Turquia diz que assumirá conseqüências de uma ação no Iraque

Premiê afirma que está preparado para a repercussão internacional de uma incursão contra rebeldes curdos

Associated Press e Agência Estado,

12 de outubro de 2007 | 09h02

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse nesta sexta-feira, 12, que seu país está pronto para pagar o preço de uma campanha no Iraque caso seja decidida a realização de um ataque contra rebeldes curdos em território iraquiano.  "Se tal opção for escolhida, seja qual for o preço, ele será pago", afirmou Erdogan a repórteres quando questionado sobre as repercussões internacionais de tal decisão, que pode aumentar as tensões com os EUA e o Iraque. "Há prós e contras em tal decisão, mas o que é importante são os interesses do país". O gabinete irá debater o assunto novamente para buscar a aprovação do Parlamento para enviar tropas ao país vizinho. "Estamos nos preparando para o caso de decidirmos pelas operações do outro lado da fronteira, já que não temos paciência para perder mais tempo", disse Erdogan, lembrando que a Turquia perdeu 30 cidadãos em ataques rebeldes nas últimas duas semanas.  Segundo o premiê, a Turquia vem tentando a cooperação do Iraque e dos EUA, mas não houve ações de combate ao grupo rebelde Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), no Iraque. Genocídio armênio Uma proposta que reconhece como genocídio o assassinato de 1,5 milhão de armênios entre 1915 e 1923 acirrou a tensão na relação entre Turquia e EUA. Nesta quinta-feira, o governo turco chamou para consultas seu embaixador em Washington.  O presidente da Turquia, Abdullah Gul, classificou de "inaceitável" a medida aprovada pelos deputados americanos, por 27 a 21, na quarta-feira, na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA.  Os congressistas ignoraram os pedidos do presidente, George W. Bush, e da secretária de Estado, Condoleezza Rice, e do secretário de Defesa, Robert Gates, que temem que a medida afete as relações com a Turquia, tradicional aliada dos EUA e membro da Otan.  Todos os oito ex-secretários de Estado dos EUA vivos - de Henry Kissinger a Madeleine Albright - assinaram uma carta pedindo que o projeto não fosse votado.  Aliança com os EUA A polêmica mostra o quanto os EUA são dependentes da Turquia para suas operações no Oriente Médio. Cerca de um terço do combustível e 70% da linha de suprimentos para as missões americanas no Iraque passam pela base aérea de Incirlik, em território turco.  Apesar de aliados, a relação entre Ancara e Washington não vai bem. Em setembro, a Turquia irritou a Casa Branca ao fechar um acordo com o Irã para a construção de um gasoduto de US$ 3 bilhões.  A proximidade do governo turco com o Hamas também causou indignação, tanto dos EUA quanto de Israel. Em janeiro, o premiê Recep Erdogan foi o primeiro chefe de Estado a convidar representantes do recém-eleito governo palestino para uma visita oficial à Turquia. Na comitiva palestina estava o chefe da ala terrorista do grupo, Khaled Meshaal.  Além disso, Yassin al-Kadi, que segundo os EUA é um dos financiadores da Al-Qaeda, fez doações para campanhas do AK, partido de Erdogan. Analistas dizem que os turcos perderam, assim, boa parte do lobby dos judeus americanos e se distanciaram mais ainda dos americanos.  Desde a fundação da república turca, em 1922, Turquia a Armênia não têm relações diplomáticas e a fronteira entre os dois países permanece fechada. Para os turcos, a questão é sensível. Todas as vezes que o tema é discutido, Ancara ameaça os partidários da tese do genocídio. No ano passado, o Parlamento da França aprovou uma lei que transformou em crime a negação do genocídio armênio. A aprovação da lei revoltou o governo turco, que cancelou acordos comerciais e militares com Paris.  Em plena negociação da entrada da Turquia na União Européia, os parlamentares franceses conseguiram criar um choque jurídico entre a lei turca, que condena a menção ao extermínio, e a francesa, que pune quem nega o genocídio, aumentando as queixas de Ancara de que a França quer sabotar sua adesão ao bloco.

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