Heidi Levine/The Washington Post
Heidi Levine/The Washington Post

Um elefante aterrorizado e um lêmure abandonado: a guerra dentro do zoológico de Kiev

Cuidadores do zoológico lutam para manter os animais vivos durante ataque russo à capital ucraniana

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 19h01

KIEV, Ucrânia – Horace, o elefante asiático, está tão aterrorizado pelas explosões que precisa ser sedado. As zebras estão sendo mantidas fechadas desde que entraram em pânico com o barulho de um bombardeio e correram diretamente para a cerca. E Maya, a lêmure, está tão estressada que abandonou seu bebê recém-nascido esta semana — quase causando sua morte.

Zoológicos frequentemente são um dano colateral de guerras pelo mundo todo. E  agora a guerra está atingindo o zoológico de Kiev, que fica próximo a uma instalação militar importante e, possivelmente, no caminho de uma invasão russa à capital.

Os animais estão exibindo cada vez mais sinais de estresse. Eles se escondem das sirenes de ataque aéreo e das explosões que ressoam durante todo o dia. Tiros também podem ser ouvidos à noite com frequência.

Temendo o pior — e buscando abrigo dos ataques que acontecem em suas próprias vizinhanças — cerca de 50 membros da equipe mudaram-se para as extensas instalações para cuidar dos animais durante o dia todo, levando cerca de 30 familiares consigo.

Durante as sirenes de ataque aéreo, eles protegem-se em abrigos improvisados no zoológico: um deles em um cercado para pássaros e outro em um aquário inacabado. Mas animais grandes como elefantes e girafas não podem ser levados para baixo da terra.

“Eles não têm espaço para esconderem-se ou correrem”, disse o diretor do zoológico, Kyrylo Trantin, de 49 anos. “No momento em que estiverem fora do zoológico, eles terão ainda menos opções do que qualquer humano. Vão acabar indo para as ruas, com os tanques.”

Na cidade de Kharkiv, no Leste, o Zoológico Feldman Ecopark relatou que suas instalações foram danificadas em combates recentes.

“Alguns animais foram feridos, outros foram mortos”, o zoológico escreveu no Facebook. “O combate ainda está acontecendo na área do Feldman Ecopark, então, infelizmente, as perdas ainda não são finais.”

Esse é o pesadelo que o zoológico de Kiev quer evitar. Um abrigo de animais selvagens fora de Kiev transportou alguns animais para a Polônia — incluindo leões e tigres. Mas, segundo Trantin, esse é um processo que seria difícil para os animais grandes mesmo durante tempos de paz, e muito mais durante a guerra.

Em vez disso, ele começou a se preparar para a possibilidade de uma invasão russa há cerca de uma semana antes de ela começar. Seguindo conselhos de um colega diretor de zoológico em Haifa, Israel, ele fez um estoque de suprimentos e de materiais para reconstruir cercados no caso de um ataque.

Em 25 de fevereiro, “houve combate perto do zoológico e as balas estavam voando sobre nós”, ele recordou.

A equipe já está mantendo certos animais fechados, para protegê-los de qualquer bombardeio que aconteça nas proximidades.

Com suas orelhas enormes e sua disposição sensível, Horace é especialmente vulnerável aos sons altos, disse Trantin. Então um membro da equipe muda-se para o cercado do elefante de 17 anos todas as noites, dormindo ao lado dele para confortá-lo de qualquer estouro alto. Quando ele acorda aflito, eles o alimentam com maçãs ou conversam com ele até sentirem que ele está relaxado.

“Se um foguete ou bomba cair, eles sabem como acalmá-lo”, disse Trantin.

Na sexta, o diretor acariciou a grande bochecha cinzenta de Horace e despejou uma pilha de feno no chão, para ele devorar com sua tromba. Ele come cerca de 220 libras de comida (o equivalente a quase 100 kg) por dia. Por ora, o zoológico tem suprimentos o suficiente para cerca de duas semanas e esperança de conseguir manter um fluxo constante com seus fornecedores.

Mas a população da cidade já está se preparando para a possibilidade de que rotas de suprimentos importantes sejam cortadas se a cidade for cercada.

Para o zoológico, a maior preocupação agora é a falta de salada verde disponível. Então membros da equipe plantaram seu próprio jardim para alimentar os animais com a alface mais fresca que eles puderem.

No entanto, alguns funcionários que vivem do outro lado do rio já têm sido impedidos de irem ao trabalho, devido a bloqueios nas estradas. Outros se alistaram para lutar.

Cafés e barracas de sorvete estão fechadas. Bancos decorados com formas de animais estão vazios. Uma roda gigante colorida se ergue solitária contra o céu cinzento. Uma revoada de pássaros se espalha quando um pequeno drone voa perto deles — seu grasnar ecoando pelo silêncio assombroso.

Ivan Rybchenko, 33, está entre os cuidadores que ainda podem chegar ao trabalho de bicicleta. Na sexta-feira, ele se apoiou sobre um cercado, alimentando Dguto, uma das duas girafas de 17 anos que vivem no zoológico, com uma banana. No fundo, várias explosões podiam ser ouvidas e a sirene de ataque aéreo começou a tocar. Rybchenko e Dguto mal piscaram.

Diferente de muitos homens com sua idade, Rybchenko não considerou se juntar às forças locais para enfrentar os russos. Sua própria maneira de resistir à invasão, disse ele, é manter esses animais vivos.

“Eu estou cuidando de girafas, cervos e cavalos”, disse ele. “Então não há como eu me juntar à defesa porque eles simplesmente iriam morrer.”

Ainda assim, ele teme que eventos fora de seu controle possam levar a tragédia até lá. “Eu tenho medo de que qualquer dos animais do zoológico seja morto”, disse ele.

Tony, um gorila de 47 anos, andava de um lado para o outro no seu cercado, feliz por ver Trantin e sua colega Valentina Dykoneva, 50, que chegaram com mimos: tâmaras, bananas e uma garrafa de Coca-Cola cheia de chá.

Tony não parece especialmente perturbado com as explosões, disse Dykoneva. “Mas, é claro, ele sente falta de pessoas e visitantes,”

Em um escritório ali perto, um menino sentava em frente a um computador, jogando um jogo. Uma cobra estava enrolada dentro de um pequeno tanque. E dentro de uma pequena caixa na mesa, um bebê lêmure de dois dias de idade se agarrava a um pedaço de pano macio.

Diferente de seus irmãos, nascidos no mesmo dia, ele falhou em agarrar-se rapidamente à sua mão depois do parto para se alimentar. Então ela o abandonou abruptamente, em um movimento que os cuidadores disseram ser muito incomum e provavelmente causado pelo estresse. Para salvá-lo, eles o levaram para ser cuidado de perto e agora estão enrolando-o com material felpudo para imitar o calor da mãe e alimentando-o com fórmula para bebês com uma seringa.

Apesar de culparem o conflito pelo abandono da mãe, os empregados do zoológico dizem que o nascimento do bebê lêmure tem sido uma fonte de alegria. Eles o batizaram de Bayraktar — em nome de um drone turco usado pelo exército ucraniano.

O nome, brincaram eles, mostra que — como os drones enfrentando os russos — a chegada desse bebê lêmure “é uma coisa positiva” em meio a tanta destruição.

/The Washington Post

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