco" nas áreas de Kosovo com maioria de população sérvia. Lavrov citou um pedido de auxílio do governo sérvio. Segundo o ministro, os principais itens solicitados são medicamentos e equipamentos médicos, comida não perecível e produtos de higiene.

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