1º de Maio na França pode ser o ?dia de todos os perigos?

O desfile de 1º de Maio, Dia do Trabalho, está permitindo uma mobilização unitária de forças sindicais e políticas como não se via há mais e trinta anos no país. O objetivo dessa passeata monstro entre a República e a Bastilha e que poderá reunir mais de 1 milhão de pessoas não é só o de impedir no dia 5 de maio a eleição do candidato da extrema direita, mas também fazer com que Jean Marie Le Pen obtenha o menor número de votos possível. No mesmo momento está sendo programada uma manifestação da extrema direita, liderada por Jean Marie Le Pen, em homenagem a Joana D´ Arc, a heroína francesa "confiscada" pela extrema direita , prevista para a Praça da Ópera. Esse será um dos pontos altos do encerramento da campanha lepenista. A direção da Frente Nacional espera reunir outras 100 mil pessoas. Diante do clima de tensão que essas duas manifestações antagônicas estão criando, dirigentes dos partidos conservadores estão procurando esvazia-las , temendo também que essa passeata monstro só possa servir aos interesses da esquerda que busca uma iniciativa para relançar sua ação para as eleições legislativas de meados de junho. O ex-primeiro ministro Edouard Balladur, lançou um apelo para que as organizações renunciem a essas manifestações diante dos "riscos de desordem". A seu ver, ninguém pode garantir que as manifestações que se repetem colocando nas ruas milhares de pessoas de horizontes diversos não comportem riscos de perturbações graves à ordem pública. A própria diretora de campanha de Jacques Chirac, Roselyne Bachelot, afirmou hoje que o 1º de Maiode 2002 na França está se transformando " no dia de todos os perigos".Forte tensãoA mobilização atual na França lembra as que precediam os grandes desfiles do início dos anos 70, ainda durante o período da guerra fria, quando as principais centrais sindicais e os partidos de esquerda começavam a afinar uma estratégia e "o programa comum", o que lhes permitiu chegar ao poder em 1981. Nesses mesmos anos 70, os grupos de extrema direita e a própria Frente Nacional não chegavam a representar um perigo iminente para o país, mesmo porque Jean Marie Le Pen não conseguia reunir mais do que 0,74% dos votos num pleito presidencial, como foi o caso em 1974, quando Giscard D"Estaing derrotou François Mitterrand elegendo-se presidente.Hoje, as coisas mudaram e a esquerda francesa humilhada pela derrota eleitoral de domingo passado está sendo obrigada a apelar o eleitorado a sufragar o nome de se seu adversário, o gaullista Jacques Chirac, para impedir a ascensão à hierarquia suprema de seu principal inimigo, Jean Marie Le Pen. CFDT, CGT, SUD, UNSA e FSU, algumas entre as principais forças sindicais do país estão lançando apelos a seus militantes para que compareçam de forma maciça aos desfiles de 1 de maio que estão sendo organizados em todo o país. O mesmo estão fazendo os partidos políticos, reunindo seus militantes socialistas, comunistas, verdes, mas também os da extrema esquerda, Lutte Ouvriére e Liga Comunista Revolucionária. Paradoxalmente eles puderam chegar a um acordo, depois de terem dispersado seus votos no primeiro turno. Tarde demais, a união se tornou possível depois da derrota consumada. O clima já e de forte tensão no país. Teme-se que possa haver perturbação da ordem , daí a forte mobilização policial. Segundo fonte policial, vinte companhias republicanas de segurança, CRS ( tropa de choque) , esquadrões da gendarmeria, forças especiais de manutenção da ordem, deverão garantir a segurança das duas manifestações, ao todo, 20 mil policiais. A policia se mostra muito mais preocupada com as pequenas manifestações diárias, expontâneas e anárquicas, que tem irrompido em quase todo o país, sem que se possa fazer qualquer previsão. As grandes, em parte, são garantidas pelos seus próprios serviços de ordem. A polícia não autorizou que Le Pen efetuasse o seu comício na Place de la Concorde, alegando questões de segurança e, inclusive, a proximidade da embaixada norte americana. Os partidos de esquerda pretendem transformar essa data no sobressalto indispensável para que eles possam sair do torpor em que se encontram, após o rude golpe sofrido no primeiro turno das presidenciais. Através das manifestações anti Le Pen no dia 1º de Maio a esquerda francesa está a procura de uma nova fonte de energia necessária para o lançamento da campanha para as legislativas, na esperança de uma rápida e inesperada revanche.

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