235 presos em repressão da polícia chilena a estudantes

A tropa de choque da polícia de Santiago usou canhões d''água e bombas de gás lacrimogêneo para reprimir milhares de estudantes que saíram às ruas nesta quinta-feira para exigir a melhora do sistema de ensino no Chile. Pelo menos 235 pessoas foram detidas pelas forças de segurança e dois policiais ficaram feridos, informaram autoridades locais.

Agência Estado

04 de agosto de 2011 | 18h30

Estudantes do ensino médio protestaram pela manhã e os universitários saíram às ruas pela tarde, mas ambos os grupos foram impedidos tanto de seguir rumo ao Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, quanto de se reunir na Praça Itália. A polícia destacou cerca de 1.300 homens para reprimir os estudantes.

Diversas estações de metrô permaneceram fechadas e o transporte público sofria interrupções temporárias. Em alguns pontos do centro da cidade o ar era irrespirável.

"Usaram gases que não haviam sido usados antes. Creio que o governo cometeu um erro grave ao tentar esvaziar ou tornar invisível a manifestação, Desse jeito, o povo vai continuar protestando com mais força porque o descontentamento é grande", declarou Camila Vallejos, uma porta-voz dos estudantes universitários.

Ontem, quando agremiações de estudantes confirmaram a marcha, o ministro chileno de Interior, Rodrigo Hinzpeter, e outros funcionários disseram considerar o protesto "ilegal" e anteciparam que haveria repressão. "Tudo tem limite", disse o presidente do Chile, Sebastián Piñera, na quarta-feira. Mas os estudantes foram para a manifestação mesmo assim.

Os estudantes, que exigem mudanças no desigual e subfinanciado sistema público de educação do Chile, montaram barricadas e queimaram pneus em diversos pontos da capital do país sul-americano. Enquanto a maior parte protestava pacificamente, alguns manifestantes mascarados atiraram pedras em carros da polícia e ônibus que passavam perto de onde estava.

"Parece um estado de sítio. Imagino que deve ter sido parecido com o que acontecia 30 anos atrás", comparou Camila Vallejos. "Nem ao menos o direito de reunião em lugares públicos está garantido", denunciou.

Estudantes, professores e outros profissionais da educação participaram em massa dos protestos do últimos dois meses pela melhora no sistema educacional, em alguns casos chegando a reunir cerca de 100.000 pessoas. Em meio ao movimento, um grupo de estudantes iniciou uma greve de fome. Eles contam atualmente com 33 adesões.

Os estudantes exigem que o governo destine mais recursos para financiar a educação e querem mudanças fundamentais em um sistema imposto durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que deixa as escolas públicas à mercê de governos locais deficitários.

Na segunda-feira, o conservador Piñera apresentou uma proposta de reforma do sistema educacional, mas optou por limitar o debate a governo e Parlamento, excluindo da discussão os estudantes e os professores. Entre outros pontos, Piñera propôs elevar gradualmente a verba para a educação e transferir a responsabilidade pelo ensino para o governo federal.

No entanto, a proposta de Piñera não abrange uma exigência fundamental do estudantes: obrigar as universidades particulares a reinvestirem uma parcela maior de suas receitas, uma vez que a legislação chilena as considera instituições sem fins lucrativos.

A oposição a Piñera não aceitou participar do diálogo entre governo e parlamentares e os estudantes prometeram retomar os protestos por considerarem insuficiente a proposta oficial.

O governo, diante disso, ameaça apresentar a proposta de Piñera ao Congresso mesmo sem o apoio dos estudantes e da oposição. O resultado de tal desdobramento é imprevisível, uma vez que o governo de centro-direita conta com uma tênue maioria na Câmara dos Deputados e a oposição de centro-esquerda controla o Senado.

Piñera é o presidente mais impopular desde redemocratização do Chile - Apenas 26% dos chilenos aprovam o trabalho de seu presidente, Sebastián Piñera, revela a mais recente edição de uma pesquisa mensal de popularidade. Trata-se de uma nova mínima na popularidade de Piñera e do mais baixo nível já registrado por um presidente no Chile desde a redemocratização do país, duas décadas atrás. A sondagem do Centro de Estudos Públicos mostra que a desaprovação do trabalho alcança 53%.

A popularidade de Piñera caiu 20 pontos porcentuais em relação aos meses de novembro e dezembro do ano passado, quando sua imagem era beneficiada pelo êxito do resgate de 33 mineiros que passaram meses presos em uma mina de ouro e cobre no norte do Chile.

O Centro de Estudos Públicos entrevistou 1.554 pessoas em todo o Chile. A margem de erro é de três pontos porcentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi realizada entre o fim de junho e o fim de julho e a queda coincide com a mobilização estudantil. As informações são da Associated Press.

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