Richard Drew | AP
Os atentados de 11 de setembro completam 20 anos em 2021 Richard Drew | AP

Os atentados de 11 de setembro completam 20 anos em 2021 Richard Drew | AP

11 de setembro: como o atentado promovido pela Al-Qaeda mudou o mundo

Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Redação , O Estado de S.Paulo

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Os atentados de 11 de setembro completam 20 anos em 2021 Richard Drew | AP

Há 20 anos, os atentados terroristas promovidos pela Al-Qaeda contra os Estados Unidos em 11 de setembro mudaram o mundo. Para muitos, o evento marcou a virada do século 20 para o século 21, e determinou os rumos dos mais diversos temas da agenda internacional nas décadas seguintes.

Em 11 de setembro de 2001, fundamentalistas islâmicos ligados à organização terrorista Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos, desviando a rota dos voos para realizar os ataques. O mais famoso deles teve como alvo o World Trade Center, símbolo do mercado financeiro mundial, que foi atingido por duas aeronaves, matando cerca de 3 mil pessoas. Além das Torres Gêmeas, os terroristas suicidas também colidiram com o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, na Virgínia. A última aeronave caiu na Pensilvânia, antes de acertar seu alvo.

A resposta americana ao atentado ditou os rumos da geopolítica mundial a partir de então. As determinantes de política externa e de segurança e defesa estabelecidas durante o governo de George W. Bush mergulhou os EUA e seus principais aliados na Guerra ao Terror, iniciada com o conflito no Afeganistão. Também foi no governo Bush que os americanos definiram as nações que formariam um 'eixo do mal' - entre elas, Irã, Iraque e Coreia do Norte -, que seriam uma ameaça à paz mundial.

Internamente, os atentados também mudaram o cotidiano dos americanos. Regras mais rígidas de fiscalização foram impostas nos aeroportos do país. O conceito de vigilância constante ganhou força e novas tecnologias foram desenvolvidas para rastrear e identificar possíveis ameaças.

Veja algumas das principais repercussões do atentado de 11 de setembro:

Guantánamo, o pior legado do pós-11 de setembro

Criada por George W. Bush trancafiar terroristas, a prisão da base naval da Baía de Guantánamo permanece como uma herança incômoda da "Guerra ao Terror". Vinte anos depois os ataques de 11 de setembro, a prisão permanece aberta com presos sem acusação formal e julgamentos intermináveis à margem da lei americana.

É raro achar presos que foram acusados formalmente por um crime. Mais difícil ainda que um julgamento chegue ao fim. Cerca de 780 pessoas passaram pelo presídio. A maioria foi transferida para outros países ainda nos governos Bush e Obama. Trump autorizou a saída de apenas um detento. Trinta e nove permanecem detidas.

Guerra ao Terror não impediu avanço do jihadismo

Os ambiciosos esforços dos Estados Unidos feitos em nome do contraterrorismo desde 11 de setembro - que custaram US$ 8 trilhões (o equivalente a R$ 41,87 trilhões em valores atuais) - incluíram a tentativa de mudança de regimes no Oriente Médio e a tentativa de conquistar a simpatia dos muçulmanos em todo o mundo - um tiro que saiu pela culatra. A ocupação prolongada no Afeganistão, por exemplo, acabou com os vestígios de simpatia dos primeiros anos após a invasão do país pelos EUA e a queda do Taleban. No Iraque, o efeito foi o contrário ao esperado: a invasão americana produziu insurgência e alimentou o surgimento do Estado Islâmico.

Novos grupos militantes islâmicos surgindo em cada canto de algum país onde houve uma ação americana ou aliada, que teve como saldo a morte de pelo menos 7.052 soldados americanos e 387.000 civis.

Hipervigilância: herança da Guerra ao Terror

O desenvolvimento e o uso de tecnologias de vigilância acelerados no pós-11 de Setembro transformaram a sociedade. Após duas décadas da Guerra ao Terror, o exercício da segurança direcionado aos conflitos internacionais passou a incorporar as atividades das pessoas comuns, com as democracias ainda debatendo o limite entre privacidade e proteção à segurança nacional.

Especialistas e levantamentos da área estabelecem a Lei Patriótica (Patriot Act), criada e promulgada apenas 45 dias após o 11 de setembro de 2001, como um grande símbolo da expansão massiva da vigilância governamental nos EUA e, por consequência, mundo afora. Ao mesmo tempo, as discussões à época sobre a tecnologia da guerra e os grandes sistemas de armas não eram suficientes para combater a ameaça do inimigo invisível.

Xenofobia pós-11 de setembro alimentou populismo de ultradireita

Os ataques terroristas promovidos pela Al-Qaeda também criaram o ambiente perfeito para o desenvolvimento de movimentos xenófobos de ultradireita nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que a ascensão do jihadismo levou à população em geral os temores alimentados por grupos extremistas ao longo de décadas, a preocupação das autoridades em destinar esforços no combate aos inimigos no estrangeiro tirou o foco de grupos externos - que ainda se beneficiaram com o surgimento das redes sociais para difundir suas teorias.

As ameaças internas, que aumentaram nos últimos anos, preocupando inclusive o FBI, ganharam maior atenção internacional durante os distúrbios no Capitólio, no dia 6 de janeiro, quando manifestantes que alegavam fraude nas eleições presidenciais invadiram o Congresso para impedir a certificação da vitória de Joe Biden.

Mudança de foco para a China

A retirada das tropas americanas do Afeganistão, justamente nos 20 anos do aniversário do 11 de setembro, mostra a mudança do cenário geopolítico no período. Enquanto a atuação de grupos jihadistas no Oriente Médio representava uma ameaça sensível aos interesses americanos em 2001, a ascensão da China como superpotência está na raiz da política externa americana em 2021.

A estratégia foi sinalizada ainda na gestão Barack Obama, sob o nome de pivô para a Ásia, e hoje é marcada principalmente pela necessidade americana de encontrar soluções energéticas para conter a mudança climática e de fazer frente aos avanços tecnológicos chineses, principalmente no 5G.

Geração pós-11 de setembro contesta Guerra ao Terror

Apesar da promessa feita por George W. Bush de "nunca esquecer" o que se passou em 11 de setembro, para toda uma geração que só conheceu as imagens do atentado terrorista de 20 anos atrás na escola e tem uma relação mais distante com o acontecimento, a resposta americana é vista com olhar crítico.

Jovens da Geração Z (nascidos a partir de 1997) criticam a verba gasta com a Guerra ao Terror e com os resultados apresentados por ela, inclusive no quesito de aumentar a sensação de segurança no país. Além disso, os jovens enfrentam de forma mais próxima outros desafios mais comuns ao seu tempo, como os ataques a tiros e a pandemia da covid-19.

História sem fim

Os 20 anos de Guerra ao Terror começaram com o ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, e levaram ao que muitos americanos chamaram de "guerras eternas", no Afeganistão e no Iraque.  O Estadão contou essa história em formato de HQ, a partir do ponto de vista de uma repórter fictícia que presenciou os atentados, a tragédia daquele dia, e as catastróficas medidas americanas para se vingar.

O terrorismo depois de Bin Laden

Logo após os atentados de 11 de setembro, o Ocidente, em especial, o governo americano, se viu diante de um novo rosto a ser combatido: Osama Bin Laden. Ao longo desses vinte anos, a Al-Qaeda perdeu força, Bin Laden foi morto, o Estado Islâmico ascendeu de forma brutal e também teve seu líder morto, mas a disseminação de ideologias jihadistas e recrutamento continua forte, principalmente com o uso das redes sociais.

Os grupos terroristas continuam se espalhando, principalmente em países da África e da Ásia, e derrotá-los não é simples. Se algo mudou de 2001 para 2021, pensando na intervenção americana no Afeganistão que abrigava a Al-Qaeda, é que o Taleban retomou o poder no Afeganistão após a retirada das tropas americanas, mas o abrigo a grupos jihadistas se tornou mais difícil.

 

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Saiba como foram os atentados terroristas às torres gêmeas e ao Pentágono

Na manhã daquele dia, 19 terroristas ligados a Al-Qaeda subiram à bordo de quatro voos comerciais, que cruzariam o país de Leste a Oeste e cometeram o maior atentado terrorista em solo americano da História

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 10h37
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 11h39

A terça-feira, 11 de setembro de 2001, amanheceu como um dia normal nos Estados Unidos. O clima ameno e o céu quase sem nuvens na porção Leste do país ofereciam as condições climáticas ideais para que milhões de passageiros que embarcariam em uma das malhas aéreas mais movimentadas do mundo fizessem um viagem tranquila. Poucas horas depois do nascer do sol, no entanto, o mundo inteiro assistiria em choque ao maior atentado terrorista realizado em solo americano da História.

Na manhã de 11 de setembro, 19 terroristas ligados ao grupo jihadista Al-Qaeda subiram à bordo de quatro voos comerciais, que cruzariam o país de Leste a Oeste, com destino a Los Angeles e São Francisco. As aeronaves nunca chegaram ao destino final. Dois aviões colidiram com as torres gêmeas do World Trade Center, símbolo mundial do mercado financeiro, em Nova York, às 08:46:40 e às 09:03:11 (09h46 e 10h03 em Brasília, respectivamente), no evento mais famoso - e letal - dos atentados daquele dia.

Uma terceira aeronave se chocou contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Arlington, no Estado da Virgínia, às 09:37:46 (10h37 em Brasília). O último avião caiu em uma área descampada da Pensilvânia, por volta das 10h03 (11h03 em Brasília), após a tripulação reagir e impedir que os terroristas tivessem sucesso no ataque - que provavelmente tinha como alvo algum símbolo político do país.

Após os eventos de 11 de setembro de 2001, a Presidência e o Congresso americano nomearam uma Comissão Nacional sobre ataques terroristas aos Estados Unidos, o relatório final reconstituiu os acontecimentos do dia do atentado nos mínimos detalhes. Entenda o que aconteceu no dia do ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono, e os eventos subsequentes.

Quem eram os terroristas das Torres Gêmeas e como eles embarcaram em voos comerciais?

