Nicolas Asfouri / AFP
As marchas em Hong Kong, as mais importantes desde 1997, ficaram marcadas pelos choques entre manifestantes e forças policiais Nicolas Asfouri / AFP

100 dias dos protestos em Hong Kong: do polêmico projeto de lei ao apoio internacional

Manifestações mergulharam o território semiautônomo em sua pior crise política desde que foi devolvido pelo Reino Unido à China

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 09h54

HONG KONG - As manifestações que começaram há 100 dias em Hong Kong mergulharam a ex-colônia britânica em sua pior crise política desde que foi devolvida pelo Reino Unido à China, em 1997. Relembre os principais pontos do movimento até aqui.

Projeto de lei rejeitado

No dia 9 de junho, mais de um milhão de pessoas, segundo os organizadores dos protestos, foram às ruas de Hong Kong para se manifestar contra um projeto de lei do governo local que previa autorizar extradições à China continental.

Os manifestantes temiam que a medida levaria a um aumento do controle de Pequim sobre a região semiautônoma, que desfruta de uma ampla autonomia e de liberdades desconhecidas na China graças ao princípio “um país, dois sistemas”, vigente até 2047.

As marchas, as mais importantes desde 1997, ficaram marcadas pelos choques entre manifestantes e forças policiais. No dia 12 de junho, a violência sem precedentes deixou 79 feridos e um ativista morreu ao cair do telhado de um prédio.

Cerca de 2 milhões de manifestantes

Em 15 de junho, a chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou a suspensão do polêmico projeto de lei. Contudo, um dia após o anúncio da suspensão, quase dois milhões de manifestantes, de acordo com os organizadores, exigiram a demissão de Carrie e os bloqueios em ruas e avenidas da cidade se multiplicaram.

No dia 1.º de julho, no 22.º aniversário da devolução do território, vários manifestantes causaram danos ao Parlamento local.

Endurecimento dos protestos

Em 21 de julho, vários homens com máscaras, suspeitos de pertencer a gangues violentas, conduziram ataques contra os manifestantes. No fim de semana seguinte foram registrados novos confrontos entre a polícia e os manifestantes após a realização de concentrações não autorizadas.

No dia 5 de agosto, o território semiautônomo se viu mergulhado em caos em razão de uma greve geral que prejudicou o fluxo nos transportes públicos e nos voos. Pela terceira noite consecutiva foram registrados confrontos entre policiais e manifestantes. “Quem brinca com fogo, morre queimado”, advertiu Pequim na ocasião.

Caos em aeroporto

No dia 12 de agosto, milhares de manifestantes invadiram o aeroporto de Hong Kong, que se viu obrigado a cancelar seus voos. Dois homens suspeitos de espionagem para a China foram agredidos e Pequim afirmou que havia “sinais incipientes de terrorismo”.

Três dias depois, forças militares chinesas se concentraram na cidade de Shenzen, na fronteira com Hong Kong

Em 18 de agosto, uma grande concentração pacífica reuniu 1,7 milhões de pessoas, de acordo com os organizadores. O presidente americano, Donald Trump, advertiu que uma resposta dura comprometeria um acordo comercial entre China e Estados Unidos.

Prisões e escalada da violência

A dispersão de manifestantes com canhões de água e um disparo de advertência no dia 25 de agosto levou a uma nova escalada da violência.

Cinco dias depois, houve um ação contra os principais nomes da mobilização, entre eles Joshua Wong, conhecido pelo “Movimento dos Guarda-Chuvas” de 2014. Ele foi considerado culpado e liberado após pagamento de fiança.

No dia seguinte, Hong Kong viveu uma das rodadas mais violentas de protesto. Em 1.º de setembro, os manifestantes voltaram a protestar no aeroporto da cidade, onde semearam o caos.

Retirada definitiva do projeto de lei

Em 4 de setembro, Carrie Lam anunciou a retirada definitiva do projeto de lei que desencadeou os protestos, uma medida considerada insuficiente pelos manifestantes, que pediam também sufrágio universal e anistia para cerca de 1,1 mil pessoas detidas.

Busca por apoio estrangeiro

No dia 8 de setembro, os militantes pró-democracia se concentraram diante do consulado dos EUA para pedir a Washington que pressione a China.

Um dia depois, Joshua Wong se reuniu com o ministro alemão das Relações Exteriores, o que provocou a ira de Pequim. Em 13 de setembro, ele iniciou uma visita aos EUA para tentar obter apoio internacional.

No dia 15, milhões de pessoas voltaram a desafiar a proibição de manifestação. A concentração culminou em confrontos entre policiais e pequenos grupos radicais, e uma bandeira da China foi queimada.

Horas antes, centenas de manifestantes haviam se concentrado diante do consulado britânico e pediam a Londres que fizesse mais por sua ex-colônia.

