Aleksey Nikolsky/EFE/
Aleksey Nikolsky/EFE/

Viajante russa afetada por sanções não deve voltar

Segundo ela, 90% de seus amigos que moram em São Petersburgo ou Moscou também estão saindo do país

Carolina Marins, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 05h00

A estudante russa e professora de inglês Maria foi dormir no dia 23 de fevereiro sem acreditar que seu presidente, Vladimir Putin, de fato entraria em uma guerra com a Ucrânia, o que ocorreu no dia seguinte. Desde então, seu acesso a dinheiro, contas bancárias e até produtos essenciais tem sido impossível.

Ela estava em São Petersburgo quando as tropas russas entraram definitivamente em território ucraniano na manhã de 24 de fevereiro. No dia seguinte partiu para a Turquia, onde visitaria o namorado por algumas semanas.

Mesmo a distância, ela tem sido atingida pelas fortes sanções impostas pelos países ocidentais. “Estamos tendo problemas muito grandes com nossas contas bancárias no exterior, especialmente porque posso usar apenas dois cartões em dois bancos diferentes, mas eles também podem bloqueá-los a qualquer momento.” Um dia após falar com o Estadão, Maria perdeu o acesso aos dois últimos cartões que tinha, já que as bandeiras Visa e Mastercard anunciaram a suspensão dos serviço na Rússia. Ela espera ao menos sacar o dinheiro nas contas e abrir uma nova na Turquia.

Antes mesmo de as sanções mais severas serem impostas, os russos já começavam a sentir o peso de uma economia impactada pela guerra. Imagens compartilhadas em redes sociais e na imprensa estrangeira mostram filas nos caixas eletrônicos para sacar dinheiro. “Nossas contas bancárias estão congeladas”, relata Maria. “Não podemos usar o Apple Pay. Não temos mais dinheiro em São Petersburgo. No primeiro dia da guerra, eu não consegui encontrar nenhum caixa eletrônico com dinheiro. Nossa economia está simplesmente colapsando”.

Uma das sanções mais sérias impostas à Rússia foi a expulsão de alguns bancos do Swift, um sistema de comunicação interbancário. Com a medida, Maria não consegue nem receber dinheiro dos familiares. “Minha família da Europa não pode me transferir dinheiro ou ninguém na Turquia também.”

Voltar para a Rússia não é uma opção. Primeiro, por causa da guerra. Segundo, porque as companhias aéreas russas estão banidas do espaço aéreo europeu. As poucas opções de voos estão caras.

Contato

A comunicação de Maria com amigos e familiares não tem sido simples. “A Rússia está bloqueando o Facebook. Às vezes a internet não funciona muito bem, como o Instagram, por exemplo, tem estado muito lento. E eles também estão bloqueando os meios de comunicação.” “Na mídia russa estão dizendo que nós salvamos os ucranianos de seu governo nazista”, relata.

Vladimir Putin assinou uma lei que estabelece penas de prisão severas para quem publicar “notícias falsas” sobre as Forças Armadas. A lei, votada na Duma (a câmara baixa do Parlamento russo) prevê pena de prisão de 3 a 15 anos para cidadãos russos que estejam dentro e fora da Rússia e também para estrangeiros.

No primeiro dia da guerra, Maria foi protestar em São Petersburgo, mesmo sabendo dos riscos de se estar em um ato na Rússia. Outros amigos que estão fora da Rússia também não conseguem mais retornar, mas tampouco sabem se é isso que querem. “Cerca de 90% dos meus amigos que moram em São Petersburgo ou Moscou estão migrando para a Geórgia ou para Istambul ou outras cidades na Turquia porque eles entendem que vai ser muito complicado no próximo ano viver na Rússia.”

Apesar de vir de uma família apoiadora de Putin, Maria vê em sua geração uma grande rejeição ao único presidente que conhecem. “Acredito que isso vai nos afetar por pelo menos uns 10 anos. Talvez mais, não faço ideia. E é tão pesado e assustador porque as pessoas tinham seus planos, estavam começando a se sentir bem em seu próprio país.

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