Acervo/Estadão
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100 anos após revolução, Rússia se enfraquece

País nunca se recuperou da decadência que marcou o fim do regime soviético e hoje usa crises externas como cortina de fumaça

Maria Antonova / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2017 | 05h00

Um ano antes de se aposentar do equivalente soviético a um cargo de prefeito numa pequena cidade russa, meu avô foi ao Turcomenistão para visitar seu amigo Redzhep, camarada de sua unidade de artilharia no Exército Vermelho durante a 2.ª Guerra. Redzhep, como meu avô, havia se dado bem em sua carreira no pós-guerra, tornando-se agrônomo. 

Quando meu avô fazia as malas para sua viagem de trem de volta à Rússia, Redzhep foi até ele num rasgo da generosidade: “Ivan”, ele disse, “vou lhe dar um vagão de melões para levar para casa”.

Meu avô imediatamente disse sim, pensando que as vitaminas de uma plantação turcomana inundada pelo sol seriam bem recebidas pelas famílias trabalhadoras de Donskoy, a cidade na região de Tula, ao sul de Moscou, que ele havia chefiado por mais de 15 anos. Redzhep balançou a cabeça: “Para você, não para a cidade.” Meu avô foi para casa sem os melões.

A anedota se transformou numa espécie de parábola familiar nas décadas seguintes. Meu avô, comunista profundamente comprometido, a contava e recontava para ilustrar como a URSS havia atendido às necessidades das pessoas comuns e traçar um contraste com o que ele sentia que era uma crescente insensibilidade e negligência com elas em sua cidade - e na Rússia.

Essa negligência começou após o colapso do sistema comunista e continuou. Hoje, a Rússia está projetando seu poder da Ucrânia à Síria e ao Leste Europeu. Os EUA estão perturbados por alegações de que o Kremlin interferiu na eleição presidencial americana e fez acordos secretos com a campanha de Trump. Enquanto isso, o apoio ao presidente Vladimir Putin está alto e o desprezo pelos EUA, o velho inimigo da Guerra Fria, serve como uma espécie de cimento social artificial, mascarando a falta de cimentos naturais. As vidas da maioria das pessoas estão concentradas mais na sobrevivência econômica do que na política, mas quando as pessoas sintonizam a TV estatal, elas ouvem pouco sobre problemas domésticos e muito sobre a demonstração de força internacional da Rússia. Isso é uma fonte de orgulho nacional.

Donskoy conta uma história diferente sobre o poder russo. Meu avô, herói de combate vindo de uma família camponesa, era otimista. Ele recusou um emprego em Moscou depois da guerra para poder voltar a sua cidade natal, um posto avançado de mineração que ele achava que poderia transformar numa cidade de verdade. Nos anos 60 e 70, à medida que o carvão da região exauria, ele persuadiu Moscou a construir indústrias em Donskoy. Ele manipulou as autoridades para construir uma escola de música. Velhas minas de carvão foram convertidas em piscinas e em um estádio que virava rinque de patinação gratuito no inverno.

Decadência. O rinque foi o primeiro a desaparecer, nos anos 90. As piscinas tornaram-se fossas cobertas de algas onde meus primos e eu apanhávamos rãs quando crianças. Mesmo depois de Putin chegar ao poder, em 1999, prometendo estabilidade e crescimento, as coisas não melhoraram muito. Nos anos 2000, ônibus municipais foram substituídos por “gazelas” - vans tão ariscas e difíceis de montar como os animais que lhes cederam os apelidos. O serviço de trem para Moscou terminou em 2005 e os moradores que trabalham na capital enfrentam uma viagem de quatro horas por trecho. O hospital fechou sua ala de maternidade por um ano, em 2015, depois que seu especialista em exames neonatais morreu e a instituição não conseguiu encontrar um substituto disposto a aceitar o baixo salário. Acabaram trazendo um do Quirguistão.

Hoje, nessa cidade de 30 mil habitantes, não há um único café. A rua principal está repleta de escritórios de agiotagem que oferecem “microcrédito” com juros diários de 2% a pessoas cuja renda não consegue ser esticada até o fim do mês.

Donskoy não é cidade mais pobre da Rússia. Os problemas aqui eram comuns em cidades provinciais: ruas esburacadas, serviços públicos arcaicos e saúde precária. Estatísticas oficiais indicam que a porcentagem de russos vivendo abaixo da linha da pobreza - menos de US$ 170 por mês - vem crescendo desde 2013 - em meados de 2016, eram 21 milhões de pessoas num país de 143 milhões. Um relatório de dezembro sobre gastos de famílias provinciais típicas concluiu que de 70% a 80% da renda mensal vão para artigos essenciais como comida, remédio e transporte.

Enquanto o governo gastou estimados US$ 50 bilhões nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, e iniciou uma campanha de bombardeios na Síria, havia pessoas em Donskoy vivendo em acampamentos arruinados construídos como moradia temporária para mineiros nos anos 30.

Em fins de fevereiro, enquanto eu chapinhava pela neve fofa para ir tomar uma “gazela” amarela decorada com um adesivo desbotado dizendo, “Sem corridas para Obama”, falei com Boris Minashkin, um ex-colega de meu avô e prefeito de Donskoy de 1997 a 2005, quando a cidade ainda preenchia o cargo por meio de votação popular - hoje, os prefeitos são indicados por vereadores do Conselho Municipal.

Perguntei por que a cidade estava em tal estado de ruína. “O problema”, ele disse, “é o sistema fiscal da Rússia, que suga dinheiro de cidades provinciais e o canaliza para Moscou”. Mas, se no início dos anos 2000, os moradores de Donskoy podiam imaginar um futuro em que trabalho duro e esforço pessoal podiam melhorar sua qualidade de vida, essa ilusão se desfez.

Na escola de música, construída no tempo de meu avô, Tatyana, uma professora de piano, me contou que, apesar de ter se aposentado, ela trabalha seis dias por semana para pagar as contas. Apesar de enviar garotos para vencer concursos nacionais, a escola tem dificuldade de pagar suas contas mensais de aquecimento. Seu piano de cauda, dos anos 60, está caindo aos pedaços.

 

Tatyana diz que costumava denunciar injustiças e manifestar sua discordância da posição do Kremlin no conflito na Ucrânia e em outras questões. Mas ela recentemente desistiu. A indignação de pessoas como ela com causas até mesmo mundanas, como a não prestação de serviços por empresas públicas em seu prédio, é recebida mais com hostilidade que com apoio da maioria de seus vizinhos. A estagnação econômica parece inspirar a estagnação política. As eleições parlamentares do ano passado registraram um comparecimento historicamente baixo.

“A paciência de nossa gente é um verdadeiro paradoxo”, disse ela. “Quando houve o caso da Crimeia, colegas na escola se comportaram como o país - 90% foram a favor. As disputas se tornaram pessoai, e nós percebemos que não poderíamos trabalhar desse jeito. Assim, ficamos em silêncio. Agora, só falamos de música.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É JORNALISTA DA ‘AFP’ EM MOSCOU

 

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