Os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono foram arquitetados pelo grupo terrorista Al-Qaeda, então liderado por Osama Bin Laden, que reivindicou publicamente a autoria dos ataques. Participaram diretamente do atentado 19 terroristas suicidas, que se dividiram em quatro grupos e se infiltraram em voos operados pela American Airlines e pela United Airlines.

A Comissão Nacional americana concluiu que os terroristas que executaram o ataque ao World Trade Center se encontraram no Aeroporto Internacional de Logan, em Boston, que fica a cerca de 350 Km de Manhattan. Mohamed Atta e Abdul Aziz al Omari desembarcaram em Boston às 06h45 da manhã, vindos de Portland. Sete minutos depois, Atta fez uma ligação telefônica para Marwan al Shehhi, que estava em outro terminal do aeroporto. A conversa entre os dois, que durou aproximadamente três minutos, foi provavelmente o último contato de ambos.

Entre 06h45 e 07h40, Atta, Omari e mais três homens - os irmãos Wail al Shehri e Waleed al Shehri, e Satam al Suqami - fazem seus check-ins e embarcam no voo 11 da American Airlines. Atta, Omari e Suqami ocupam os assentos 8D, 8G e 10B, na classe econômica, enquanto os irmãos Shehri se acomodam em poltronas na primeira classe (2A e 2B). O voo decola às 07h59.

Enquanto isso, no outro terminal do aeroporto de Logan, Marwan al-Shehhi, acompanhado por outros quatro terroristas - Fayez Banihammad, Mohand al Shehri, Ahmed al Ghamdi e Hamza al Ghamdi -, tentam embarcar no voo 175 da United Airlines. Uma funcionária da companhia aérea ouvida pela comissão afirmou que era evidente que alguns dos homens não tinham familiaridade em viagens de avião, demonstrando dificuldade em entender os procedimentos padrão de segurança. O grupo embarcou e entre às 07:23 e 07:28.

Para Entender

11 de setembro: como o atentado promovido pela Al-Qaeda mudou o mundo

Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Outros cinco terroristas se encontraram em Washington D.C., no aeroporto internacional Washington Dulles. Às 07h15, Khalid al Mihdhar e Majed Moqed fizeram check-ins para o voo 77 da American Airlines. Nos 20 minutos seguintes, também realizaram check-in Hani Hanjour e os irmãos Nawaf al Hazmi e Salem al Hazmi. Os cinco só embarcaram às 07h50, após passarem por checagens adicionais de segurança, que não identificaram nada que os impedisse de subirem no avião. Hani Hanjour sentou na cadeira 1B, a mais próxima do cockpit, enquanto os outros terroristas sentaram em duplas, nas fileiras 5 e 12.

O último grupo, formado por Saeed al Ghamdi, Ahmed al Nami, Ahmad al Haznawi e Ziad Jarrah chegou ao aeroporto de Newark, em Nova Jersey. Os terroristas fizeram check-ins entre 07h03 e 07h39 para o voo 93 da United Airlines. Após passarem por dois postos de checagem antes do embarque, os quatro jihadistas subiram no avião entre 07h39 e 07h48, todos com assentos de primeira classe. Nas fileiras 1, 3 e 6.

Todos o terroristas do 11 de setembro passaram pelos procedimentos padrão de segurança estabelecidos para a aviação civil americana na época. Muitos deles chegaram a ser submetidos às medidas mais rigorosas disponíveis até então, como o Computer Assisted Passanger Prescreening System (CAPPS) - ou Sistema de Pré-seleção de Passageiros Assistido por Computador, em tradução livre. Eles também passaram sem reclamações pelos testes com detectores de metal e raio-x.

O relatório da Comissão Nacional dos EUA definiu da seguinte maneira o sucesso dos terroristas:

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Os 19 homens embarcaram em quatro voos transcontinentais. Eles planejavam sequestrar as aeronaves, transformando-as em enormes mísseis guiados, abastecidos com cerca de 11.400 galões (cerca de 51.825 litros) de combustível de aviação. Às 08h da manhã da terça-feira, 11 de setembro de 2001, eles tinham passado por todos as barreiras que os sistemas de segurança da aviação civil americana possuíam para prevenir um sequestro.
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O que aconteceu dentro dos aviões que atingiram o World Trade Center?

O Boeing 767 usado no voo 11 da American Airlines decolou de Boston com destino a Los Angeles com 92 pessoas a bordo. Oitenta e um passageiros (incluindo os cinco terroristas), nove comissários de bordo, o copiloto Thomas McGuinness e o piloto John Ogonowski. A aeronave decolou às 07h59

Por volta das 08h14, quando o Boeing havia alcançado a altitude de 26 mil pés, o voo 11 fez sua última comunicação normal com o centro de controle de tráfego aéreo (ATC) da Administração Federal de Aviação em Boston. Dezesseis segundos depois da transmissão, o ATC passou uma instrução para que os pilotos subissem a uma altitude de 35 mil pés. Não houve retorno.

"Por essa e outras evidências, acreditamos que os sequestradores tomaram o avião às 08h14 ou imediatamente depois disso", assinala o relatório do Comitê americano.

O que se sabe sobre o que se passou dentro do voo 11 se deve basicamente ao relato de duas aeromoças, Betty Ong e Madeline Sweeney, que trabalhavam na classe econômica durante o atentado. Elas conseguiram ligar a partir de airphones da AT&T e relataram o que estava acontecendo à bordo às autoridades em solo.

No começo, algum ou alguns dos terroristas - acredita-se que os irmãos Wail e Waleed al Shehri, que estavam na segunda fileira do avião - esfaquearam dois comissários de bordo que se preparavam para atender os passageiros. Um homem na primeira fileira teve a garganta cortada. Dois comissários de bordo foram esfaqueados - pelo menos um deles com seriedade, precisando ser colocado no oxigênio. Não se sabe ao certo como eles tiveram acesso ao cockpit, mas especula-se que tenham tomado a chave de um dos comissários de bordo feridos ou forçado um deles a enganar o piloto ou copiloto para que abrissem a porta.

Pouco depois, Mohamed Atta, o único terrorista a bordo que sabia como pilotar um avião, teria saído do seu assento na classe executiva em direção ao cockpit, possivelmente acompanhado por Omari. Um passageiro posteriormente identificado como Daniel Lewin, que serviu nas Forças de Defesa de Israel por quatro anos, tentou reagir e acabou esfaqueado por um dos terroristas - provavelmente por Satam al Suqami, que estava no banco imediatamente atrás dele.

Cinco minutos após o sequestro começar, por volta das 08h19, Betty Ong ligou para um escritório da American Airlines na Carolina do Norte, usando um Airphone da AT&T. 

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O cockpit não está respondendo. Alguém foi esfaqueado na classe executiva, e eu acho que usaram Mace [um tipo de gás irritante] que nós não conseguimos respirar. Eu não sei, eu acho que estamos sendo sequestrados
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Betty Ong, comissária de bordo do voo 11 da American Airlines

Às 08:25, os terroristas tentaram se comunicar com a tripulação. O microfone estava sintonizado com o ATC de Boston, que ouviu a mensagem: "Ninguém se mexe. Tudo vai ficar bem. Se vocês tentarem qualquer coisa, vocês colocam em risco vocês mesmos e o avião. Apenas fiquem quietos"

Às 08:26, Ong relatou que o avião estava voando erraticamente. Um minuto depois, a aeronave virou em direção sul. As autoridades americanas começaram a identificar os terroristas, com base no número dos assentos das pessoas que entraram no cockpit sem autorização, repassado por Ong e Sweeney - que entrou em contato, por outro telefone, com o escritório do American Flight Services em Boston. Ela relata que os terroristas disseram haver uma bomba no cockpit

Por volta das 08h44, Ong perde o contato com o escritório da Carolina do Norte, enquanto Sweeney informa: "Algo está errado. Estamos descendo rápido". Ela é questionada se consegue olhar pela janela e determinar onde eles estavam. "Estamos voando baixo. Estamos voando muito, muito baixo. Estamos voando baixo demais", disse Sweeney. Segundos depois, ela volta a falar.

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'Oh meu Deus, nós já estamos muito baixo mesmo'
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Madeline Sweeney, comissária de bordo do voo 11 da American Airlines

E a ligação caiu. O voo 11 da American Airlines atingiu a torre norte do World Trade Center, no centro de Nova York, às 08:46:40.

O voo 175 da United Airlines deveria ter partido em direção a Los Angeles às 08h, transportando 56 passageiros, sete comissários de bordo, o copiloto Michael Horrocks e o piloto Victor Saracini, mas o Boeing 767 só deixou o portão de embarque às 07h58, e a decolagem aconteceu com 14 minutos de atraso - no exato mesmo momento que, estima-se, os terroristas do voo 11 da American Airlines começaram o sequestro do avião.

Às 08:42, a tripulação concluiu seu relatório, no qual comunicou sobre uma "transmissão suspeita" de outro avião - que viria a ser o voo 11 -, logo após a decolagem. Foi a última comunicação do voo United 175 com o solo.

Os terroristas tomaram o controle do avião entre 08h42 e 08h46. Relatos de passageiros e comissários de bordo que conseguiram contato com o solo apontam que a movimentação do grupo foi similar ao que ocorreu no voo 11. Os sequestradores usaram facas, Mace e ameaçaram explodir uma bomba no avião; membros da tripulação foram esfaqueados e piloto e copiloto foram mortos, disseram.

O relatório aponta que a primeira evidência de que algo anormal estava acontecendo com o voo United 175 veio às 08h47, quando códigos da aeronave foram alterados duas vezes em um minuto. Às 08:51, o avião perde altitude e, um minuto depois, o controle de tráfego aéreo de Nova York tenta repetidamente entrar em contato com a tripulação, sem sucesso.

Às 08h52, um homem chamado Lee Hanson recebe uma ligação do filho, Peter, que estava no voo.

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Eu acho que eles tomaram o cockpit. Um atendente foi esfaqueado, e alguém mais na frente pode ter sido morto. O avião está fazendo movimentos estranhos. Ligue para a United Airlines. Diga a eles que é o voo 175, Boston para LA
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Peter Hanson, passageiro do voo 175 da United Airlines

Lee Hanson ligou para o Departamento de Polícia de Easton, cidade onde morava, em Connecticut, e relatou o que ouviu.

