Turquia julga 44 jornalistas simpáticos à causa curda

A Justiça da Turquia começou a julgar na segunda-feira 44 jornalistas acusados de ligação com separatistas curdos, no maior processo já realizado contra a imprensa no país, o que gera preocupações com a liberdade de imprensa e de organização política.

AYLA JEAN YACKLEY, Reuters

10 de setembro de 2012 | 20h37

Milhares de sindicalistas, políticos, acadêmicos e jornalistas pró-curdos já foram encarcerados desde 2009 pela acusação de serem ligados ao proscrito Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que há 28 anos trava uma campanha contra o governo turco.

"A restrição à imprensa curda (...) gera graves preocupações acerca do tratamento das minorias e da opinião das minorias", disse Emma Sinclair-Webb, pesquisadora de questões turcas na entidade de direitos humanos Human Rights Watch (HRW).

"Embora quando essas visões são ofensivas, elas devem ser protegidas", afirmou.

O julgamento ocorre num momento de agravamento da violência no conflito entre a Turquia e o PKK. Desde junho de 2011, mais de 800 pessoas morreram em confrontos, sendo cerca de 500 combatentes do PKK, 200 agentes do Estado e 85 civis, segundo a entidade International Crisis Group. Desde 1984, quando a rebelião começou, já foram contabilizados mais de 40 mil mortos, a maioria curdos.

Os réus, sujeitos a penas de 7 a 20 anos de prisão, são acusados de filiação à União das Comunidades do Curdistão (KCK), que as autoridades acusam de ser uma ala urbana do PKK, considerado por sua vez um grupo terrorista por parte da Turquia, dos EUA e da União Europeia.

Dos 44 réus, 36 estão detidos desde dezembro. Outros 46 jornalistas estão presos à espera de julgamento por outras acusações, segundo a Plataforma de Solidariedade aos Jornalistas Presos.

Por causa do barulho de parentes e amigos dos réus, os juízes do caso mandaram retirar o público das galerias, e a audiência começou com várias horas de atraso. Depois, os magistrados se recusaram a aceitar depoimentos em curdo, idioma primário da maioria dos réus.

"Usar sua língua materna é como respirar. Seria preciso solicitar permissão para respirar?", disse o réu Yuksel Genc, que leu o único depoimento em turco.

Os processos contra o KCK levam entidades de direitos humanos a questionarem o compromisso do primeiro-ministro Tayyip Erdogan e do seu governo com as liberdades individuais, especialmente devido ao uso disseminado da detenção pré-julgamento.

Alguns partidários do governo argumentam que medidas judiciais legítimas estão sendo usadas contra pessoas suspeitas de ligação ou simpatia com uma guerrilha que tem sua base de apoio no PKK, e que os processos podem ser uma pressão para que os rebeldes curdos se desmilitarizem.

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