Tony Gentile/Reuters
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2/3 dos católicos americanos aprovam a criação de filhos por casais gays

Pesquisa aponta ainda que 84% das pessoas não veem problema se um homem ou mulher constituírem famílias fora do casamento

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 12h07

WASHINGTON - Quando desembarcar nos Estados Unidos no dia 22 de setembro, o Papa Francisco encontrará católicos distantes da doutrina da igreja quando no que se refere à organização familiar: dois terços consideram aceitável um casal de pessoas do mesmo sexo criar filhos e 84% não veem nenhum problema no fato de um homem e uma mulher constituírem famílias fora do casamento. 

As conclusões são do Pew Research, um dos mais respeitados institutos de pesquisa do país, que traçou um perfil dos católicos americanos a partir de entrevistas realizadas em maio e junho. Apesar de apenas 20% da população dos EUA se declarar seguidora da religião, um total de 45% têm alguma forma de conexão com a igreja de Roma. “Os Estados Unidos são uma nação de pessoas cujos laços com o catolicismo são profundos e amplos”, diz o estudo.

A pesquisa mostra que os seguidores da igreja são mais abertos que os protestantes em relação à coabitação romântica entre pessoas do mesmo sexo: 70% consideram esse tipo de relacionamento aceitável, incluindo 46% que o classificam como tão bom quanto qualquer outro estilo de vida. Entre os protestantes, a aceitação é de 53%. O percentual cai para 41% entre os evangélicos brancos.

Mas os católicos estão divididos em relação ao reconhecimento de matrimônios gays pela igreja: 46% defendem a mudança e 46% se opõem a ela.

O papa chega aos EUA quase três meses depois de a Suprema Corte ter legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país. Um dos principais eventos da visita será o Encontro Mundial das Famílias, que o Vaticano promove desde 1994 e que ocorrerá pela primeira vez nos EUA.

O lema da edição 2015 é “Amor é a nossa missão: a família plenamente viva”. A ênfase na forma tradicional de organização familiar é distante da experiência de muitos americanos. Segundo o levantamento do Pew Research, 25% dos católicos do país passaram por um divórcio e quatro em cada dez viveram em algum momento de suas vidas com um parceiro fora do casamento.

A desconexão alimenta um forte desejo de que a igreja mude elementos de sua doutrina. Na opinião de 76% dos entrevistados, o veto ao uso de métodos contraceptivos deveria acabar. Divorciados devem ter permissão para casar de novo e receber comunhão, na avaliação de 62%. Percentual idêntico defende o fim do celibato para padres e a possibilidade de que eles se casem. Outros 59% são favoráveis à ordenação de mulheres.

Os EUA têm a quarta maior população católica do mundo, atrás de Brasil, México e Filipinas. Apesar de minoritária, a igreja é a que reúne o maior número de americanos, já que os protestantes e evangélicos estão atomizados em diferentes denominações.

Além dos 20% que se declaram católicos, o Pew Research identificou outros três grupos que possuem ligações com a igreja: os chamados “católicos culturais” (9%), os ex-católicos (9%) e os que possuem um familiar católico (8%). Os “católicos culturais” disseram que não professam a religião, mas se identificam com ela de alguma maneira e eventualmente vão à missa.

Os latinos são o grupo populacional que possui a mais profunda ligação com o catolicismo. Um universo de 45% diz professar a fé. Outros 13% são “católicos culturais”, 18% são ex-católicos e 8% têm familiares que praticam a religião.

Algumas das prioridades do papa Francisco encontram mais ressonância entre católicos democratas do que entre os republicanos. Para 40% dos primeiros, trabalhar para combater a mudança climática é um elemento fundamental do catolicismo. Entre os conservadores americanos, o percentual cai para 13%. Em junho, o papa publicou a encíclica Laudato Si, no qual conclama seus seguidores a atuar para conter o aquecimento global.

Para 65% dos democratas, trabalhar para ajudar os pobres e necessitados é parte essencial da identidade católica. O percentual cai para 56% entre os republicanos. Os dois grupos também se diferenciam na oposição ao aborto. Para 42% dos conservadores, a postura é necessária à prática da religião. Entre os democratas, o índice é de 30%.

Nesta terça-feira, o papa anunciou que todos os padres poderão absolver mulheres do “pecado do aborto” no Ano Sagrado da Misericórdia, que começa no dia 8 de dezembro e termina no dia 20 de novembro de 2016. Para obter a absolvição, as católicas deverão demonstrar arrependimento. Em nota depois do anúncio do papa, o Vaticano deixou claro que a postura da igreja não mudou: “o perdão do pecado do aborto não significa aceitação do aborto nem minimiza seus graves efeitos”.

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