Às 09h, Peter Hanson liga novamente para o pai. 

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Eu estou ficando mal, pai. Uma aeromoça foi esfaqueada. Eles parecem ter facas e Mace. Eles dizem ter uma bomba. Está ficando muito ruim no avião. Passageiros estão vomitando e ficando enjoados. O avião está fazendo manobras estranhas. Eu não acho que o piloto está no controle do avião. Eu acho que vamos cair. Eu acho que eles querem ir até Chicago e bater o avião em um prédio. Não se preocupe pai, se acontecer algo, vai ser rápido. Meu Deus, meus Deus
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Peter Hanson, passageiro do voo 175 da United Airlines

A ligação cai. Lee Hanson relatou à Comissão Nacional sobre ataques terroristas aos Estados Unidos que ligou a televisão assim que a chamada com o filho caiu. Ele assistiu ao vivo, às 09:03:11, o avião do voo United 175 bater na Torre Sul do World Trade Center. Todos a bordo - e centenas no prédio - morreram instantaneamente.

O que aconteceu no voo do 11 de setembro que atingiu o Pentágono?

Quando a American Airlines foi informada de que o voo 77, que partiu do aeroporto Washington Dulles com destino a LA, não estava respondendo ao controle de tráfego aéreo, por volta das 08h54, o Boeing 767 que fazia o voo 11 já havia colidido com a Torre Norte do World Trade Center.

O vice-presidente executivo da companhia, Gerard Arpey, determinou que todas as aeronaves da AA permanecessem no solo, por volta das 09h. Minutos depois, quando uma segunda aeronave colidiu com as Torres Gêmeas, autoridades americanas chegaram a pensar se tratar do voo 77. Não era.

O voo 77 decolou de Washington Dulles às 08h20, transportando 58 passageiros, quatro comissários de bordo, o copitolo David Charlebois e o piloto Charles Burlingame.  O sequestro da aeronave aconteceu em algum momento entre às 08h51 e às 08h54 - depois do choque do voo 11.

Os terroristas usaram as mesmas armas e os mesmos métodos dos voos que atingiram as Torres Gêmeas - facas, gás lacrimogêneo e ameaça de bomba. 

Às 08h54, a aeronave muda de curso, seguindo na direção sul. Dois minutos depois, o transponder é desligado. O controle de tráfego aéreo não consegue mais contato com a aeronave. O controle aéreo no aeroporto de Washington Dulles detecta, às 09h32, um objeto em alta velocidade. Dois minutos depois, o aeroporto nacional Ronald Reagan, em Washington, avisa o serviço secreto sobre uma aeronave não identificada estava a caminho da Casa Branca.

A aeronave do voo 77 acertou o Pentágono às 09:37:46, a uma velocidade aproximada de 853 Km/h, matando todos a bordo e civis e militares que estavam no prédio.

O que aconteceu com o voo United 93?

Apenas um dos aviões sequestrados pelos terroristas da Al-Qaeda não atingiram seu objetivo: o voo 93 da United Airlines, que partiu do Aeroporto Internacional Liberty, em Newark, Nova Jersey. Após os terroristas tomarem o controle do cockpit, passageiros e tripulação reagiram, fazendo com que os terroristas tivessem que forçar a queda do avião antecipadamente, em uma área descampada na Pensilvânia.

O Boeing 757 do voo United 93 decolou às 08h42 com o piloto, Jason Dahl, o copilito Leroy Homer, cinco comissários de bordo e 37 passageiros, incluindo os terroristas. O voo deveria ter decolado mais cedo, às 08h10, mas o intenso tráfego nas pistas do aeroporto atrasou a saída. Se tivesse decolado no horário correto, todos os terroristas estariam no ar com uma diferença de, no máximo, 20 minutos. No entanto, o atraso foi suficiente para que a tripulação deixasse o aeroporto sabendo do sequestro do voo 11 da American Airlines.

Com pouco tempo de voo, as autoridades tinham informações sobre os sequestros dos três voos que atingiram os alvos. Quatro minutos após o United 93 decolar, o primeiro avião se chocou contra as Torres Gêmeas. Em solo as autoridades demoraram a tomar decisões. Depois que United e American Airlines suspenderam a saída de novos voos, decidiu-se alertar os voos que já estavam no ar para que reforçassem a segurança do cockpit, mas empresas e controladores de tráfego aéreo não chegaram a uma decisão sobre quem deveria informar os pilotos.

Um funcionário da United Airlines, chamado Ed Ballinger, decidiu avisar por conta própria os 16 voos transcontinentais que a empresa tinha no ar. A seguinte mensagem chegou aos pilotos do United 93 às 09h23:

O cockpit recebeu a mensagem um minuto depois, com o piloto Jason Dahl respondendo às 09h26:

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Ed, confirme a última mensagem, por favor. Jason.
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Os sequestradores atacaram às 09h28. O centro de controle aéreo de Cleveland recebeu as primeiras mensagens segundos depois, com pedidos de "Mayday" e com o barulho de uma discussão com o capitão e o copilito gritando com alguém que invadiu o cockpit: "Saiam daqui".

Após tomarem o avião, o piloto suicida, Ziad Jarrah, comunicou-se com a tripulação, às 09h32. 

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Senhoras e senhores: Aqui é o capitão. Por favor, sentem e permaneçam sentados. Nós temos uma bomba à bordo. Então, sentem'.
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Ziad Jarrah, terrorista do voo United 93

Assim como nos outros voos, os passageiros e a tripulação foram colocados na parte traseira do avião. No entanto, muitos deles - em comparação com os demais voos - conseguiram entrar em contato com amigos, familiares e parentes, que contaram o que havia acontecido em Nova York. Um dos passageiros - não identificado no relatório da Comissão - disse a um parente com quem falava no telefone que uma votação tinha sido realizada, e que eles iam reagir.

Às 09h57, os passageiros se rebelaram contra os terroristas. A gravação do cockpit captou o som abafado da luta entre os passageiros e dos terroristas do lado de fora da sala de comando.

Nos minutos seguitens, Jarrah realizou manobras para os lados e para cima e empinou o nariz do avião, na tentativa de fazer os passageiros caírem. Mas a reação continuou. Às 09:58:57, Jarrah manda que outro terrorista na cabine bloqueie a porta. Menos de um minuto depois, volta a fazer manobras com o avião.

O barulho da luta no lado de fora da cabine não para. Às 10:00:26, um passageiro grita, e é captado pela gravação no cockpit: "Para o cockpit, se não formos, nós vamos morrer".

Às 10h01, Jarrah pergunta a outro terrorista:

- É isso? Eu digo, devemos colocá-lo para baixo?

- Sim. Derrube-o - respondeu o terrorista não identificado pela gravação.

Os passageiros continuaram lutando até às 10:02:23, quando o avião é desviado pela última vez na direção do solo e cai em uma área descampada de Shanksville, no Estado da Pensilvânia.

"Os sequestradores permaneceram no controle, mas devem ter julgado que os passageiros estavam a alguns segundos apenas de derrotá-los", diz o relatório.

As autoridades acreditam que o objetivo dos terroristas no voo United 93 era atingir algum símbolo da República dos EUA, como o Capitólio ou a Casa Branca.

Onde estava George W. Bush no momento do atentado?

No dia do atentado, o assessor do então presidente George W. Bush disse a ele que teriam um dia tranquilo pela frente: Ele visitaria uma escola de educação infantil, em Sarasota, na Flórida.

O presidente dos Estados Unidos recebeu a informação de que a primeira aeronave do voo American Airlines 11 colidiu com o World Trade Center enquanto lia histórias para as crianças da Emma E. Booker Elementary School, às 08h50. Ele continua em sala de aula até que, às 09h05, um assessor entra na sala e fala em seu ouvido: "Um segundo avião atingiu o World Trade Center. A América está sob ataque".

Bush continua na sala de aula por pouco mais de cinco minutos sem esboçar reação. Na sequência, os primeiros esforços são feitos a partir da própria escola infantil. Rodeado de crianças, Bush fez os primeiros comentários à nação sobre o ataque às torres gêmeas.

Por medida de segurança, o presidente ficou dentro do Air Force One, voando, depois de deixar a escola infantil. Antes de voltar para Washington, o presidente parou em duas bases aéreas, em Barksdale, na Louisiana, e em Offutt, em Nebraska. Bush chega a Washington às 19h. Uma hora e meia, em um pronunciamento à nação, o presidente promete punir os culpados pelos ataques.

Quantas pessoas morreram nos atentados de 11 de setembro?

Ao todo, contando as tripulações dos quatro voos, os 19 terroristas e todas as vítimas no Pentágono e no World Trade Center, estima-se que 2.977 pessoas morreram no dia do atentado - a grande maioria delas em Nova York.

Mas os efeitos foram mais longos. Além dos cerca de 3 mil mortos e mais de 6 mil feridos, Nova York ainda não terminou de contar as pessoas doentes de câncer e outros males graves, sobretudo de pulmão, ligados à nuvem tóxica que planou durante semanas sobre o sul da ilha. Em 2011, um estudo publicado na revista científica The Lancet mostrava que essas pessoas enfrentavam riscos maiores de sofrer câncer. Um censo do WTC Health Program, um programa federal de saúde reservado aos sobreviventes dos atentados, detectou câncer em 10 mil deles. 

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Taleban mantém relação mais discreta com Al-Qaeda, após dar abrigo a Bin Laden

Especialistas apontam vínculos profundos entre milícia afegã e rede terrorista, mas discordam sobre o que acontecerá a partir de agora

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 15h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h26

O Taleban foi expulso do poder pela invasão americana de outubro de 2001 por darem abrigo a integrantes da Al-Qaeda, responsável pelos atentados do 11 de setembro daquele ano. Agora, de volta ao poder em Cabul, devem adotar posição mais prudente, embora seus vínculos com a rede terrorista criada por Osama bin Laden possam continuar fortes.

Quando negociaram em 2020 o acordo com o governo de Donald Trump, que levou à saída das forças ocidentais do país após 20 anos de guerra, os taleban prometeram que não protegeriam os combatentes da Al-Qaeda e não permitiriam que o território afegão fosse usado para o planejamento de ataques terroristas no exterior. Mas essa promessa não convence ninguém.

