Veja a evolução do caso da brasileira Paula Oliveira

Advogada afirmou que foi agredida por neonazistas e sofreu aborto; Promotoria afirma que ela confessou farsa

Agências internacionais,

19 de fevereiro de 2009 | 15h23

A advogada brasileira Paula Oliveira, de 26 anos, afirmou que foi agredida e torturada por três neonazistas na noite do dia 10 de fevereiro na cidade suíça de Dubendorf, na periferia de Zurique, e que teria sofrido um abordo por conta do ataque, já que estaria grávida de três meses de gêmeas. Segundo ela, os agressores inscreveram, com um estilete, a sigla SVP - iniciais em alemão do Partido do Povo Suíço, de extrema direita - na barriga e nas pernas da brasileira. Posteriormente, Paula afirmou que o ataque teria ocorrido em um outro bairro perto de Zurique, Stettbach.   Veja também: Caso é repleto de contradições   Paula, uma pernambucana de 26 anos, trabalha na multinacional Maersk e, segundo o Itamaraty, vive legalmente na Suíça. Ela disse que foi atacada quando voltava do trabalho, após desembarcar na estação de trem perto de sua casa. Paula falava ao telefone celular com a mãe, que estava no Recife, quando foi cercada pelos três skinheads, um deles com um símbolo nazista tatuado atrás de sua cabeça.. Levada para um parque, foi espancada por 15 minutos e teve sua roupa parcialmente arrancada. Um deles usou um estilete para cortar barriga, braços, rosto, tórax e pernas.   O SVP, marcado em seu corpo, é atualmente o maior partido da Suíça e vem ganhando espaço político. Entre suas propostas está o limite na nacionalização de estrangeiros, o fechamento das fronteiras para trabalhadores imigrantes, a proibição de construção de mesquitas e maiores dificuldades para refugiados.   Paula é filha de Paulo Oliveira, secretário parlamentar do ex-governador de Pernambuco e deputado federal Roberto Magalhães (DEM-PE). Quando surgiram as denúncias de agressão, Oliveira disse que sua filha teria sido vítima de um ataque xenófobo. Os relatos iniciais chocaram a opinião pública suíça e também a brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a condenar o ataque. O chanceler brasileiro, Celso Amorim, afirmou que o governo brasileiro acreditava em uma "aparência evidente de xenofobia" para o caso e ameaçou enviar uma queixa formal à ONU.   No dia 12 de fevereiro, a o primeiro relatório da polícia de Zurique disse que as "circunstâncias dos ferimentos não estão claras" e não confirma que Paula foi vítima de violência xenófoba. Indignada, a família criticou a polícia, qualificando o relatório de "hipócrita". A polícia de Zurique disse que "investiga em todas as direções". No comunicado, evitou classificar a agressão como ataque racista e não mencionou que alguns dos cortes no corpo da brasileira formavam a sigla do SVP. Mencionou apenas ferimentos em forma de "letras". O pai da vítima, Paulo Oliveira, reagiu com indignação à desconfiança da polícia suíça. "Querem transformar a vítima em culpada. Isso é tática de milícia nazista", disse. "As circunstâncias não estão claras porque a polícia não está investigando."   No dia 13 de fevereiro, a polícia de Zurique afirmou que a suposta agressão contra Paula poderia não passar de um farsa montada por ela e a possibilidade de que ela tenha cometido automutilação era grande. Depois de converter o assunto numa questão de Estado, a diplomacia brasileira não escondeu sua "perplexidade" com o laudo e afirma que ainda é um "enigma" a razão que teria levado Paula a mentir sobre o momento do aborto. O diretor do Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, disse que, a partir de exames, sua conclusão era de que a brasileira não estava grávida e poderia ter ela mesma feito os ferimentos em seu corpo. "A partir dos resultados laboratoriais e do exame ginecológico, podemos dizer que, no momento do ato, não havia gravidez". Constatamos que os cortes encontrados no corpo dela foram realizados em locais que podem ser alcançados por ela mesma", continuou. "As partes mais sensíveis do corpo feminino, como auréola dos seios, umbigo e genitais, não foram atingidas pelos ferimentos."   Fontes da família disseram que teriam provas de que ela estava grávida. O pai continuou a insistir no caráter xenófobo do ataque, minimizando a importância da gravidez. "Se ela estava ou não grávida não é o que importa agora", disse ao Estado o pai de Paula, o advogado Paulo Oliveira. "O que importa é que a polícia suíça precisa fazer seu trabalho e descobrir quem cometeu a agressão. Isso eles estão sendo incapazes de fazer e a verdade é essa. Estão querendo desviar a atenção. A polícia precisa parar de falar e dar sua versão sobre os fatos e agir."   No sábado, dia 14, o pai da brasileira mudou seu discurso em relação às provas da gravidez que garantiu que tinha. "Não sei nem onde procurar", afirmou. Ele também abandonou as críticas à polícia e afirmou que sua filha está "em grave estado psicológico". "Em qualquer circunstância, minha filha é vítima. Ou ela é vítima de graves distúrbios psicológicos, ou vítima da agressão que desde o início ela sustenta e eu não tenho motivos ainda para duvidar", disse o pai. O consulado orientou a família para que contrate um advogado, caso queira contestar o laudo da polícia. Mas Oliveira disse que não contratará um advogado. A polícia afirmou que Paula Oliveira poderia ser indiciada criminalmente se forem confirmadas as suspeitas de que ela armou uma farsa.   