Diversos eventos esportivos e culturais tiveram de ser anulados em razão das manifestações, que voltaram com força e quase diariamente. Os manifestantes convocaram também uma greve geral de uma semana no mês de outubro. / AFP

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Quando os protestos em Hong Kong dividem famílias

Desavenças ideológicas fazem jovens ativistas serem expulsos de casa pelos próprios pais

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 10h04

HONG KONG - Durante semanas, Jane ocultou de sua mãe que participava dos protestos em Hong Kong e fingiu que levava livros na mochila, até que as desavenças ideológicas entre as duas se tornaram tão grandes que a jovem teve de sair de casa.

À medida que as manifestações dos últimos 100 dias se intensificavam, com milhões de pessoas pedindo à China mais liberdade, Jane discutia cada vez mais com sua mãe, que se opõe às ideias do movimento pró-democracia.

“Depois de cada briga, ela passava uma semana sem falar comigo”, conta Jane (pseudônimo), de 24 anos. “Os apartamentos de Hong Kong são pequenos. Apenas uma parede nos separa. Então tive que ir embora.” A decisão foi um golpe emocional porque ela foi criada somente pela mãe.

“Temos passado toda a vida juntas, somente ela e eu, mas não me apoia”, afirma a jovem. “Me sinto impotente.”

Jane se considerava moderada, não como os manifestantes que estão no fronte do movimento ou aqueles que são violentos. Ela ressalta que tentou explicar a sua mãe os objetivos do movimento por mais democracia em Hong Kong, mas não adiantou.

“Ela acredita no que diz a China, que os manifestantes são pagos por estrangeiros, que são bandidos. Nunca acredita em mim”, lamenta.

A ira dos jovens

Os protestos pró-democracia na região semiautônoma, que começaram há três meses e em alguns casos se transformaram em atos de violência, são liderados em grande parte pelos jovens.

As ações foram desencadeadas em razão de um projeto de lei - posteriormente retirado - que havia permitido extradições ao território continental chinês, mas depois foram se transformando em um movimento mais amplo que pede mais liberdade e uma responsabilização pelas ações policiais.

As pesquisas acadêmicas mostraram que metade dos manifestantes tem entre 20 e 30 anos, e que 77% deles têm estudo.

Segundo uma sondagem recente da Universidade de Hong Kong, a porcentagem de cidadãos da ex-colônia britânica que se declaram orgulhosos de serem cidadãos chineses está em seu mínimo histórico: 27%. Quando se observa o grupo com idade entre 18 e 29 anos, a proporção cai a 10%.

Nas pequenas manifestações registradas em Hong Kong a favor de Pequim, os participantes eram maior de idade.

Ainda que participem pessoas de todas as idades do movimento pró-democracia, os manifestantes mais jovens dizem que costumam entrar em choque ideologicamente com seus pais ou parentes mais velhos, que acreditam que a cidade prosperou desde que foi devolvida à China ou temem a reação dos líderes chineses se os protestos se tornaram mais radicais.

"Estavam me chantageando"

Para muitos dos jovens que participam dos protestos, a batalha iniciada nas ruas continua em casa. 

“No começo, comíamos em silêncio. Era tão deprimente que agora não volto para casa até ter certeza que meus pais foram dormir”, conta Chris (pseudônimo), que se formou recentemente e começou a trabalhar em um banco.

“Acredito que é uma questão de educação. Meus pais foram educados na China e não ensinaram a eles sobre democracia e liberdade”, destaca, explicando que seus pais chegaram a Hong Kong na década de 1990 em busca de melhores condições de vida.

“Meus pais querem estabilidade e bonança econômica. Mas quero mais e lutarei por isso”, garante Chris, que se diz cansado e desencorajado. “Não posso falar com meus amigos porque não confio neles, e não posso falar com meus pais sem que gritem comigo.”

Julia, uma estudante de 19 anos, reconhece que as disputas familiares foram uma surpresa para ela. “Não havia me dado conta do quão diferentes somos até este verão”, diz ela.

Os pais de Julia não sabiam que ela estava no fronte das manifestações e que havia entrado em confronto com policiais. Após as brigas por apoio aos protestos, os pais de Julia ameaçaram deixar de ajudá-la financeiramente.

“Estavam me chantageando. No fim, quebrei o cartão de crédito e comecei a mentir sobre tudo”, conta ela, que agora se mantém graças a um trabalho de tempo integral.

Nova vida

Depois que saiu de casa, Jane vive agora com a família de sua namorada, cujos pais também não estão de acordo com o movimento pró-democracia. Mas pelo menos toleram as demais opiniões políticas, por mais diferentes que sejam.

“Nunca falamos disso. Só falamos de gatos”, brinca Julia. “É uma pena que seja um ambiente frágil.” / AFP

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