Turquia deve eleger ex-ativista islâmico como presidente

Parlamento pode dar vitória para o primeiro presidente muçulmano do país e último escolhido por voto indireto

PAUL DE BENDERN, REUTERS

28 de agosto de 2007 | 09h03

O ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gul, deve ser eleito presidente da Turquia pelo Parlamento nesta terça-feira. É a primeira vez na história moderna do país predominantemente muçulmano, mas laico, que um ex-ativista islâmico chega a esse cargo.Gul se firmou como um diplomata respeitado desde que seu partido, o AK, conquistou o governo pela primeira vez, em 2002. Sob seu comando, a Turquia iniciou negociações para aderir à União Européia.Como presidente, promete servir a todos os turcos, mas os militares, guardiões do caráter laico da política local, o vêem com desconfiança e acham que o AK tem um programa islâmico secreto.O general Yasar Buyukanit, chefe das Forças Armadas, disse na segunda-feira haver um "centro do mal" tentando abalar a república laica. Isso sugere que os militares não ficariam de braços cruzados caso entendam que há ameaças à separação religião-Estado.Muitos observadores acham, porém, que Gul vai evitar o confronto. "Não se devem esperar mudanças radicais com Gul como presidente. Seus adversários vão ficar surpresos, e seus seguidores, esperando medidas radicais, vão ficar frustrados", disse o acadêmico Cengiz Çandar.Os mercados financeiros turcos ficaram turbulentos devido às declarações do comandante militar e também dos problemas globais.Gul deve ser declarado vencedor no terceiro turno da eleição indireta, marcado para as 9h (hora de Brasília). Nos dois primeiros turnos, era preciso maioria de dois terços. Agora, basta ao AK a maioria simples, já que o partido tem 341 dos 550 deputados. Há dois outros candidatos: o nacionalista Sebahattin Cakmakoglu e o socialista Tayfun Icli.A elite secular turca vê com preocupação o passado islâmico de Gul e não gostaria de ver a esposa dele usando o véu religioso nas dependências do palácio presidencial de Çankaya. Para muitos, esse lenço é um símbolo da influência religiosa que Mustafa Kemal Ataturk, fundador da Turquia moderna, tentou banir ao fundar uma república ocidentalizada sobre as ruínas do Império Otomano.Uma pesquisa da agência Konda feita para o jornal liberal Milliyet mostra que 72,6% dos entrevistados acham "normal" que a primeira-dama use o véu. Só 19,8% se disseram incomodados com isso.A Turquia, membro da Otan, vive uma crise política desde abril, quando o AK indicou Gul à Presidência pela primeira vez. Diante da reação da oposição, houve eleições antecipadas.Com a eleição de Gul, o AK, cada vez mais perto do centro no espectro político, passa a ocupar os principais cargos públicos do país.Embora o primeiro-ministro tenha a maior parte do poder, o presidente tem poder de veto sobre leis e nomeia funcionários e juízes. O cargo também tem grande força moral, por ter tido Ataturk como seu primeiro ocupante.Desde 1960, os militares já derrubaram quatro governos, mas poucos apostam que isso se repita, já que declarações feitas neste ano pelos quartéis acabaram aparentemente levando a mais votos para o AK."O Exército voltou aos quartéis, mas seus soldados ainda estão de guarda e permanecem à espreita", disse o professor Dogu Ergil, da Universidade de Ancara.(Reportagem adicional de Emma Ross-Thomas em Ancara e Daren Butler em Istambul)

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