UE propõe entrada da Sérvia em troca de acordo sobre Kosovo

Presidente sérvio rejeita proposta européia para tentar evitar conflito nos Balcãs e reitera posse da província

Agências internacionais,

14 de dezembro de 2007 | 10h07

Na tentativa de estabilizar a situação na região dos Bálcãs e evitar o confronto entre o Kosovo e a Sérvia, líderes da União Européia pretendem acelerar a entrada dos sérvios no bloco em troca da independência da província separatista. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que Belgrado só integrará o grupo caso entregue os acusados de crime de guerra e reconheça a independência do Kosovo.   Veja também: BLOG DO GUTERMAN - Albaneses de Kosovo: os "negros" dos sérvios    A declaração conjunta divulgada pela UE nesta sexta afirma que o bloco está preparado para liderar uma missão na região, com o envio de 1.800 policiais, juízes e promotores ao Kosovo - na maior ação do grupo no conflito. A nota também promete assistência econômica para a região. Sarkozy afirmou que o envio da missão civil é "inevitável".   O presidente sérvio, Boris Tadic, disse que a Sérvia não renunciará ao Kosovo e também não permitirá que a solução do estatuto da província prejudique a entrada do país nas instituições européias. Ele afirmou que a independência do Kosovo prejudica a estabilidade da região dos Bálcãs e anunciou que a Sérvia continuará tentando entrar na União Européia (UE), já que a alternativa seria o isolamento do país e seu desmoronamento econômico.   A promessa de acelerar o ingresso da Sérvia na União Européia é mais controversa. Muitos argumentam que a UE precisa encorajar reformas em Belgrado, que realiza eleições presidenciais no próximo mês. Porém, a Holanda insiste que a Sérvia deve entregar primeiro os seus criminosos de guerra ao Tribunal Internacional de Haia para julgamento.   A medida apaziguadora é um primeiro passo desde que o Tratado de Lisboa foi assinado, na quinta-feira. O novo acordo entre dos 27 países reforça a importância da negociação diplomática e distancia ações mais ofensivas, como as promovidas pelos Estados Unidos.   Sérvia e Kosovo têm posições irreconciliáveis. Durante as negociações, os sérvios ofereceram o máximo de autonomia, bandeira, hino e até uma seleção de futebol. Belgrado só controlaria a política externa e sobre o patrulhamento das fronteiras. A maioria albanesa, contudo, não aceita outra coisa que não a independência total.   Postura dividida     Kosovo tem 2 milhões de habitantes, dos quais 95% são albaneses e 100 mil sérvios. A região é parte da Sérvia. A divisão de um Estado multinacional seria um convite para que minorias em outras partes do mundo também reivindiquem a emancipação. Num continente abarrotado de países multinacionais como a Europa, Kosovo pode ser sinônimo de um desarranjo gigantesco.   O medo de estabelecer uma jurisprudência é a maior razão de a UE estar dividida sobre o assunto. Espanha, Eslováquia, Hungria, Grécia, Bulgária, Chipre e Romênia - que convivem com minorias étnicas - são contra a independência de Kosovo. A favor dos albaneses estão os EUA e a maior parte da UE, principalmente França, Reino Unido, Alemanha e Itália.   Existe também oposição fora do bloco. A Turquia, por exemplo, apesar das boas relações com os albaneses, evita o tema exatamente porque tem de lidar com uma minoria curda em seu território.   Já os russos não querem Kosovo independente por uma série de razões. Além da afinidade histórica e religiosa, a Rússia é a maior fonte de recursos externos da Sérvia, que retribui jurando fidelidade a Moscou. Além disso, o separatismo também é sensível ao Kremlin, que não tolera o nacionalismo checheno.   O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, é que Kosovo declare sua independência, que seria reconhecida por parte da UE e pelos EUA, mas não pela Sérvia, Rússia e vários outros países. O novo país, porém, nunca conseguirá um lugar na ONU, já que Rússia e China têm poder de vetar a entrada de novos membros.   Caso a independência seja mesmo declarada, o governo sérvio diz ter um plano de ação para responder à altura. A primeira medida deve ser o fechamento das fronteiras e um bloqueio comercial a Kosovo. Cerca de 70% do comércio kosovar depende da Sérvia. Belgrado, que fornece a metade da energia elétrica da província, poderia também interromper o fornecimento de luz, deixando os albaneses na escuridão em pleno inverno.   (Com Cristiano Dias, de O Estado de S. Paulo)

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