AFP PHOTO / MANDEL NGAN
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1 ano da presidência Trump: as turbulências na política externa

Imagem do presidente americano no mundo é pior que a de seus predecessores, segundo pesquisa; sua controvertida diplomacia envolveu ameaças à Coreia do Norte e ao Irã, a retirada de acordos multilaterais, e a adoção de medidas sobre Israel e México

O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2018 | 10h09

WASHINGTON - Ele chegou à Casa Branca com a promessa de colocar os "Estados Unidos em primeiro lugar". Um ano e várias decisões polêmicas depois, Donald Trump confirma sua disposição de dar as costas ao multilateralismo no cenário internacional.

The Economist: O governo de Trump é tão ruim como se pinta?

Em seu primeiro aniversário como presidente dos Estados Unidos, sua imagem no mundo é pior do que a de seus predecessores, Barack Obama e George W. Bush, de acordo com uma pesquisa Gallup publicada na quinta-feira.

Apenas 30% dos entrevistados em 134 países aprovam o bilionário republicano. E seus mais duros críticos estão na Europa Ocidental, no Canadá ou México, tradicionalmente próximos dos EUA. 

Para James Lindsay, do Council on Foreign Relations, alguns dos aliados mais próximos "temem o fim da era em que os Estados Unidos exerciam uma liderança mundial". "Se esse for o caso, as consequências podem ser terríveis", escreveu.

Um ano depois, eleitores de região que garantiu vitória de Trump seguem fiéis

"Temos um problema com os europeus, mas o resto do mundo não está descontente", relativiza Jim Jeffrey, pesquisador do Instituto Washington e ex-diplomata durante os governos republicanos.

"Trump não causou muitos danos à ordem internacional até agora", disse ele, elogiando sua estratégia para a Coreia do Norte, Irã e Síria.

Coreia do Norte: pressão com toque pessoal

As ambições nucleares da Coreia do Norte são o principal desafio internacional para Washington. Apesar da antipatia declarada de Trump em relação ao multilateralismo na última Assembleia-Geral da ONU, a estratégia  tem sido convencer o mundo de pressionar Pyongyang para que dialogue através de sanções draconianas. 

A China e a Rússia votaram as últimas resoluções na ONU. Mas com Trump denunciando o líder norte-coreano Kim Jong-un, e suas promessas de "fogo e ira" ou a "destruição total" da Coreia do Norte fazem temer que a guerra de palavras leve a um conflito nuclear. 

Irã: sozinho contra todos

Com o Irã, a abordagem é unilateral. Trump ameaça retirar-se do acordo nuclear de 2015 com Teerã, igualmente assinado por China, Rússia, França, Alemanha e Reino Unido, se não forem corrigidos "as terríveis lacunas" do texto, cuja aplicação visa impedir que os iranianos obtenham a arma atômica.

Os Estados Unidos estão preocupados com o fato de o acordo não punir os iranianos pelo seu programa de mísseis balísticos, sua interferência nos conflitos regionais ou abusos dos direitos humanos no país.

Trump acaba de dar aos europeus um prazo até maio para salvar o acordo, ou retornará a impor sanções relacionadas à questão nuclear e deixará o acordo de fato, com o risco de enterrá-lo.

Jerusalém: outro golpe unilateral

Outra decisão unilateral, outro protesto mundial: Trump reconheceu no início de dezembro a cidade de Jerusalém como a capital de Israel.

Israel aplaudiu, e os palestinos agora negam a Washington qualquer papel de mediação no processo de paz, que o presidente americano desejava reviver, mas que está mais moribundo do que nunca.

Acordo de Paris: a 'doutrina da retirada'

Washington anunciou, em junho, a sua retirada do acordo climático de Paris, que Trump considera contrário aos interesses econômicos dos EUA, embora, na prática, isso só ocorra no final de seu mandato.

O presidente francês, Emmanuel Macron, quer convencê-lo a recuar. Mas Washington também fechou as portas para outros acordos ou organizações multilaterais: o Acordo de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (TPP), Unesco e o Pacto Global sobre Migração.

E a ONU também está sobre a mesa. É uma "doutrina de retirada", lamentam até mesmo os círculos republicanos.

Síria: vitória contra o EI

Na Síria e no Iraque, o governo Trump deu prosseguimento à luta contra o grupo extremista Estado Islâmico, até a vitória.

Acusado de não ter uma visão do futuro, agora que o regime de Damasco, com o apoio do Irã e da Rússia, assumiu a dianteira sobre seus adversários, Washington planeja uma estratégia: manter uma presença militar na Síria para evitar qualquer retorno dos extremistas islâmicos, mas também parar Teerã e, finalmente, propiciar a saída do presidente Bashar Assad.

México: o mantra do muro

A promessa mais famosa e mais ridicularizada da campanha de Trump em 2016 foi a construção de um "belo muro" na fronteira sul dos Estados Unidos e às custas do México.

Mas além da controvérsia sobre o seu financiamento, a questão expõe um grande problema: Trump está convencido de que o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde 1994, prejudica os americanos.

Autoridades mexicanas, canadenses e americanas estão negociando há meses, tentando evitar uma possível saída dos Estados Unidos que prejudicaria suas economias altamente integradas. / AFP

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