Cláudia Trevisan/ESTADÃO
Cláudia Trevisan/ESTADÃO

100 Dias de Governo: Atos de Trump afetam fronteira com México 

Reportagem do ‘Estado’ vai a El Paso, no Texas, onde milhares de imigrantes convivem com o medo da deportação e da possível separação de seus parentes 

Cláudia Trevisan ENVIADA ESPECIAL / EL PASO, TEXAS, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 05h00

Sem antecedentes criminais e com 16 de seus 24 anos vividos nos EUA, Jesus Vásquez integra o grupo de imigrantes indocumentados que o presidente Donald Trump prometeu não deportar – os chamados “dreamers”, que cruzaram a fronteira com seus pais quando eram crianças. Mas, no mês passado, ele foi parado pela polícia de trânsito do Texas, entregue a autoridades migratórias e ficou 12 dias em um centro de detenção de El Paso, na fronteira com o México.

Libertado sob fiança de US$ 2.500, Vásquez enfrenta agora um processo de deportação. Pai de uma menina de 4 anos que é cidadã americana, ele tem pouca familiaridade com o México, além do espanhol. Desde que foi levado aos EUA por sua mãe, Maria Maturino, nunca mais pôs os pés no país em que nasceu. “Pensei que me dariam uma multa e me deixariam ir”, disse Vásquez, que trabalha na construção civil. Segundo ele, a polícia o parou por avaliar que os vidros de seu carro eram mais escuros que o permitido. 

A imigração ilegal esteve no centro da campanha de Trump. Depois de prometer deportar as 11 milhões de pessoas que vivem de maneira irregular no país, ele diminuiu a ambição e disse que daria os primeiros passos em seus primeiros 100 dias de governo para expulsar 2 milhões. A prioridade seriam os que possuem antecedentes criminais.

Dados oficiais mostram que o governo deteve 35.147 mil indocumentados, entre janeiro de março, um aumento de 32% em relação a igual período do ano passado, quando houve 26.471 mil prisões. Além do número de detenções ter aumentado, houve ampliação do porcentual de pessoas sem antecedentes criminais colocadas atrás das grades. No ano passado, o índice foi de 86%. Neste, de 76%.

Dos 680 mil habitantes de El Paso, 75 mil são imigrantes indocumentados, de acordo com Fernando Garcia, fundador da Border Network for Human Rights, entidade dedicada à defesa dos direitos desse grupo. Desde a posse de Trump, a maioria vive aterrorizada pela ameaça de deportação. “Os agentes de imigração sentem que o novo governo retirou suas algemas e agora podem fazer o que sempre quiseram e ir atrás de famílias.”

O espanhol é a língua predominante em El Paso, onde 80% da população têm origem latina, especialmente mexicana. Do outro lado do Rio Grande, que demarca a fronteira, está Ciudad Juarez, onde muitos nasceram e viveram antes de se mudar par os EUA. 

Elisa Flores, de 33 anos, passou sua adolescência entre as duas cidades, até que se fixou em El Paso. Hoje, ela é mãe de quatro filhos – dois americanos e dois mexicanos. Com temor de ser detida, Flores disse que deixou de trabalhar durante uma semana, no início do governo Trump, quando agentes de imigração intensificaram sua atuação. Funcionária de uma fábrica e de um restaurante, ela decidiu parar de dirigir e pegar caronas para ir e voltar do trabalho. “Se me prendem, quem vai cuidar dos meus filhos?”, perguntou Flores, que cria sozinha os filhos de 5 a 17 anos de idade. “Isso tira o meu sono.” 

Apesar de Barack Obama ter sido o presidente que mais deportou imigrantes indocumentados na história dos EUA – quase 3 milhões em oito anos –, Vanessa Moreno, de 41 anos, disse que se sentia mais seguras durante o governo do democrata. “Eu não caminho mais tranquila e tenho medo de ser deportada”, afirmou a empregada doméstica, que foi levada pelo pai de Ciudad Juarez a El Paso quando tinha 8 anos.

“Obama focava em prioridades. Agora, estão prendendo todo mundo”, afirmou o advogado Carlos Spector, que se dedica à defesa de imigrantes ao lado da mulher, Sandra. Assim que tomou posse, Trump determinou a remoção imediata do país de imigrantes detidos em até 160 km da fronteira que não consigam provar que estão nos EUA há mais de dois anos. “Isso significa que pessoas podem ser deportadas sem serem ouvidas por um juiz ou terem orientação de um advogado, o que é uma violação da garantia do devido processo”, ressaltou Spector.

El Paso está entre os locais escolhidos por Trump para a construção dos primeiros trechos do muro com o qual quer separar os EUA do México. Garcia, da Border Network for Human Rights, observou que El Paso e Ciudad Juarez já são separadas por grades construídas depois do atentado de 11 de setembro de 2001. Nenhuma das quase 20 pessoas entrevistadas pelo Estado, do lado americano da fronteira, é favorável à barreira. “O muro é um símbolo de ódio e racismo e não vai resolver o problema migratório”, disse Garcia. 

Mais do que qualquer medida concreta, a retórica agressiva de Trump parece ter dissuadido os que pretendiam cruzar a fronteira ou intimidado os coiotes que cobram milhares de dólares para fazer a travessia. Em março, houve queda de 64% no número de apreensões na divisa com o México. 

Na semana passada, o secretário de Justiça de Trump, Jeff Sessions, esteve em El Paso e se referiu à região como uma zona de guerra, o que ofendeu líderes locais e parte da população, que deu vitória à democrata Hillary Clinton na eleição de novembro. Segundo ele, o local é o “marco zero” na luta contra cartéis do narcotráfico, gangues, tráfico de pessoas e imigração ilegal. “Para os que ainda tentam violar nossas leis e entrar no país ilegalmente, quero ser muito claro: não venham, quando vocês forem pegos, vocês serão detidos, processado e deportados.”

El Paso é uma das mais seguras cidades do EUA. Ciudad Juarez já foi considerada a capital mundial do homicídio, mas a violência diminuiu nos últimos anos. Em 2016, o número de assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes registrado na cidade mexicana foi inferior ao de St. Louis, no Missouri, e Baltimore, em Maryland.

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