“Os taleban nunca foram sinceros sobre a ruptura de suas relações com a Al-Qaeda e nunca deveríamos ter acreditado neles”, afirmou Michael Rubin, ex-funcionário do Pentágono e pesquisador do centro de estudos conservador American Enterprise Institute. 

“Não estamos falando de dois grupos militares que cortaram suas relações, e sim de irmãos ou primos. A presença dos Estados Unidos e da Otan impediu que a Al-Qaeda utilizasse o Afeganistão como um santuário. Não podiam operar livremente. Agora, todas as apostas estão abertas”, disse Rubin, em entrevista à agência France-Presse.

As relações entre os dois braços de um Islã político fundamentalista são muito próximas em vários aspectos. Os pais de Sirajuddin Haqqani e do mulá Mohammad Yaqoob, ambos altos dirigentes do Taleban, eram ligados a Bin Laden. O líder religioso taleban Haibatullah Akhundzada foi elogiado como "emir dos fiéis" pelo líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri quando foi nomeado em 2016.

Edmund Fitton-Brown, coordenador da equipe da ONU responsável por monitorar o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e os taleban, afirmou em fevereiro, em uma entrevista ao canal americano NBC, acreditar que a direção da Al-Qaeda seguia "sob a proteção" dos Taleban.

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No entanto, a natureza real de seus vínculos ainda deve ser definida. Os taleban não podem cometer o mesmo erro de 20 anos atrás, sob risco de violentas represálias ocidentais, ou inclusive de isolamento da China ou Rússia, que muitos acreditam que reconhecerão rapidamente o novo regime.

O grupo fundado por Bin Laden também mudou profundamente nas últimas duas décadas. Com um funcionamento descentralizado, a Al-Qaeda chegou a vários países do mundo, do continente africano ao Sudeste da Ásia, passando pelo Oriente Médio. Apesar do enfraquecimento de seu órgão central, o grupo ganhou agilidade e resistência.

Sua presença no Afeganistão será mais clandestina, menos oficial, prevê o pesquisador do programa sobre extremismo da Universidade George Washington Aymenn Jawad al-Tamimi. “Não acredito que os taleban permitam que abram campos de treinamento onde possam ser detectados a partir do exterior e bombardeados”, afirmou.

Os novos governantes de Cabul podem tentar adotar uma política similar à de que o Irã é acusado, ou seja, "manter os líderes da Al-Qaeda sob prisão domiciliar, enquanto possibilitam margem de manobra para que se comuniquem com seus adeptos no exterior", disse Tamimi.

No mínimo, a velocidade com que os taleban acabaram com o antigo governo  demonstra sua força, assim como os erros de interpretação dos países ocidentais a respeito dos acontecimentos.

“Observe o que a CIA ignorou: os taleban começaram a negociar com os líderes locais para conseguirem sua deserção. Eles se mobilizaram por todo o país para se prepararem para ataques em cada capital de província”, disse Michael Rubin.

Uma nova situação deve se impor em todo o país. O grupo responsável pelos atentados do 11 de Setembro  pode sonhar agora com uma reconstituição.

“O que está acontecendo no Afeganistão é uma clara e contundente vitória da Al-Qaeda”, disse Colin Clarke, diretor de pesquisas do Centro Soufan, com sede em Nova York. “É um evento que poderá ser utilizado para atrair novos recrutas e criar um impulso que a rede terrorista não consegue desde a morte de Bin Laden em 2011”, acrescentou. / AFP, REUTERS, e AP

 

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Paquistão continua assombrado dez anos após a morte de Bin Laden

Terrorista viveu recluso em Abbottabad por pelo menos cinco anos antes de ser morto em operação de impacto global

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 10h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h22

ABBOTTAABAD, Paquistão - Como quase todos os dias, crianças jogam críquete num terreno com grama queimada e escombros espalhados. Isso é o que resta do último covil do homem que foi por muito tempo o mais procurado do planeta, responsável pelo maior ataque terrorista aos EUA na História.

Foi ali, na cidade paquistanesa de Abbottabad, nas encostas do Himalaia, que Osama bin Laden foi morto durante uma operação dos Navy Seals, unidade de elite das forças especiais americanas, em 1º de maio de 2011.

O impacto da missão foi global e afetou a imagem internacional do Paquistão, expondo as contradições de um país que por muito tempo serviu de retaguarda para a Al-Qaeda e seus aliados do Talibã, apesar de ser vítima do terrorismo. 

A "Operação Lança de Netuno" encerrou uma busca de dez anos pelo autor dos ataques de 11 de setembro, que fugiu dos americanos em 2001 nas cavernas de Tora Bora, no leste do Afeganistão.

Foi muito constrangedor para o Paquistão e seu exército todo-poderoso. Bin Laden viveu recluso por pelo menos cinco anos em Abbottabad, escondido atrás dos muros de um imponente edifício branco, a menos de dois quilômetros de uma prestigiosa academia militar.

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"Foi muito ruim para este lugar e para todo o país. Abbottabad era o lugar mais pacífico que existia. Morando ali, Osama deu à cidade uma má reputação", lamenta Altaf Husain, um professor aposentado de 70 anos perto da antiga residência de Bin Laden.

O exército e os serviços de inteligência do Paquistão sofreram um duro golpe. Poderiam ter admitido que estavam cientes da presença do fundador da Al-Qaeda, mas isso teria deixado clara sua incapacidade de impedir a operação americana. Preferiram negar, mesmo significando reconhecer lacunas nas atividades de inteligência.

Humilhação nacional

O evento foi vivido como uma humilhação nacional. A operação reforçou a animosidade anti-americana entre uma população cansada do custo financeiro e humano da guerra ao terror e sua aliança com os Estados Unidos após os ataques de 2001.

O Paquistão foi inicialmente sensível ao mito fundador da Al-Qaeda, baseado na resistência do povo muçulmano ao imperialismo norte-americano. Mas quando Bin Laden morreu, não era mais tão popular como há uma década. 

"Antes, lembro que as pessoas chamavam seus filhos de Osama, até mesmo na minha aldeia", conta o jornalista paquistanês Rahimullah Yusufzai, especialista em redes jihadistas. Mas, segundo ele, a partir de 2002 ou 2003 esse apoio "começou a diminuir por causa da violência".

Isso não impediu que o extremismo continuasse se espalhando depois de 2011 no Paquistão, onde movimentos religiosos conservadores ganharam influência.

Nos três anos seguintes, grupos terroristas, notadamente o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP, o Talibã paquistanês), realizaram ataques sangrentos e estabeleceram fortalezas em áreas tribais do noroeste.

Foram desalojados em uma campanha militar lançada em 2014 nesta região na fronteira com o Afeganistão. Isso tornou possível reduzir a violência, mas uma série de ataques recentes levanta preocupações sobre o ressurgimento desses grupos.

'Não há unanimidade'

Sem seu líder carismático, a Al-Qaeda "sobreviveu, mas por pouco" e não é mais capaz de lançar um grande ataque no Ocidente, enfatiza Yusufzai. 

O grupo "também deixou de ser uma grande ameaça para o Paquistão", mas outros como o TTP e o Estado Islâmico continuam sendo, estima Hamid Mir, o último jornalista vivo a ter entrevistado pessoalmente Bin Laden no final de 2001. 

Dez anos depois, Bin Laden mantém sua aura entre os círculos radicais. "Está vivo no coração de cada talibã e de cada jihadista", afirma Saad, um importante talibã afegão que vive na cidade de Peshawar, no noroeste do Paquistão.

Além dessa corrente, uma certa ambivalência persiste. Em 2019, o primeiro-ministro paquistanês Imran Khan provocou polêmica ao declarar perante a Assembleia Nacional que Bin Laden havia morrido como "mártir", um termo elogioso na religião islâmica.

"Não há unanimidade sobre Bin Laden no Paquistão. A opinião pública está dividida", observa Mir. Segundo ele, alguns continuam a ver o líder da Al-Qaeda como um "combatente pela liberdade" e outros como "uma pessoa má, que matou inocentes e causou destruição, não só no Paquistão, mas em muitos países, violando os ensinamentos do Islã".

Mesmo em Abbottabad, cidade de porte médio bastante próspera e tolerante, há uma certa ambiguidade em relação a Bin Laden, cuja casa foi destruída em 2012 pelas autoridades para que não se tornasse um monumento.

"Nesta rua as opiniões são diferentes. Alguns dizem que era bom, outros que era ruim", diz outro vizinho, Numan Hattak. /AFP

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'Meu filho era um bom garoto, mas sofreu lavagem cerebral', diz mãe de Bin Laden

Em rara entrevista, Alia Ghanem diz ao diário britânico 'The Guardian' que Osama 'se converteu em uma pessoa diferente' após conhecer radicais na universidade; irmão de terrorista diz que matriarca da família não consegue aceitar culpa do filho por ataque

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2018 | 15h50
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h45

LONDRES - A mãe do terrorista saudita Osama bin Laden, Alia Ghanem, afirmou que seu filho, mentor do ataque às torre gêmeas de Nova York em setembro de 2001, era "um garoto muito bom" até que conheceu na faculdade pessoas que "lhe fizeram lavagem cerebral".

Em rara entrevista ao diário britânico The Guardian, Alia reconheceu que teve "uma vida muito difícil" e descreveu Osama como "um garoto tímido, mas bondoso", que gostava muito dela.

"As pessoas na universidade o mudaram. Se converteu em uma pessoa totalmente diferente. A verdade é que era um garoto muito bom até que conheceu essas pessoas que, quando tinha 20 anos, lhe fizeram lavagem cerebral", explicou ela em sua casa na cidade de Jeddah, na Arábia Saudita, ao lado dos irmãos de Osama,  Ahmad e Hassan, e de seu segundo marido, Mohammed al-Attas.

"Podemos dizer que ele praticamente estava em uma seita. Eu lhe dizia para não se juntar a eles e Osama nunca admitiu para mim o que realmente estavam fazendo porque me amava muito", completou a mãe.

Bin Laden se radicalizou enquanto estudava economia na Universidade Rei Abdulaziz, em Jeddah, onde conheceu Abdullah Azzam, um membro da Irmandade Muçulmana que mais tarde foi exilado da Arábia Saudita.

