REUTERS/Marcos Brindicci
REUTERS/Marcos Brindicci

Prévia indica se eleição argentina irá a segundo turno e mede força opositora

Primária com participação obrigatória define candidatos para votação de 25 de outubro e serve como levantamento preciso sobre chances de cada grupo político; kirchnerismo chega com candidato único e vantagem em pesquisas

RODRIGO CAVALHEIRO - CORRESPONDENTE/BUENOS AIRES , O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 22h00

Os argentinos começam a decidir neste domingo, 9, o substituto de Cristina Kirchner e o futuro do movimento que nos 12 últimos anos agregou ao populismo e ao nacionalismo estatista, intrínsecos ao peronismo, um pendor para o confronto que polarizou o país. O voto é obrigatório. Por isso, das urnas sairá um retrato que indicará a chance de um inédito segundo turno e medirá a força da oposição. 

Os levantamentos são unânimes em apontar que o representante kirchnerista, Daniel Scioli, da Frente Pela Vitória, terá mais eleitores – até porque os dois principais blocos opositores, embora com favoritos claros à nominação, terão votação fragmentada. Entre os cenários possíveis, há três mais prováveis. Eles têm relação com a diferença que o governismo abrirá e se algum opositor será claramente o segundo colocado. Isso definirá a estratégia dos próximos 77 dias, até 25 de outubro.

A primeira possibilidade é que Scioli obtenha mais de 40%. A tendência então seria o kirchnerismo apostar suas cartas, e dinheiro, em uma vitória já em 25 de outubro. Para isso, Scioli teria de alcançar 45% dos votos válidos ou 40%, desde que abrindo 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado. “Nesse caso, o discurso de Scioli passará a buscar diretamente os independentes”, avalia o cientista político e consultor Ricardo Rouvier, referindo-se à parcela de 40% da população que não se identifica como kirchnerista ou “anti-k”. 

Scioli tem 36,1% dos votos, segundo a última pesquisa da consultoria M&F. Seu principal rival, o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, aparece com 27% – a consultoria dá 30,9% a sua coalizão, Cambiemos. O conservador optou pela campanha porta a porta na Província de Buenos Aires, governada por Scioli – região, que excluída a capital, tem 37% dos eleitores.

Segundo Mariel Fornoni, diretora da M&F, o desempenho do governo em eleições regionais este ano sugere que o kirchnerismo deveria conseguir um desempenho espetacular na “superprovíncia”, onde o peronismo governou 28 anos dos 32 de democracia, para alcançar a vitória definitiva em outubro. “Seria necessário ao kirchnerismo ter mais de 50% e Macri não obter 20% na Província de Buenos Aires. A melhor eleição da FPV foi em 2011, quando Cristina arrasou na região com 56% na região, algo bastante improvável hoje”, diz.

Polarização. Essa ponderação leva ao segundo cenário, o de uma polarização entre Scioli e Macri. Isso depende de uma votação expressiva do conservador, que o torne capaz de atrair o “voto útil” de terceiros. A eleição iria para um segundo turno, em 22 de novembro. Analistas evitam previsões sobre o que seria um plebiscito sobre os anos K.

“Seria a ideia de mudança contra a de continuidade. Hoje, não há tendência clara a favor de nenhum deles”, diz Mariel, acrescentando que 25% de eleitores dizem não querer Scioli ou Macri. Nesse contexto, seduzir os que desejam mudança e continuidade parciais será o segredo do sucessor de Cristina. Provavelmente ambos aproximem seu discurso do centro em pontos não essenciais.

Reação de Massa. O terceiro cenário mostra o ex-kirchnerista Sergio Massa mais vivo do que diz a M&F, que o apresenta com 12%, suficiente apenas para ser o nomeado de seu grupo político, o UNA, batendo o rival peronista José de la Sota (6,8%). De acordo com esse levantamento, esse segundo bloco opositor teria 18,8%. 

“Massa ficou muito atrás. Será provavelmente a transferência de votos das demais forças, entre elas de Massa, que definirá o segundo turno entre Scioli e Macri”, prevê Mariel. Neste domingo, os votos de Massa iriam igualmente para Scioli e Macri, segundo a M&F. Massa tentou uma aproximação do macrismo há um mês, mas sua história está ligada ao peronismo e ao kirchnerismo. “Se o desempenho de Macri for pior do que se prevê, Massa tentará se converter na segunda força”, diz Rouvier.

O curioso é que um equilíbrio entre os dois opositores favoreceria Scioli, pela regra que garante um vencedor em outubro se houver 40% dos votos válidos com diferença de 10 pontos sobre o segundo colocado.

O cientista político Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires, lembra que os três candidatos já lideraram pesquisas. Massa esteve na dianteira em 2014 e aproveitou para atrair prefeitos, “algo que foi malvisto pelo eleitorado médio”. Macri assumiu a ponta após a morte do promotor Alberto Nisman, em janeiro, quando o governo ainda decidia se teria um só candidato hoje. 

Scioli despontou quando o kirchnerismo unificou a candidatura, há dois meses. Ele se escudou na aprovação de Cristina, que oscilou alguns pontos após a morte do promotor e hoje é de 53%, segundo Rouvier. Após oito anos de governo, os analistas creem que ela sairá em alta, a menos que uma forte crise econômica afete emprego e dólar, indicadores que o governo tem conseguido controlar, embora a instabilidade no Brasil jogue contra.


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