Turquia ameaça boicotar bancos suíços por lei antiminarete

Islâmicos questionam neutralidade suíça e Kadafi exige que ONU retire sede de Genebra

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2009 | 09h31

Ao mesmo tempo em que a Líbia pedia ontem à Organização das Nações Unidas (ONU) que abandone a Suíça e monte sua sede em outro país, a Turquia ameaçava liderar um boicote de países árabes e muçulmanos contra o sistema bancário suíço. O protesto foi motivado pela aprovação, no fim de semana, de uma polêmica lei que proíbe a construção de minaretes em mesquitas instaladas na Suíça.

 

O projeto tinha sido proposto por políticos de extrema direita, mas o resultado da consulta acabou demonstrando que a maioria da população da União Europeia não tolera a presença de símbolos de religiões diferentes das suas. Na Suíça, existem 400 mil muçulmanos e 160 locais de culto. Mas apenas quatro minaretes.

 

Ontem, Trípoli pediu em um documento oficial entregue à ONU que, diante da decisão da população suíça, a própria sede europeia das Nações Unidas fosse transferida de lugar. Além de seu escritório central em Nova York, uma parte significativa das Nações Unidas está em Genebra, com mais de 30 mil funcionários. A neutralidade da Suíça sempre serviu de argumento para que o país fosse escolhido como sede.

 

O Comando Popular Islâmico, uma das várias entidades dirigida pelo ditador líbio, Muamar Kadafi, tomou a decisão de pedir à ONU que deixe Genebra. A Líbia é a atual presidente da Assembleia-Geral das Nações Unidas e da União Africana. Além disso, Trípoli entrou em guerra diplomática com os suíços desde que a polícia de Genebra prendeu um dos filhos de Kadafi por ele ter espancado funcionários de um hotel de luxo na Suíça.

 

O pedido para mudar a sede europeia da ONU não tem chance de ser aprovado, como também não foi aprovada a proposta da Líbia de que a Suíça fosse simplesmente dissolvida.

 

Vaticano, religiosos do Egito e Indonésia condenaram a decisão. Para a ONU, trata-se de uma violação ao direito de liberdade religiosa.

 

Mas quem fez a ameaça mais dura até agora foi o governo turco. A ideia proposta por Ancara tiraria o sono de qualquer suíço: os turcos pedem a todos os muçulmanos que retirem suas fortunas dos bancos de Genebra e Zurique. Estima-se que a Suíça guarde um terço das fortunas privadas do planeta, cerca de US$ 3 trilhões. Uma parte importante vem de famílias e grupos empresariais do mundo árabe.

 

"Estou certo de que esse voto irá fazer com que nossos países irmãos do mundo muçulmano repensem a ideia de deixar seus dinheiros e investimentos em bancos suíços", afirmou o ministro turco Egemen Bagis, em entrevista ao jornal Zaman, de Trípoli. Bagis é o ministro encarregado de negociar a adesão da Turquia à União Europeia, um projeto que hoje, segundo grande parte dos analistas, não passa de uma ilusão. A Associação de Banqueiros Suíços admitiu ontem que teme uma possível evasão das fortunas árabes por causa da votação. Mais de 57% dos eleitores na Suíça votaram por banir os minaretes.

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