"Nunca poderia ter imaginado que se converteria em jihadista. Não que nada disso tivesse acontecido. Por que jogar tudo fora assim?", questionou Alia, que cresceu na cidade síria de Latakia e se mudou para a Arábia Saudita na década de 1950.

Alia se divorciou do pai de Osama em 1960, três anos depois do nascimento de seu primeiro filho e, mais tarde, se casou com Mohammed al-Attas.

A família afirma que a última vez em que viram Osama foi nos arredores da cidade afegã de Kandahar em 1999, ano em que o visitaram em duas ocasiões.

"Sua base estava perto do aeroporto que os russos capturaram. Estava feliz de nos receber e de nos mostrar todo o local. Até fizemos uma festa e convidamos todos (ao redor)", recordou Ali.

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11 de setembro: como o atentado promovido pela Al-Qaeda mudou o mundo

Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Um dos irmãos de Bin Laden, Ahmad, garantiu que a matriarca da família "se nega a culpar" Osama pelo ataque terrorista de 11 de Setembro, pelo qual responsabiliza os que estavam ao seu redor.

"Ela o amava tanto que não é capaz de culpá-lo (...) Ela só conheceu o Osama criança, aquele que todos nós vimos, e não conseguiu ver seu lado jihadista", comentou.

"Foi uma sensação estranha", expressou Ahmad ao ser perguntado sobre o ataque em Nova York. "Fiquei petrificado, mas desde o princípio todos supusemos que tinha sido Osama. Sabíamos que sofreríamos as consequências", completou. / EFE

 

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Duas vítimas do 11 de Setembro são identificadas 20 anos após ataque terrorista

Com análise de DNA, foi possível confirmar a identidade de Dorothy Morgan e de um homem que teve o nome preservado a pedido da família

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 07h55

NOVA YORK —  O Departamento de Perícia Médica de Nova York conseguiu identificar formalmente mais duas vítimas do 11 de Setembro. Uma delas se chama Dorothy Morgan, que vivia em Hempstead, no Condado de Nassau. A segunda vítima, um homem, não teve o nome revelado a pedido da família.

Com a atualização, chega a 1.647 o número de pessoas identificadas após o ataque terrorista no World Trade Center em 2001. O trabalho é resultado de análises contínuas de DNA de restos mortais recuperados no local da tragédia.

"Vinte anos atrás, fizemos uma promessa às famílias das vítimas do World Trade Center de fazer o que fosse necessário pelo tempo que fosse necessário para identificar seus entes queridos. (...) Não importa quanto tempo passe, nunca esqueceremos do 11 de Setembro e nos comprometemos a usar todas as ferramentas à nossa disposição para garantir que todos aqueles que foram perdidos possam se reunir com suas famílias", ressaltou Barbara A. Sampson, chefe do departamento, em comunicado.

Não havia atualização na identificação de vítimas do atentado desde outubro de 2019. Atualmente, 1.106 pessoas — aproximadamente 40% dos que morreram no ataque — ainda não foram formalmente reconhecidas.

'Reabrir velhas feridas'

Segundo a família, Dorothy Morgan trabalhava como corretora de seguros no complexo que entrou em colapso ao ser atingido por dois aviões comerciais sequestrados por terroristas da rede Al-Qaeda. Sem os restos mortais, nunca foi possível fazer um enterro adequado. A filha dela, Nykiah Morgan, se disse surpresa com a identificação duas décadas após a tragédia.

“Eu não sabia que eles ainda estavam tentando fazer isso depois de todos esses anos”, revelou ela em entrevista ao jornal New York Times.

Após o ataque, Nykiah contou que teve esperanças de que a mãe estivesse viva. Ela viajou a Manhattan várias vezes procurando por ela, sem sucesso. Em outubro de 2001, Dorothy foi homenageada na igreja que a família frequentava.

Após tantos anos, a filha não tem certeza se quer fazer a retirada dos restos mortais da mãe e teme que o enterro de um caixão com um pequeno fragmento de osso possa afetar ainda mais o luto que viveu.

“De repente, você tem que decidir o que fazer com um ente querido que morreu há 20 anos. É quase como reabrir velhas feridas. Com o tempo, você sente que está melhorando, mas algo assim acontece 20 anos depois e você tem que lidar com tudo de novo”, lamentou.

De acordo com o jornal, a investigação relacionada ao 11 de Setembro é a maior ação de busca de pessoas desaparecidas já realizada nos Estados Unidos. Durante 20 anos, equipes de peritos têm testado repetidamente 22 mil pedaços de restos mortais encontrados nos destroços. / AP e AFP

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O que fazer com as imagens do World Trade Center em filmes e séries?

Desde os ataques às Torres Gêmeas, cineastas, produtores de TV e executivos de Hollywood têm ponderado a respeito da melhor maneira de lidar com material que as exibe

Tom Mashberg, The New York Times

19 de setembro de 2019 | 06h00
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h14

Pode acontecer de maneira abrupta, enquanto assistimos a reprises de Friends ou revemos filmes como Armagedom ou Uma Secretária de Futuro: uma visão das Torres Gêmeas dominando o horizonte de Nova York, como se fossem sentinelas de aço.

“Eu costumava ficar aflita quando comecei a vê-las em reprises e programas antigos”, afirmou Sally Regenhard, uma ativista por segurança em arranha-céus que perdeu o filho, Christian, um bombeiro recém-treinado de 28 anos, quando as torres caíram.

Apesar de ainda ver as torres como “instrumentos da morte”, ela afirmou que fica “menos aflita agora”.

Desde os ataques contra o World Trade Center de 11 de setembro de 2001, cineastas, produtores de TV e executivos de Hollywood têm ponderado a respeito da melhor maneira de lidar com material que exibe as torres, seja em clipes de abertura (Família Soprano, Sex and the City); em cenas de batalha (Armagedom, Independence Day); ou simplesmente como pano de fundo para um romance (Beijando Jessica Stein) ou sátiras espirituosas (Os Simpsons).

“Essa parece ser a grande questão em termos de etiqueta nos Estados Unidos”, afirmou o diretor Sam Raimi, que, em 2002, enfrentou um inusitado desafio: como lançar o aguardado “Homem-Aranha”, destinado ao sucesso nas bilheterias, que apresentava uma cena na qual o herói frustra a fuga de ladrões de banco em um helicóptero capturando-os em uma teia armada entre a Torre Norte e a Torre Sul.

Para Raimi e seus colaboradores, deixar aquela cena no filme era “impensável”. “Não achamos que era nosso direito, meses depois desse terrível massacre, exibir uma cena que resultaria em tanto pesar para tanta gente”, disse ele.

Raimi não estava sozinho ao extirpar as torres de produções de cinema e vídeo. Os seriados Família Soprano e Sex and the City deletaram elas de seus clipes de abertura a partir de 2002.

Os produtores de Os Simpsons também impediram a retransmissão de um episódio de 1997 em que um minúsculo Homer corre entre uma torre e outra, (tentando chegar ao banheiro público no último andar da Torre Norte) enquanto os arranha-céus pairam acima dele, imponentes.

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11 de setembro: como o atentado promovido pela Al-Qaeda mudou o mundo

Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Com o passar do tempo, porém, até as piores feridas começam a cicatrizar. Aquele episódio dos Simpsons foi restaurado à programação e, este ano, o celulóide original desenhado a mão da corrida de Homer para conseguir se aliviar foi doado ao Memorial e Museu Nacional do 11 de Setembro - e qualificado por sua curadora, Alexandra Drakakis, como uma doação “hilária e carinhosa”.

Jennifer Westfeldt, que colaborou no roteiro de Beijando Jessica Stein e coestrelou o filme, participou de sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 10 de setembro de 2001, horas antes dos ataques. Ela se recorda da alegria que sentiu após seu filme, repleto de planos abertos das torres nas melhores horas de luz, ter sido aplaudido.

O filme foi exibido pela segunda vez em 12 de setembro, disse ela, e “as pessoas que foram à sessão contaram que escutaram gente soluçando e chorando por causa daquelas imagens”.

“Era de cortar o coração”, acrescentou ela. “Todas aquelas imagens que imaginamos como lindas e românticas estavam causando arrepios e assombro, no meio de uma comédia romântica cuja intenção era fazer rir, não deixar o público traumatizado.” Finalmente, eles optaram por refilmar as cenas.

Alguns diretores, porém, não apoiam alterar um filme realizado antes do 11 de Setembro em razão de sensibilidades pós-11 de Setembro. Entre eles está Michal Bay, diretor de Armagedom, um filme de desastre de 1998 que mostra uma das torres em chamas após ser atingida por um meteoro.

“Não se pode mudar a história”, disse Bay. “Arte é arte - é uma forma de expressão.”

“Filmes são filmados, editados e finalizados para que o mundo os veja”, continuou ele. “Eles não são reeditados por causa de mudanças na história. Se fosse assim, isso significaria que todo filme tem de ser alterado. Cada livro, cada conto, cada pintura sobre Nova York nos últimos 30 anos. Isso não teria fim.”

Outros dizem que se trata apenas de timing - de se perguntar se você violou a regra do “cedo demais”.

O diretor Paul Greengrass enfrentou essa questão quando decidiu, em 2006, realizar Voo United 93, a respeito do avião sequestrado no 11 de Setembro que caiu na Pensilvânia, quando os passageiros reagiram aos sequestradores. Como foi a primeira produção comercial a respeito dos ataques, o filme foi duramente criticado e considerado de mau gosto antes do lançamento. Quando foi lançado, porém, foi aclamado pela crítica e louvado pelas pessoas próximas aos passageiros, por sua verossimilhança e carga emocional.

“Quando eu vejo as torres, agora, tenho uma sensação de tristeza e perda”, disse Greengrass. Mas, “de uma maneira curiosa”, acrescentou ele, “também as vejo como uma referência do passado e do que está por vir”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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Para famílias de vítimas do 11 de setembro, novas técnicas de DNA reabrem feridas

Especialistas que trabalham na maior investigação forense da história dos EUA criaram técnica que permite extrair material genético de restos mortais considerados degradados em razão do contato com condições extremas, como as do atentado em Nova York

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2018 | 16h45
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h35

NOVA YORK, EUA - Um avanço nas análises de DNA está ajudando a identificar mais vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York, mas o progresso científico consola pouco as famílias daqueles cujos restos mortais podem ter sido enterrados em um aterro sanitário.

