Yuri Gripas/REUTERS
Yuri Gripas/REUTERS

2020 nos EUA: um ano de divisões e mudança de estilo na Casa Branca

Tensão dos últimos meses transforma chegada de Biden em uma promessa de calma

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 04h00

Para os Estados Unidos, 2020 foi um ano de fraturas e divisões, marcado por uma campanha eleitoral muito agressiva, pela atitude de Donald Trump e também por Joe Biden, cuja vitória representa uma profunda mudança de estilo na Casa Branca. 

"Vencer, vencer, vencer". Durante meses o presidente republicano repetiu o lema em um país abalado pela pandemia de covid-19. E depois das eleições de novembro, Trump não reconheceu a derrota e insistiu nas acusações de fraude eleitoral. 

A tensão dos últimos meses transforma a chegada do democrata Biden à Casa Branca em uma promessa de calma. 

Uma promessa resumida em uma charge de Robert Leighton publicada na revista New Yorker. Um pai lê uma história para a filha antes de dormir e termina com a frase: "E daquele dia em diante, nem tudo era sobre Donald J. Trump".

Na forma e no conteúdo, em suas indicações para o gabinete e em suas declarações, Biden, que será a partir de 20 de janeiro o 46º presidente dos Estados Unidos, tenta mostrar desde sua vitória o contraste com Trump. 

Os Estados Unidos viveram 12 meses ao ritmo das eleições de 3 de novembro, mas será provavelmente o epílogo da batalha eleitoral que permanecerá na história, com um presidente que se nega a reconhecer a derrota. 

Em tuítes escritos com letras maiúsculas e pontos de exclamação, mas sem provas das acusações, o presidente republicano denunciou o que chamou de "eleição mais corrupta da história". 

Trump desprezou todas as regras não escritas que contribuem para o bom funcionamento da política americana: parabenizar o vencedor, transferência de poder ordenada e declarações conciliadoras. 

Mas os cenários mais apocalípticos não se concretizaram. Diante dos ataques de Trump, da avalanche de recursos judiciais apresentados contra os resultados eleitorais e da divulgação de teorias da conspiração, as instituições mostraram sua força. 

"Agora sabemos que nada, nem sequer uma pandemia ou o abuso de poder, pode apagar a chama da democracia", declarou Biden. 

"Vírus chinês"

Ainda resta uma pergunta sem resposta: Trump teria vencido a eleição se a pandemia não tivesse afetado a maior economia mundial?

O presidente está convencido de que sim. Se não conseguiu "mais quatro anos incríveis na Casa Branca" como previu, foi por causa do "vírus chinês", como ele chama o novo coronavírus que foi detectado pela primeira vez no país asiático.

A bordo do Air Force One, durante o primeiro dia de sua visita à Índia em fevereiro, ele expressou todo seu otimismo para as eleições. 

A economia apresentava bons números, ele havia superado o processo de impeachment e o Partido Democrata ainda escolhia entre Bernie Sanders e Joe Biden. 

Semanas depois, o início da pandemia mudou a situação. A crise de saúde deixou mais de 1,6 milhão de mortos no planeta e afetou de maneira dura a economia. 

Todos os governantes enfrentaram problemas de gestão, mas o fato de Trump se negar a reconhecer a gravidade da epidemia o deixou em uma situação particular. 

A segunda-feira 14 de dezembro foi uma data singular para a maior potência mundial, marcada por dois acontecimentos: o início da campanha de vacinação e anúncio de que o país superou a terrível marca de 300 mil mortes provocadas pela covid-19

Trump celebrou a primeira notícia no Twitter, mas não mencionou a segunda. 

"Menos cansativo"

Trump gostava de recordar a todo momento sua vitória em 2016, tanto à imprensa como aos rivais. "Estamos no Salão Oval. E sabe de uma coisa? Eu estou aqui e não vocês". 

A partir de de janeiro, ele não poderá repetir a frase. A sociedade americana, que continuará muito dividida, apesar dos apelos de reconciliação do próximo presidente, se prepara para viver com outro ritmo. 

"Com Joe (Biden) e (a vice-presidenta) Kamala (Harris), não terão que se preocupar com as loucuras que poderiam dizer a cada dia", afirmou o ex-presidente Barack Obama. "Será menos cansativo". /AFP

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