Ariel Palacios / Estadão
Ariel Palacios / Estadão

Três partidos e um compositor de jingles

Uruguaio Gonzalo Moreira criou as melodias para as três principais campanhas à presidência

Ariel Palacios, ENVIADO ESPECIAL/MONTEVIDÉU

26 de outubro de 2014 | 05h00


Gonzalo Moreira é uma figura histórica na música popular uruguaia. Cantor e autor de músicas de resistência à ditadura militar (1973-1985) e de canções infantis, esse ex-integrante do Grupo Rumbos, transformou-se em um bem sucedido criador de jingles para empresas e políticos. 

Nestas eleições presidenciais, Moreira preparou, de forma simultânea, as melodias das canções pegajosas para as campanhas dos candidatos dos três maiores partidos políticos que seus militantes cantarolaram e assobiaram nos últimos dias. 

“O pessoal me diz que, seja lá qual for o resultado, a culpa é minha”, diz, gargalhando, em entrevista ao Estado.

Moreira defende que a Frente Ampla, que tenta eleger Tabaré Vázquez, “havia entrado em uma espécie de platô” e requeria um jingle com “mais energia”, que “convocasse o eleitorado”. Seu jingle é Que não se detenha, não deixe de sonhar.

Já para o Partido Nacional, do candidato Luis Lacalle Pou, ele preparou uma canção que estivesse de acordo com um candidato jovem que quer passar a imagem de moderno. “Por isso, me pediram uma melodia – a Somos hoje, somos agora – que quebrasse a estrutura tradicional, com algo de hip-hop”, explica. 

Para o Partido Colorado, ele preparou uma música “para um candidato que tinha de ser mais moderno, mas dando um toque folclórico”, diz, referindo-se a Pedro Bordaberry. Dessa forma, preparou a canção Vamos viver em paz, vamos sonhar acordados.

Sem exclusividade. “Cada um teve aquilo que quis e todos os candidatos estão satisfeitos. Não se queixam. Além disso, deixei claro a todos, logo de início, que não dava exclusividade para partido algum”, afirmou.

O compositor, que é o único ponto em comum entre os três partidos em disputa, acredita que conseguiu se “distanciar” e compor os jingles políticos para três partidos diferentes porque no Uruguai, atualmente, “não existem aqueles antagonismos passionais do passado”. 

Segundo Moreira, “esse é um trabalho profissional”. “Se tivesse composto simultaneamente para três partidos diferentes, na Argentina ou na Venezuela, meu corpo com certeza apareceria flutuando em um rio. A chance que tenho aqui é um sinal da civilidade do Uruguai.”

Moreira não comenta suas preferências eleitorais e recusa-se a revelar qual candidato terá seu voto na eleição de hoje. “Não digo mesmo em quem votarei”, explica. “O pessoal diz que sou de esquerda. Isso, por causa de minhas canções de protesto. Mas eu sou eu”, afirmou. 

“Quando a gente é jovem, tem várias crenças. No entanto, depois, quando crescemos, vemos que não é bem assim”, declarou o compositor.

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