EFE/EPA/BENJAMIN MANSER
EFE/EPA/BENJAMIN MANSER

Suíços rejeitam campanha de extrema direita e aprovam naturalização

País votou sobre destino da 3a geração de imigrantes. Mas cartazes com burkas e jihadistas voltaram a alimentar o debate sobre a integração. 

Jamil Chade, em Genebra, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 10h47

Os suíços rejeitaram a campanha do medo liderada por partidos de extrema-direita e aprovaram nas urnas um processo facilitado para dar a cidadania aos netos de estrangeiros nascidos no país. 

A ideia de acelerar a naturalização à terceira geração de imigrantes foi proposta pelo próprio governo. Mas, assim como em votações passadas, grupos de extrema direita usam imagens polêmicas em cartazes espalhados pelo país para tentar reverter a decisão. O governo estima que 25 mil jovens seriam beneficiados pelo novo sistema que, segundo as autoridades, não significará uma naturalização automática. 

Os primeiros resultados das urnas apontaram para uma vitória do "sim" à ideia da naturalização que, em situação normal, pode exigir doze anos e mais de R$ 20 mil em custos ao candidato. Mas, a partir de agora, netos de imigrantes poderão ter parte desse processo facilitado.

Ainda assim, a iniciativa de naturalização de um neto de imigrante não tem nada de automática. Para que ela ocorra, a pessoa precisa ter menos de 25 anos, nascido na Suíça, escolarizado e com um visto válido. Imigrantes irregulares e famílias que estejam sendo ajudadas por benefícios sociais estão impedidos de solicitar a cidadania. 

Outro critério: os pais precisam ter vivido na Suíça por pelo menos uma década, com visto e escolaridade. Quanto aos avós, eles também precisam ter tido um visto de residência válido. Para completar, os jovens precisam mostrar “respeito à ordem jurídica e aos valores da constituição”, além de ser fluentes em uma das quatro línguas da suíça e pagar impostos. 

A aprovação é ainda uma derrota dos grupos de direita, como o UDC, que fez nas últimas semanas uma campanha contrária. Pelas cidades, foram colocados cartazes mostrando uma mulher com um véu integral ao lado de um apelo contra a naturalização dos estrangeiros.  Num outro cartaz, ainda mais forte, um jihadista aparece com uma arma, sugerindo que a facilitação na naturalização daria maiores chances para que terroristas e extremistas se instalassem no país. 

O UDC explica que a iniciativa do jihadista foi apenas de um setor jovem do partido no cantão de Schwyz, enquanto a mulher com a burka foi uma campanha de um grupo de cidadãos. Esse grupo, porém, é liderado por um deputado do UDC e conta com algumas das principais personalidades do partido.  

A imagem polêmica repetia a mesma estratégia do UDC usada há sete anos quando, num outro debate sobre imigração, usou a imagem de ovelhas negras sendo chutadas para fora da Suíça por ovelhas brancas. O mesmo grupo identificou em outras votações os imigrantes como criminosos. 

Para o governo e imprensa pública, o campanha desta vez foi comparada às táticas de “fatos alternativos” de Donald Trump nos EUA. Um estudo encomendado pela Secretaria de Estado para Migrações e realizado pela Universidade de Genebra concluiu que 58% dos beneficiados pela proposta seriam netos de italianos, além de um grupo importante de espanhóis e portugueses, e não de muçulmanos. 

Para se defender, membros do partido explicam que o alerta é que, no futuro, o processo de naturalização facilitada não irá tocar europeus, mas sim muçulmanos. Os dados, mais uma vez, não confirmam a tendência. 

“Em uma ou duas gerações, quem serão essas pessoas beneficiadas?”, questionou o deputado do UDC, Jean-Luc Addor. “Serão africanos, sírios e afegãos”, alertou. Addor é o presidente do Comitê contra a Cidadania Facilitada, o mesmo que encomendou os cartazes. 

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