20 anos após morte de Yitzhak Rabin, política israelense mudou

20 anos após morte de Yitzhak Rabin, política israelense mudou

Para ex-diretor de comunicação do gabinete do premiê Netanhyahu, hoje ‘poucas pessoas acreditam que se pode alcançar um tratado de paz utópico’

O Estado de S. Paulo

04 de novembro de 2015 | 15h42

JERUSALÉM - Enquanto denúncias sobre os confrontos em Israel são comuns nas redes sociais, uma postagem em especial no Facebook se destaca, dado o momento atual e o autor. A publicação ganhou atenção no país na semana em que se completa 20 anos do assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. A autoria é de Hagai Amir, irmão de Yigal Amir, extremista de direita que passou anos na prisão pelo assassinato de Rabin.

Hagai Amir, solto em 2012 após passar 16 anos preso, disse que chegaria o dia em Deus “decidiria que Rivlin passaria desse mundo, junto com um Estado zionista, em razão dos crimes que eles cometeram em nome da lei contra a própria população”. “Esse dia não está longe”, alertou Rivlin.

A ameaça velada enfraqueceu muitos israelenses ainda traumatizados pelo assassinato ocorrido no dia 4 de novembro de 1995. O crime aconteceu após Rabin fazer concessões territoriais aos palestinos sob os Acordos de Paz de Oslo.

Durante o período de reflexão que antecede a data, momento que coincide com ataques de facas de soldados palestinos contra israelenses, muitos afirmam que nada parece ter mudado.

Ainda assim, o mapa político de Israel mudou, segundo especialistas. Enquanto vozes raivosas da extrema direita, como Amir, são amplificadas pelas redes sociais, mais a direita e a esquerda de Israel têm gravitado nas últimas duas décadas para um centro menos ideológico, aproximando-se de um consenso sobre o problema palestino. Para muitos, a luta agora é mais sobre como equilibrar as necessidade de segurança de Israel com a democracia, e a batalha contra incidentes versus o discurso livre.

Há duas décadas, a direita e a esquerda israelenses foram bruscamente divididas entre aqueles que sonhavam com um Grande Israel do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo, e os apoiadores de Rabin, que aderiram à ideia de terra por paz.

Analistas israelenses dizem que esses paradigmas não são mais relevantes, e mencionam múltiplas razões para a mudança, como o atentado suicida do segundo levante palestino que começou em 2000 e destruiu a fé que grande parte dos israelenses tinham na paz. Muitos deles destacam a liderança palestina fraca e dividida, e a falta de um líder forte e carismático, como Rabin, na esquerda israelense.

“Os israelenses estão em uma época de pragmatismo”, diz Yoaz Hendel, ex-diretor de comunicação do gabinete do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanhyahu. “Era muito claro na época de Rabin: você estava a favor ou contra desistir do território.”

Hoje, segundo Hendel, “poucas pessoas acreditam que se pode alcançar um tratado de paz utópico”.

“A extrema direita sempre esteve aqui, algumas vezes mais, outras menos”, afirmou Yehuda Ben Meir, especialista em segurança nacional e opinião pública do Instituto de Estudos de Segurança Nacional na Universidade de Tel Aviv.

Ainda assim, apesar de ter aumentado sua exposição nas redes sociais, de acordo com Ben Meir, ela não teve um crescimento significativo, e estudos mostram que uma clara maioria de israelenses ainda veem a democracia como uma característica essencial de seu Estado.

Apesar disso, muitos israelenses parecem procurar um caminho mais moderado. O Partido da Casa Judaica, que faz parte da coalizão do governo e promove a construção de assentamentos, propõe anexar cerca de 60% da Cisjordânia e permitir algum tipo de autonomia para os 40% densamente povoados pelos palestinos, dizem analistas.

Na década de 1990, houve “um confronto entre duas grandes ideologias”, afirmou Micah Goodman, um filósofo judeu israelense-americano. A direita acreditava que, ao estabelecer o coração bíblico da Cisjordânia, apressaria-se a salvação, iniciando a era messiânica. Para a esquerda, uma retirada de todos os territórios conquistados na guerra de 1967 traria paz e permitiria que Israel finalmente se tornasse parte da família das nações, descrita por Goodman como outra ideia “quase messiânica”.

“Nos últimos 20 anos, israelenses pararam de acreditar nas duas ideias”, disse. “A nova esquerda não fala de paz, mas de ocupação. A nova direita não fala sobre salvação, mas de segurança.” /THE NEW YORK TIMES

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