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Tribunal de Contas aponta compra de pesquisas por Sarkozy

Instituto OpinionWay tinha contrato com governo para produzir pesquisas publicadas em jornal e canal de TV

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo,

17 de julho de 2009 | 14h02

O Tribunal de Contas da França anunciou nesta sexta-feira, 17, ter flagrado na contabilidade da presidência da República o pagamento de € 1,5 milhão em 2008, por parte do Palácio do Eliseu, a um instituto de pesquisas para a produção de 15 sondagens de opinião. Os levantamentos acabaram publicados em quatro dos maiores veículos de mídia do país: o jornal Le Figaro, as redes de televisão TF1 e LCI e a rede de rádios RTL - identificados com a direita francesa.

 

A informação veio à público com a divulgação, inédita, de um relatório do Tribunal de Contas sobre a contabilidade do Eliseu - que representava 0,05% do orçamento do Estado francês, ou € 112,57 milhões, em 2008. "Há 218 anos o chefe de Estado esconde suas contas dos órgãos de controle, e nós nos satisfazemos de (agora) ter esta responsabilidade", afirmou o presidente da corte, Philippe Séguin.

 

O relatório elogia o nível de transparência das contas, mas aponta ao menos duas suspeitas de irregularidades na contabilidade da administração do presidente Nicolas Sarkozy. A mais escandalosa diz respeito à suposta contratação do instituto de pesquisas OpinionWay para aferir a popularidade do governo. O contrato, assinado pelo secretário-geral do Eliseu, Claude Guéant, prevê o gasto com um "gabinete de estudos" para aferimento de opinião pública. O relatório de Séguin considera o custo "exorbitante", em especial porque as pesquisas - uma das quais orçada em € 392,2 mil - seriam, a seguir, publicadas nos veículos de mídia impressa e eletrônica.

 

A presidência silenciou sobre o tema, valendo-se da ausência de Sarkozy, que, de folga, não estava em Paris. Já os partidos de oposição denunciaram "um sistema de instrumentalização da opinião". A reação também veio de parte da associação de jornalistas do Figaro, que pediu o imediato cancelamento do vínculo entre o jornal e o instituto. "Cabe à direção encerrar este tipo de coprodução, que fere gravemente a credibilidade dos títulos do grupo", argumenta a entidade.

 

Contatado, o instituto reagiu apenas por meio de uma nota oficial, na qual informou que mantém dois contratos, um com a TV LCI e com o jornal Le Figaro, feito uma vez por semana desde 2007, e outro com "outros clientes". "Esta prestação de serviço corresponde a questões confidenciais feitas regularmente em uma enquete omnibus (enquete única que agrupa questões compradas por diferentes clientes, e que gera economia de escala)", afirmou o OpinionWay. "Ao contrário do que o Tribunal de Contas deixa entender, esta prestação de serviços não corresponde às questões financiadas por LCI e Le Figaro."

 

O escândalo se soma à informação de que o TC também exigiu do Eliseu o reembolso de € 14,1 mil originários de despesas pessoais de Sarkozy, pagas com dinheiro público. O reembolso foi feito antes mesmo da divulgação do relatório. De acordo com o TC, "o pessoal da administração pública tinha por hábito, por comodidade ou frequentemente por urgência, pagar certas despesas de caráter privado", afirma Séguin, em tom complacente, dirigindo-se ao próprio presidente: "O tribunal informa-lhe que o senhor reembolsou a totalidade das despesas privadas realizadas em 2008, das quais o senhor não tinha conhecimento, no valor de € 14.123."

 

Até o momento, nenhuma investigação foi aberta para apurar as origens e as responsabilidades pelos "erros" cometidos contra o erário público francês.

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