O número oficial de mortes dos ataques ao World Trade Center de Manhattan é de 2.753, incluindo os desaparecidos e dados como mortos. Só 1.642 deles, ou certa de 60%, foram identificados.

O Instituto Médico Legal de Nova York trabalha há 17 anos para identificar as mais de 1 mil vítimas restantes, e fez mais cinco identificações positivas aproveitando avanços nas técnicas de coleta de DNA nos últimos cinco anos.

Essas inovações foram contraditórias para as famílias que lutaram em vão para impedir a cidade de criar um parque no enorme aterro de Fresh Kills de Staten Island, onde 1,8 milhão de toneladas de escombros das Torres Gêmeas foram lançados e enterrados.

“Estamos gratos por a identificação continuar, mas há mais material que poderia ter sido parte disso”, disse Diane Horning, que comandou uma batalha judicial fracassada de um grupo chamado Famílias do World Trade Center por um Enterro Adequado, que esperava impedir parte do projeto do parque.

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Diane liderou o grupo apesar de seu filho Matthew, de 26 anos, ter sido um dos primeiros identificados. Administrador de bases de dado de uma seguradora, ele trabalhava no 95º andar da Torre Norte quando os aviões atingiram os edifícios.

Em 2009 o Tribunal de Apelações do Segundo Circuito de Nova York determinou que as acusações de que a cidade lidou equivocadamente com os restos de Fresh Kills equivaleu a uma “falta de cuidado apropriado”, o que não bastou para vencer um processo contra a cidade.

À época autoridades de Nova York disseram que a cidade não queria ser insensível ou ofender as famílias das vítimas.

Para criar o parque, o aterro de Fresh Kills foi coberto com uma camada de solo e outros materiais para evitar a liberação de gases tóxicos vindos do lixo em decomposição na atmosfera, de acordo com a Aliança do Parque de Freshkills, parceira sem fins lucrativos da cidade de Nova York no empreendimento.

Charles Wolf perdeu a esposa, Katherine, no 11 de setembro, e seus restos não foram identificados - mas, se eles estiverem no aterro selado, ele considera que foi “a vontade de Deus” e está “em paz” com isso.

"Qual a solução? Cavar tudo e arriscar expor todas essa toxinas no meio ambiente?", questionou Wolf. "Não, esta não é a resposta, porque esse 'remédio' no fim das contas seria pior do que a 'doença'."

Avanços científicos

A habilidade para identificar mais vítimas é o mais recente capítulo de uma dolorosa saga que começou na manhã de 11 de setembro de 2001, quando dois aviões comerciais se chocaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center.

A destruição dos edifícios fazia parte de um plano coordenado da Al-Qaeda envolvendo o sequestro de quatro aviões e que deixaram mais de 3 mil mortos em Nova York, Washington e na Pensilvânia, onde uma das aeronaves caiu em uma área rural. Os ataques desencadearam uma escalada militar dos EUA no Oriente Médio que continua até os dias atuais.

Relembre os atentados de 11 de setembro de 2001

O avanço científico na extração de material genético aconteceu neste ano e foi anunciada na semana passada pelo chefe do IML de Nova York, poucos dias antes do 17º aniversário dos ataques terroristas.

A nova técnica coloca fragmentos de ossos em uma câmara contendo nitrogênio líquido para deixá-los mais frágeis de forma que possam ser pulverizados como um pó fino. Quanto mais o osso for pulverizado, maior é a possibilidade de extrair DNA dele.

Este é o mais recente esforço na maior investigação forense da história dos Estados Unidos, que envolve um time de 10 cientistas que ainda trabalham nos restos que eram considerados degradados em razão do contato com combustível de aviação, do calor e de outras condições extremas.

"Voltamos a analisar os mesmos restos mortais que testamos 5, 10 ou 15 vezes", disse Mark Desire, chefe do laboratório de criminalística do IML. "Estamos fazendo perfil de DNA de restos que no passado não tinham nenhuma esperança de identificação."

Wolf, que está entre os que não eram contra o projeto do Parque Freshkills, ficou feliz pelo esforço das equipes forenses. "Isso me deixa esperançoso de que possivelmente haverá restos mortais identificados para pessoas que ainda os querem", disse ele.

"Eu passei por muito trauma por não ter nada (físico) para lamentar", afirmou Wolf, com a voz embargada ao telefone. "Me lembro de ver Nancy Reagan tocar o caixão do marido. Eu senti falta de não poder ter feito isso." / REUTERS

 

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Como o atentado mudou a vida de muitos americanos

Famílias relatam as decisões que tomaram e os rumos que seguiram 17 anos após ataques terroristas matarem quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2018 | 16h13
Atualizado 10 de setembro de 2021 | 12h49

NOVA YORK - No dia 11 de setembro de 2001, Stephen Feuerman viu o World Trade Center em chamas pela janela de seu escritório no Empire State Building. Paralisado, ele assistiu ao momento em que uma segunda bola de fogo explodiu na segunda das torres gêmeas.

Ele correu pelo 78º andar do edifício, pedindo a todos que saíssem, pensando que o arranha-céu onde estava poderia ser o próximo.

Com o bloqueio no trânsito da área, ele demorou horas para conseguir chegar em sua casa, no subúrbio de Westchester. Abalado pela experiência, o corretor, sua mulher e os dois filhos pequenos se mudaram em menos de quatro meses para um subúrbio no sul da Flórida, onde imaginavam estar mais seguros do que em Nova York.

Foi assim até fevereiro do ano passado, quando um ataque em massa aconteceu em Parkland, na Flórida. "Realmente não há lugar seguro", disse Feuerman, cujas crianças sobreviveram, mas perderam amigos no massacre que matou 17 pessoas na escola Marjory Stoneman Douglas.

Ele conta, no entanto, que a família tomou uma boa decisão após o 11 de setembro e se sente mais ligado ainda a Parkland desde que o ataque o colocou em uma espiral de eventos e ativismo pela segurança nas escolas. "Tivemos uma boa vida aqui", diz. "E, novamente, isso poderia ter acontecido em qualquer lugar."

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Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 levaram os Feuerman e muitos outros a se afastarem da vida nos locais onde aconteceram os ataques com os aviões sequestrados, que mataram quase 3 mil pessoas em Nova York, no Pentágono e na Pensilvânia há 17 anos. Alguns buscaram segurança. Outros deram mais importância à vida perto da família. Alguns reavaliaram completamente o que queriam de suas vidas.

"Nos deu um chamado para acordar"

Por cerca de 30 semanas ao ano, Scott Dacey dirige de sua casa, próxima de New Bern, na Carolina do Norte, até Washington, por alguns dias. As viagens de 563 quilômetros são o preço que o lobista federal paga para ter paz e tranquilidade após o 11 de Setembro. Ele e a mulher, Jennifer, antigamente esperavam ficar na área de Washington por anos. Depois, veio o ataque ao Pentágono e a sensação de viver sob segurança pesada no norte da Virgínia.

"Foi um chamado para que nós acordássemos: 'Como queremos viver nossas vidas?'", disse Dacey. "Queremos estar aqui, nessa busca incessante de Washington D.C. ou criando filhos em algum lugar menos vigiado e mais perto da família?" A mudança do casal, em 2002, significou custos extras, incluindo um apartamento em Washington. Jennifer, que era advogada, teve que fazer um segundo exame de ordem na Carolina do Norte.

Mas a mudança também abriu novas oportunidades. Dacey é um comissário do condado e concorreu a uma vaga no Congresso. Republicano, ele nunca havia considerado concorrer a eleições quando morava no norte da Virgínia, região de tendência democrata.

E seus filhos, hoje com 17 e 15 anos, cresceram em uma cidade considerada uma das mais seguras do Estado. "Não seria para todo mundo, mas para nós tem sido a mudança certa", disse Jennifer. "Estamos fora da bolha, e é assim que a América realmente vive."

"Você só vai mudar sua vida quando as coisas estiverem ruins"

Tinha que haver um jeito melhor de viver, pensavam Michael e Margery Koveleski. Designer de móveis, Michael sentiu o desgaste emocional ao seu redor quando trabalhava em uma parte baixa de Manhattan, após o 11 de Setembro. Medidas de segurança prologaram seu trajeto de casa, no Queens, até a empresa, devorando o tempo que tinha para os filhos.

E dois meses após os ataques terroristas, o voo 587 da American Airlines caiu perto da casa dos Koveleski, matando 265 pessoas. Na primavera seguinte, a família se mudou para Springfield, em Ohio, onde tinha amigos da igreja. Foi uma melhora, mas nem sempre fácil. 

Inicialmente, foi um desafio para os filhos dos Koveleski serem as crianças novas e mestiças em uma área menos diversa que o Queens. Michael é branco e Margery tem origem haitiana.

Além disso, Michael teve dificuldades para encontrar trabalho na economia abalada após o 11 de Setembro. Ele encontrou uma solução ao abrir o próprio negócio, Design Sleep, que vende colchões de látex natural e camas de plataforma. Já são 14 anos de empresa. "Você só vai mudar sua vida quando as coisas estiverem ruins ou terríveis", disse Michael. "Eu fico impressionado sobre como tudo se resolveu."

"Tentamos ecoar um pouco do que amamos"

Heather e Tom LaGarde amavam Nova York e não queria sair, mesmo depois que Heather assistiu às torres gêmeas queimarem do apartamento onde o casal morava, no Lower East Side de Manhattan. "Mas nos sentimos perdidos com o 11 de Setembro", disse Heather. "Mesmo que eu não estivesse fisicamente ferida, só por ter visto de tão perto mudei de perspectiva. Suas prioridades mudam."

Morar em Nova York foi ficando cada vez mais difícil. O casal tinha trabalhos sem fins lucrativos. Ela se ocupava com direitos humanos. Ele gerenciava um time de basquete para crianças, projeto que havia fundado depois de jogar para alguns times da NBA. Os dois dependiam da arrecadação de fundos, que diminuíra com a economia depois dos ataques. E os amigos haviam se mudado.

