Suíça admite descaso com a violência de neonazistas no país

Comunidade brasileira afirma que 'ânimos estão acirrados' após advogada grávida ser torturada na segunda-feira

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2009 | 11h43

A intergrante de uma comissão federal suíça admitiu que a população do país "não se importa com as vítimas de extremistas de direita" e alertam que, de fato, qualquer estrangeiro tem hoje "motivos para ter medo da violência dos grupos neonazistas". Em entrevista exclusiva ao Estado, a diretora da Comissão Federal Suíça contra o Racismo, Doris Ansgt, revelou que há de fato um mal-estar no país em relação à xenofobia.   Veja também: Celso Amorim intervém no caso de torturada na SuíçaMaior partido do país é famoso por propaganda racista 'Fomos vítimas da xenofobia', diz pai de torturada na Suíça   Na última segunda-feira, a brasileira Paula Oliveira foi atacada por neonazistas suíços na periferia da cidade. Grávida de três meses, Paula perdeu as gêmeas e permanece hospitalizada. "Abrimos uma investigação e precisamos de algum tempo para reunir provas", afirmou a porta-voz da polícia de Zurique Brigit Vogt. Entre a comunidade brasileira na Suíça, o caso está chamando a atenção. "Os ânimos estão acirrados", afirmou Irene Zwentsch, brasileira que trabalha para o Conselho Brasil-Suíça, uma entidade com sede no país alpino para ajudar a integração dos brasileiros.   "O público em geral não se importa com as vítimas dos extremistas. Qualquer um que se pareça estrangeiro ou que tenha pele escura tem razão de ter medo da violência", afirmou Doris. "Racismo, antissemitismo, islamofobia são inerentes às ideologias de extrema direita", disse. Doris Angst ataca também o comportamento da polícia local no tratamento de casos de racismo. "A polícia suíça é parcialmente cega quando se trata de casos de extremistas e de neonazistas", afirmou. Para ela, o comportamento de jovens extremistas contra os estrangeiros é um "reflexo dos sentimentos que vive a sociedade suíça".   Brasileira torturada   A advogada brasileira Paula Oliveira, grávida de três meses de gêmeas, foi atacada e torturada por três neonazistas na noite de segunda-feira na cidade suíça de Dubendorf, na periferia de Zurique. Os agressores inscreveram, com um estilete, a sigla SVP - iniciais em alemão do Partido do Povo Suíço, de extrema direita - na barriga e nas pernas da brasileira. O ataque fez com que Paula, casada com um suíço, abortasse.   Nos últimos meses, ataques xenófobos têm ganhado força na Europa diante de um discurso cada vez mais racista dos partidos de extrema direita. Na Suíça, a crise financeira internacional e o aumento do desemprego deram popularidade aos partidos políticos que defendem medidas contra a imigração. Casos de ataques contra estrangeiros aumentaram, mas, até agora, os brasileiros não eram os alvos preferidos - as principais vítimas são imigrantes turcos, ex-iugoslavos e africanos.   Paula, uma pernambucana de 26 anos, trabalha na multinacional Maersk e, segundo o Itamaraty, vive legalmente na Suíça. Ela foi atacada quando voltava do trabalho, após desembarcar na estação de trem perto de sua casa. Paula falava ao telefone celular com a mãe, que estava no Recife, quando foi cercada pelos três skinheads. Levada para um parque, foi espancada por 15 minutos e teve sua roupa parcialmente arrancada. Um deles usou um estilete para cortar barriga, braços, rosto, tórax e pernas.

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