O Partido do Povo da Suíça (SVP), de extrema direita, afirmou que quer abrir um processo contra a brasileira, sob a acusação de ter "inventado" o ataque que diz ter sofrido. "Nosso partido está pedindo para que as autoridades abram um processo contra Paula Oliveira por ter inventado um crime que resultou em investigações caras ao contribuinte suíço", afirmou Alain Hauert, porta-voz do SVP.   No dia 16 de fevereiro, uma semana após a suposta agressão, surgiu a informação de que Paula teria comunicado os amigos sobre sua suposta gravidez de gêmeos em um e-mail com uma imagem de ultrassonografia falsa. Segundo reportagem da revista Época, uma ex-colega de trabalho da brasileira afirmou que a mensagem foi enviada no dia 16 de janeiro para mais de 30 pessoas que trabalharam com ela na multinacional dinamarquesa Maersk com a reprodução de uma ultrassom que pode ser encontrada pelo Google. Segundo a fonte, falou sob anonimato, a imagem tinha o nome "Twins 6 wks" (gêmeos 6 semanas) e que, numa busca com a mesma expressão no Google, a mesma fotografia era localizada no site about.com.   Na terça-feira, 17, Paula fugiu da imprensa e deixou o hospital de Zurique em que estava internada havia seis dias por uma saída secundária. Ela passou a noite em seu apartamento no subúrbio de Zurique. Paulo Oliveira, pai da suposta vítima, havia avisado à imprensa que ela sairia pela porta principal do hospital e pediu para que os jornalistas a aguardassem ali. "Sairemos pela porta da frente e de cabeça erguida", disse, momentos antes. Mais tarde, Oliveira alegou que sua filha "entrou em desespero" ao saber da presença de jornalistas. "Ela está chocada e disse que não queria ser exposta à imprensa", disse. Questionado sobre a filha não ter cumprido a promessa de sair "pela porta da frente", ele apenas disse: "Ela não saiu pela porta principal porque não estava bem. O hospital tem muitas portas."   Na quarta-feira, 18, o Ministério Público suíço anunciou a abertura de um processo penal contra Paula, que está impedida de sair do país - seu passaporte foi retido. A brasileira terá agora de prestar depoimento e corre o risco de pegar até 3 anos de prisão por falso testemunho. o jornal suíço Weltwoche revelou que a pernambucana já teria confessado à polícia local que o suposto ataque não passou de uma farsa e ela nunca esteve grávida. A rede de TV Telezurich reiterou a história. Ainda segundo a imprensa, ela teria assinado uma confissão. De acordo com o jornal, a polícia especula que o objetivo de Paula seria processar o Estado por causa da agressão para obter uma indenização que poderia chegar a R$ 200 mil.   Pressionada, Paula chorou e confessou que a gravidez e o ataque dos neonazistas eram uma armação. Sobre as letras do partido em seu corpo, ela disse que apenas conhecida o SVP dos cartazes espalhados pela Suíça.Questionada sobre os motivos, disse: "Pergunte a um psiquiatra." Segundo a imprensa, Paula teria afirmado que fez tudo sozinha, sem a ajuda de seu namorado, o suíço Marco Trepp. O histórico de Paula ainda incluiria outra notícia falsa. A de que teria sido casada no passado com um homem chamado François, supostamente morto em um acidente de avião da TAM.   No dia 19, quinta-feira, a Promotoria confirmou que a brasileira admitiu ter forjado o ataque e mentido a respeito da perda de uma suposta gravidez. O escritório da promotoria de Zurique informou que Paula, de 26 anos, disse em um interrogatório realizado há quase uma semana que havia mentido. Confrontada com as evidências, Paula admitiu no dia 13 que não houve ataque e ela mesma se cortou, segundo o escritório da promotoria. Também admitiu que não esperava gêmeos. O Ministério Público afirmou ainda que vai abrir um processo contra o jornal que revelou a confissão. O órgão deve anunciar que investigará como um segredo de justiça foi parar nas mãos dos jornalistas. Pela lei suíça, a publicação dessas informações é considerada crime, ainda que a Corte de Justiça da Europa já tenha absolvido jornalistas suíços em outros casos.   Horas antes da emissão do comunicado da Promotoria Pública, o advogado de defesa de Paula Oliveira, disse à BBC Brasil que está discutindo de duas a três estratégias para defendê-la, entre elas a de usar o fato de ela sofrer de lúpus como atenuante por seu comportamento. "Ainda não definimos nossas táticas, mas esta seria uma delas", afirmou Roger Müller. O advogado não revelou, no entanto, quais seriam as outras estratégias de defesa. Na semana que vem, Paula será ouvida pelo promotor público responsável por seu indiciamento, Marcel Frei. Segundo Müller, o dia exato ainda não foi definido.   O lúpus é uma doença inflamatória que, entre outros sintomas, poderia provocar distúrbios psicológicos. A lesão mais conhecida da doença é no formato em asa de borboleta, atingindo bochechas e o dorso do nariz, ainda que as manchas possam aparecem em qualquer parte do corpo. O sistema nervoso dos doentes costuma ser comprometido e, entre os sintomas possíveis, estão distúrbios de comportamento, quadros de depressão e até mesmo a psicose.   (Com Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo)

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