Inicialmente, um rancho na Carolina do Norte, que haviam visto à venda pela internet em 2002, seria apenas um refúgio de tempos em tempos. Mas em 2004, os LaGarde se mudaram para a fazenda, perto da pequena cidade de Saxapahaw, com os dois filhos, a garantia de alguns meses de trabalho de consultoria para Heather e nenhum plano além disso.

A ausência de planejamento evoluiu para o começo de uma empresa de restauração arquitetônica; um mercado de produtores locais; uma conferência de inovação humanitária; e o Haw River Ballroom, um espaço de eventos musicais em um antigo moinho, que o casal ajudou a renovar. "Tentamos ecoar um pouco do que amávamos" em Nova York, disse Heather, "mas vivendo em um lugar mais simples, mais fácil, mais natural".

"Liberdade, meus país, minha casa"

Georgios Takos viaja pelo norte de Wyoming em seu food truck Estação Grega. Na decoração do restaurante móvel está uma placa de veículo de Nova York, em estilo souvenir. É uma lembrança do local onde ele certa vez acreditou que traria à vida seu sonho americano. 

Crescendo na região norte da Grécia, em Kastoria, Takos desejava viver nos EUA que via nos filmes, e estava entusiasmado quando chegou a Nova York, em 1986.

Mas 15 anos depois, quando saía da cidade, tinha lágrimas nos olhos. Os ataques de 11 de setembro haviam destruído sua sensação de segurança e sua ideia de cidade. Ele se mudou e passou a trabalhar em um restaurante no Arizona, e em seguida foi para Califórnia, onde conheceu sua mulher, Karen, uma professora.

Em visita ao Estado natal de Karen, Montana, ele encontrou os EUA que imaginava. O casal se mudou para a cidade próxima de Powell em Wyoming. Takos ainda valoriza o que Nova York lhe ensinou sobre o trabalho duro. Mas ele diz que ao deixar a cidade, encontrou o que estava procurando - "Liberdade, meu país, minha casa!" / AP

 

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11 de setembro: Veja filmes e livros sobre os atentados de 2001

Produções como 'Worth', da Netflix, o documentário de Spike Lee para o HBO Max e o livro 'O Único Avião no Céu' foram lançados em 2021, ano em que se completam 20 anos da queda das Torres Gêmeas

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2021 | 10h00

O dia 11 de setembro de 2001 ficou marcado na história por conta dos atentados terroristas que vitimaram milhares de pessoas nos Estados Unidos, incluindo a derrubada de dois aviões sobre as Torres Gêmeas (prédios do complexo World Trade Center). 

No aniversário de 20 anos do episódio, alguns cineastas apostaram em diferentes abordagens para retratar o 11 de Setembro em documentários ou ficção. Já o livro O Único Avião no Céu, também lançado em 2021, reconstitui os fatos daquele dia sob nova perspectiva (clique aqui para ler a entrevista com o autor, Garret M. Graff). Confira abaixo estas e outras dicas de filmes e livros que retratam os atentados terroristas de 2001.

Filmes sobre os atentados de 11 de setembro

Worth

O filme da Netflix conta a história do conciliador Kenneth Feinberg (Michael Keaton), encarregado de desenvolver e administrar o Fundo de Indenização das Vitimas do 11 de Setembro. 

NYC Epicenters: 9/11 → 2021 ½

A série documental dirigida por Spike Lee traz depoimentos de diversas pessoas e aborda, além dos atentados, a pandemia de covid-19.  jornal New York Times noticiou que ele incluiu teóricos de conspiração no filme e os retirou da edição final devido à revolta que isso causou.

The Outsider

Steven Rosenbaum, codiretor do documentário The Outsider, disse que seu filme é diferente de outros que sairão neste ano. "Achamos que a América merece uma conversa livre, aberta e honesta sobre o 11 de Setembro, e achamos que não tivemos isso", disse. O filme é um olhar íntimo sobre a criação do Memorial & Museu 11/9 e sobre desavenças entre a equipe a respeito de como ele recontou o que aconteceu. O museu pediu cortes em algumas cenas, o que os cineastas não aceitaram.

"Deixamos claro aos cineastas que estávamos decepcionados com muitas de suas decisões, que achamos serem desrespeitosas com as vítimas e suas famílias", disse a porta-voz Lee Cochran.

11 de Setembro

Onze diretores de todo o mundo se uniram em 2002 para fazer esse filme em episódios, cada um com nove minutos e 11 segundos (nine eleven) de duração, contando como o ataque ao World Trader Center foi visto/recebido em diferentes latitudes. Ken Loach e Denis Tanovic fizeram os filmes mais explosivos, comparando o 11 de Setembro dos norte-americanos com o bombardeio de La Moneda, com apoio dos EUA, que acabou com o governo da Unidade Popular do presidente Salvador Allende, no Chile, e o massacre de Srebrnica, na Guerra da Bósnia. A iraniana Samira Makhmalbaf retrata o episódio de dentro de uma sala de aula, com a professora tentando explicar o que se passou a crianças pequenas.

Fahrenheit, 11 de Setembro

O documentário de Michael Moore, de 2004, resgata aquele momento em que o então presidente George W. Bush recebe o anúncio do ataque. Ele visita um jardim de infância na Flórida. Lê um livro infantil, fica com cara de pasmo, sem reação. O filme mostra como Bush fechou aeroportos, mas facilitou a vida de seus amigos sauditas. Num encontro prévio à intervenção no Afeganistão e no Iraque, assessores prometem – a destruição dos países será benéfica para todos. A reconstrução trará muito dinheiro para os investidores.

Sicko

Outro documentário de Michael Moorre, este de 2007. O sistemas de saúde privatizado dos EUA. O bombeiro que foi herói no 11 de Setembro, mas aspirou a cinza tóxica e não consegue tratamento nos EUA. Moore o coloca numa lancha, na Flórida, e vai até Cuba. Saúde para todos, na ilha de Fidel Castro. O bombeiro é atendido e ainda leva medicamentos para casa.

As Torres Gêmeas

No seu longa de ficção, de 2006, Oliver Stone conta as história de dois agentes da Autoridade Portuária, Nicolas Cage e Michael Peña, que ficam presos nos escombros do World Trade Center depois de orientar a saída de centenas de pessoas em pânico.

Voo United 93

O longa semidocumerntário de Paul Greengrass, de 2006, reconstitui um dos momentos trágicos daquele 11 de Setembro. Terroristas controlam o voo United 93 e os próprios passageiros se mobilizam para derrubar a aeronave, abortando mais um ataque a instalações dos EUA.

A Hora Mais Escura

Kathryn Bigelow fez história como primreira mulher a ganhar o Oscar de direção por Guerra ao Terror, de 2010. Na sequência, em 2012, emendou essa ficção sobre a caçada a Osama Bin Laden. Como ele foi encontrado e morto durante a filmagem, a produção teve de ser reformulada em pleno andamento.

O Terminal

A história do estrangeiro que fica preso dentro de um aeroporto no auge da paranoia provocada pelo 11 de Setembro. Os protocolos de segurança ficaram mais rígidos, mas ele colhe uma onda de simpatisa, apesar da dureza do oficial da imigração. Com esse filme de 2004, e sem que uma só referência seja feita ao ataque às Torres Gêmeas, Steven Spielberg iniciou uma trilogia informal, que inclui Guerra dos Mundos e Munique, ambos de 2005. Os três filmes formam o testemunho do autor sobre o que se passou na 'América'. No terceiro, sobre a caçada aos terroristas que atacaram atletas israelenses na Olimpíada de 1972, a premier Golda Meir clama por ética e diz a frase-chave - “Não podemos perder nossa alma em nome do combate aos que consideramos inimigos.”

Livros sobre o atentado de 11 de setembro de 2001

O Único Avião no Céu, de Garret M. Graff

O autor passou três anos coletando histórias de sobreviventes do 11 de setembro. Com mais de 500 relatos orais recolhidos por ele e dezenas de historiadores e jornalistas, escreveu o livro, uma cuidadosa organização das falas destas pessoas em ordem cronológica, permitindo um inédito detalhamento do terror que tomou conta dos Estados Unidos àquele dia. (Editora Todavia).

102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn

O livro traz a recomposição dos fatos ocorridos em 11 de setembro de 2001 feita por dois jornalistas veteranos do jornal New York Times, entre o momento que o primeiro avião atingiu o prédio até a queda da segunda torre (por isso o nome 102 Minutos). As fontes são entrevistas, e-mails, gravações de secretárias eletrônicas, departamento de polícia e pedidos de socorro. (Zahar)

O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid

Em um café em Lahore, um paquistanês conta sua vida para um turista norte-americano, incluindo como os atentados de 2001 o levaram a abandonar os Estados Unidos e a vida profissional e materialmente rica que levava lá. Estruturado como um longo monólogo, onde o interlocutor é uma sombra muda e o gesto derradeiro – violento ou não – é deixado em aberto. (Alfaguara; tradução de Vera Ribeiro)

Cidade Pequena, de Lawrence Block

O autor policial, criador de personagens inesquecíveis como Matt Scudder, faz de Cidade Pequena um ousado painel sobre Nova York pós-11/09. Entre seus vários personagens, há o sujeito que, após perder a família nos atentados, entrega-se a uma espécie de vingança contra a própria cidade, assassinando seus concidadãos. (Companhia das Letras; tradução de Anna Viana)

Os Filhos do Imperador, de Claire Messud

Parafraseando Philip Roth, “nada cumpre o que prometeu” nas vidas dos personagens de Messud. Os três protagonistas têm trinta e poucos anos, são privilegiados, egressos de boas escolas, mas vivem em desassossego. Assim, é como se a tragédia externa tornasse palpável o caráter cindido daquela geração – expresso desde a estrutura textual repleta de interpolações. (Nova Fronteira)

À Sombra das Torres Ausentes, de Art Spiegelman

Autor premiado com o Pulitzer, Spiegelman desenvolve aqui uma série de histórias por meio das quais, segundo ele próprio afirmou, conseguiu lidar com o choque sofrido. (Quadrinhos na Cia.; tradução de Antonio de Macedo Soares)

