JEWEL SAMAD/AFP
JEWEL SAMAD/AFP

Vinho francês faz Rohani cancelar jantar com Hollande em Paris

Na primeira visita de um presidente iraniano à França desde 1999, líderes assinarão acordos, mas não escondem divergências 

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

11 de novembro de 2015 | 20h23

PARIS -  O presidente do Irã, Hassan Rohani, confirmou ontem que visitará Paris na próxima semana, quando assinará acordos de cooperação econômica com a União Europeia, em um novo sinal de aproximação de Teerã da comunidade internacional. 

A visita oficial será a primeira de um líder iraniano neste século - o último presidente do Irã que esteve na capital francesa foi Mohamed Khatami, em 1999. O diálogo, entretanto, continua problemático. Um jantar de gala que seria oferecido pela presidência francesa no Palácio do Eliseu foi cancelado porque a delegação iraniana se recusou a aceitar que fosse servido vinho durante a refeição.

Rohani se encontrará com o presidente francês, François Hollande, com quem assinará acordos de cooperação econômica em áreas como transporte aéreo, saúde e agricultura, segundo informações do Palácio do Eliseu.

Ontem, Rohani confirmou a visita em entrevista à emissora pública France Télévision e à rádio Europe 1. Os objetivos do encontro com o chefe de Estado francês, segundo o presidente iraniano, é a cooperação econômica com a Europa, que pode ser retomada após a assinatura do acordo nuclear com as potências do Conselho de Segurança - Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, China e Rússia -, mais a Alemanha. 

“Antes de minha viagem, já houve negociações em áreas como transportes, infraestrutura e indústria, em especial no setor automotivo e no transporte aéreo”, afirmou Rohani, que deve anunciar, por exemplo, a compra de aviões Airbus. “Durante minha viagem, alguns protocolos de acordos serão assinados.”

Além de comércio, o objetivo por trás da aproximação é discutir a situação política do Oriente Médio, em especial a guerra na Síria - da qual o Irã é um dos protagonistas. Os dois países estão em lados opostos das negociações por um acordo de paz que ocorrem em Viena.

Rohani deu ontem mostras de que continua apoiando o presidente sírio, Bashar Assad, cujo fim do governo é considerado pré-requisito para um acordo pela França, mas também por EUA, Arábia Saudita e Turquia. 

“Podemos lutar contra o terrorismo sem um Estado legítimo em Damasco? Que regime conseguiu lutar contra o terrorismo sem um governo forte?”, declarou o iraniano ao ser questionado sobre seu apoio a Assad. Segundo ele, Assad poderia concorrer em caso de novas eleições. “Não temos o direito de decidir quem deve e quem não deve ser candidato nas eleições. Essa decisão pertence ao povo sírio”, argumentou.

A visita de Rohani está prevista para o início da próxima semana, quando o presidente iraniano também participará da Conferência Geral da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que ocorre no dia 17, em Paris. 

A aproximação entre os dois governos, porém, não parece suficiente para eliminar as diferenças que tornam o clima político pesado entre os dois países há quatro décadas. Um exemplo da tensão diplomática foi a incapacidade das duas chancelarias de chegar a um acordo sobre o jantar de gala que o Palácio do Eliseu pretendia oferecer a Rohani. 

Como de praxe nos banquetes da presidência, champanhe e vinho franceses seriam servidos, mas a oferta foi recusada. Sem um entendimento, o evento foi cancelado e nenhum outro ainda foi marcado.

A controvérsia é a mesma que cercou a visita do ex-presidente iraniano Mohamed Khatami, em 1999. Prevista para ocorrer em abril daquele ano, a viagem acabou cancelada e depois remarcada para outubro. A viagem só foi confirmada quando o então presidente francês, Jacques Chirac, aceitou receber Khatami no Palácio do Eliseu com aperitivos, mas sem bebidas alcoólicas.

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