O Último Grito, de Thomas Pynchon

Pynchon faz com que o leitor se perca “construtivamente” em um labirinto narrativo no qual o terror se imiscui aos poucos no próprio tecido da realidade. A certa altura, frente à “hiper-realidade” dos atentados, a protagonista quer se esconder no universo virtual onde se perdera pouco antes. (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto)

Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer

Após perder o pai “no pior dos dias”, o narrador (um menino de nove anos) empreende uma busca depois de encontrar uma chave entre os pertences do falecido. Os grafismos, imagens e textos sobrescritos usados por Foer não escondem o extremo sentimentalismo da narrativa – e a escolha final (um corpo que ascende em vez de cair) diz muito da incapacidade do autor de lidar com o trauma. (Rocco; tradução de Daniel Galera)

Homem em Queda, de Don DeLillo

Embora seja um autor com muito mais recursos do que Foer, o veterano DeLillo também não conseguiu escrever um romance à altura de seus melhores trabalhos (Ratner’s Star, Ruído Branco, Libra, Submundo). Ainda assim, tem seus bons momentos, como o início e o final (o protagonista em meio aos escombros das torres), e o paralelo irônico dos terroristas islâmicos com um extremista ocidental, alemão, branco e ateu. (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto)

Sons and Other Flammable Objects e The Last Illusion, de Porochista Khakpour

Ainda inéditos no Brasil, os dois primeiros romances da autora norte-americana (nascida no Irã) se concentram na comunidade de imigrantes e descendentes iranianos em um momento histórico traumático para todos os envolvidos. Sons é uma história familiar de deslocamentos, ao passo que Illusion reimagina um mito persa na Nova York do começo do século 21.

The Zero, de Jess Walter

Também inédito no Brasil, esse livro de Walter foi descrito pelo próprio autor como “um romance sobre o 12 de setembro”. Indo além, pode-se dizer que é um romance sobre os “estados alterados” dos EUA pós-11/9 com uma verve que remete a Joseph Heller. Quem conhece o autor de A Vida Financeira dos Poetas sabe que isso dificilmente é um exagero. Pela abordagem um tanto insana, o livro poderia ser colocado em uma sublista que inclui United States of Banana, da porto-riquenha Giannina Braschi (uma colagem que envolve metaficção, poesia, fragmentos narrativos e teatro), e a sátira também helleriana The Man Who Wouldn’t Stand Up, de Jacob M. Appel, onde um sujeito não se levanta para cantar God Bless America em um jogo de beisebol (e ainda mostra a língua para as câmeras de TV), inflamando o patriotismo obtuso de seus compatriotas e instaurando o caos.

American Widow, de Alissa Torres & Sungyoon Choi.

Por fim, incluo essa graphic novel autobiográfica. Trata-se de um relato pungente da experiência de Torres – grávida, ela perdeu o marido nos atentados.

 

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O Plantão da Globo interrompeu 'Dragon Ball Z' no 11 de setembro?

Nos últimos anos, redes sociais foram palco de debate sobre programação de TV no dia dos atentados ao World Trade Center em 2001 e popularizaram o termo 'Efeito Mandela'; saiba o que é e entenda a relação com falsas memórias

André Carlos Zorzi, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 07h01
Atualizado 11 de setembro de 2021 | 15h04

Atualizado em 11/09/2021 às 15h03

Dragon Ball Z foi interrompido pelo Plantão da Globo durante o atentado terrorista ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001? Você provavelmente já se deparou com relatos nas redes sociais feitos por pessoas que garantem ter visto isso acontecer na época.

Nos últimos anos, o tema trouxe muita discussão e ajudou a popularizar o termo "Efeito Mandela" no Brasil, que tem ligação com falsas memórias proporcionadas pela mente humana.

Dragon Ball Z foi ao ar na TV em 11 de setembro de 2001?

No dia dos atentados terroristas, a programação da Globo previa o infantil Bambuluá, de Angélica, entre 9h20 e 11h55. Era dentro desse horário que Dragon Ball Z era exibido havia alguns meses.

Dentro do Bambuluá, existia a TV Globinho (que deu origem ao tradicional horário de desenhos da Globo), espécie de 'emissora' fictícia em que Angélica trabalhava como âncora e tinha a ajuda de repórteres mirins na chamada de desenhos e esquetes.

Em agosto de 2017, o jornalista Diogo Cavalcante, do Diário de Pernambuco, publicou a imagem do que seria a medição de audiência da Globo no dia 11 de setembro de 2001, com o nome dos programas e seus horários de exibição.

O documento indica que Dragon Ball Z costumava ser exibido mais adiante, no horário das 11h15, e o que estava sendo exibido no horário por volta das 9h50, quando o Plantão da Globo teria entrado no ar pela primeira vez naquele dia, era Garrafinha.

Segundo o site Memória Globo, a primeira interrupção do Plantão da Globo com Carlos Nascimento durou apenas quatro minutos. A cobertura jornalística retornaria somente algum tempo depois, às 10h02, o que indica que houve mais de uma interrupção na programação naquela manhã.

Para Entender

11 de setembro: como o atentado promovido pela Al-Qaeda mudou o mundo

Ataques ao World Trade Center e ao Pentágono foram decisivos para determinar a geopolítica e as agendas internacionais no início do século, com uma série de repercussões nas décadas seguintes

Dragon Ball Z, de fato, era exibido diariamente num horário próximo ao que ocorreram os atentados de 11 de setembro, o que pode ter levado à confusão de algumas pessoas. É provável que se trate apenas de uma falsa memória amplificada pelas redes sociais - é possível encontrar montagens com o plantão interrompendo uma cena do desenho, por exemplo.

Em 2019, o Estadão contatou a Globo sobre detalhes da programação na data, mas não obteve retorno. Também não há gravações da íntegra do momento das primeiras interrupções daquela manhã na internet atualmente.

O quadro Garrafinha existia desde 1998, quando ia ao ar no programa Angel Mix. Com a criação de Bambuluá, o programa voltou a ser exibido em edições que duravam por volta de cinco minutos. Nas historinhas, a protagonista dividia a cena com seu amigo Musicão e o pinguim Fraldo.

O que é Efeito Mandela

O termo ganhou popularidade por conta de um site criado em 2009 pela norte-americana Fiona Broome, que se define como "pesquisadora paranormal".

"Efeito Mandela" seria uma referência ao fato de ela e algumas pessoas com quem teria contato possuirem uma falsa memória sobre a morte de Nelson Mandela - que ocorreria, de fato, anos depois, em 2013.

Por isso, o termo é utilizado para se referir a memórias compartilhadas por muitas pessoas sobre algo que não aconteceu, de fato - como a exibição de Dragon Ball Z sendo interrompida pelo Plantão da Globo no 11 de setembro.

Um exemplo seria a frase de Darth Vader para Luke Skywalker no filme Star Wars. Muitos acreditam que o personagem diz "Luke, eu sou seu pai", quando a versão original do filme diz "Não, eu sou seu pai".

Isso pode ter diversas explicações. Entre elas, diferentes traduções ou versões de uma determinada obra, ou pronúncia ou forma de escrever semelhante em alguns casos. Em outros, paródias humorísticas também acabam influenciando as lembranças que temos. 

Fiona Broome também lançou o livro The Mandela Effect - Theories and Explanations ("O Efeito Mandela - Teorias e Explicações", em tradução livre), no qual fala sobre o tema.

Falsas memórias

Apesar de o termo Efeito Mandela não ser usado cientificamente, a questão das falsas memórias, ou falsas lembranças, começou a ser estudada no final do século 19 e é alvo de estudos frequentes desde a década de 1990.

"Falsas memórias são um tipo de falha na memória em que o indivíduo pode (a) reconhecer como tendo visto antes um objeto ou evento que não tenha ocorrido ou (b) não reconhecer algo previamente presenciado. Estes são o falso reconhecimento e a rejeição errada", explica uma tese de doutorado pela USP de Renato Ferrari Pacheco.

Em sua dissertação, o doutor em engenharia elétrica exemplifica um caso de falsa memória presenciado por ele. Diante de alunos, disse as seguintes palavras: "morro, pico, bandeira, vale, frio, altura, alpinista, neve, escalada, céu, cume, vulcão, monte, cachoeira e nuvens".

Na sequência, escolheu algumas delas e outras que não havia dito e pediu que lhe respondessem se elas estavam na lista de palavras faladas anteriormente. Ao questionar sobre a palavra "montanha" - que não havia sido dita - a maioria dos estudantes afirmou que sim. Um deles, inclusive, exaltou-se pois tinha certeza que ouviu a palavra.

"Nesta situação apresentou-se um tipo de falha na memória, conhecido como falsa memória. Obviamente o conteúdo pode induzir ao erro, pois todas as palavras são relacionadas com 'montanha'", consta na tese.

O exemplo nos ajuda a compreender como o cérebro humano, de fato, pode gerar falsas memórias de variadas formas.

Como foi a cobertura do 11 de setembro

O jornalista Carlos Nascimento foi o responsável por tocar a cobertura ao vivo dos atentados ao World Trade Center na Globo em 11 de setembro de 2001 - dividindo a função com Ana Paula Padrão em alguns momentos. Meses depois, ele relembrou o momento em depoimento ao quadro Repórter em Ação, do Jornal Hoje.

"Eu achei que um pequeno avião tinha batido num prédio, só isso. Quem naquela altura imaginaria que um Boeing tinha sido lançado contra um dos edifícios mais famosos do mundo?", comentava, sobre o início do plantão.

"Quando o segundo avião bateu, a primeira torre encobria a segunda e não ficou claro que era um novo choque. Mas, segundos depois, nós não tinhamos mais dúvidas. Era uma outra explosão e o World Trade Center só podia estar sendo alvo de um ataque terrorista", prosseguia Carlos Nascimento.

É possível assistir a diversos vídeos com a cobertura do 11 de setembro na Globo no YouTube. Confira alguns abaixo:

Clique aqui para relembrar como o Estadão noticiou os atentados ao World Trade Center. Saiba também como foram os bastidores da redação no dia 11 de setembro de 2001 e confira uma lista com filmes e livros sobre o tema.

Veja algumas postagens em redes sociais falando sobre a suposta exibição de Dragon Ball Z no dia 11 de setembro de 2001:

 

 

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