25 dias que mudaram o mundo: Como a covid-19 escapou do controle da China

25 dias que mudaram o mundo: Como a covid-19 escapou do controle da China

Investigação mostra como a política asfixiou a ciência em uma tensão que definiria a pandemia no país e no mundo

The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

O médico mais famoso da China tinha uma missão urgente a empreender. Celebrado como o herói que ajudou a descobrir a epidemia da síndrome respiratória aguda, SARS, há 17 anos,  Zhong Nanshan, atualmente com 84 anos, recebeu a ordem de pegar um avião e ir para Wuhan, uma cidade na China central, a fim de investigar um novo e estranho coronavírus

A história oficial da China hoje define a viagem de Zhong como a guinada cinematográfica de uma guerra que se encerrou com um triunfo contra a covid-19, ao descobrir que o vírus estava se alastrando perigosamente. Quatro dias mais tarde, no dia 23 de janeiro, o líder chinês Xi Jinping, fechou Wuhan. O fechamento foi o primeiro passo decisivo para salvar a China. Mas em uma pandemia que, desde então, levou mais de 1,7 milhão de vidas, sua decisão chegou tarde demais e não conseguiu impedir que o vírus se estendesse ao resto do mundo.

O primeiro alarme havia sido dado na realidade 25 dias antes, no dia 30 de dezembro. Antes disso, porém, médicos e cientistas chineses pressionavam para obter respostas, enquanto as autoridades em Wuhan e Pequim escondiam as dimensões do contágio ou se recusavam a atender aos avisos.

A política asfixiou a ciência, em uma tensão que definiria a pandemia. A demora da China para dar a resposta inicial desencadeou o vírus no mundo todo prefigurando as batalhas entre cientistas e líderes políticos a respeito de transparência, saúde pública e economia que se desenrolariam em todos os continentes.

Este artigo – elaborado a partir de documentos do governo chinês, fontes internas, entrevistas, trabalhos de pesquisa e livros, além dos testemunhos públicos negligenciados ou censurados – examina os 25 dias na China que mudaram o mundo.

Cientistas e laboratórios privados chineses identificaram o coronavírus e mapearam os seus genes semanas antes que Pequim reconhecesse a gravidade do problema. Os cientistas conversaram com seus pares, tentando reforçar alarmes – e em alguns casos, o fizeram, embora com um preço. “Nós também falamos a verdade”, disse o professor Zhang Yongzhen, um dos principais virologistas em Xangai. “Mas ninguém nos deu ouvidos, e isso é realmente trágico”. 

Quando as hostilidades políticas explodiram entre a China e os Estados Unidos, os cientistas de ambas as partes ainda contavam com as redes globais criadas ao longo de dezenas de anos e procuraram compartilhar informações. Os principais cientistas reconheceram logo que o vírus provavelmente se espalharia por contágio entre os seres humanos.

No dia 8 de janeiro, o diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da China, George Gao, se emocionou ao admitir o perigo em um telefonema com o seu colega americano, Peter Redfield, segundo duas pessoas a par do relato de Redfield sobre o telefonema.

No entanto, nem Redfield nem Gao, cada um deles imobilizado por razões políticas, assinalaram a necessidade de um alarme público. Em Pequim, as autoridades da área de saúde haviam recebido relatórios sinistros dos médicos de Wuhan e enviaram dois especialistas para investigar. Entretanto, eles não tinham prestígio suficiente para desafiar as autoridades de Wuhan, e não abriram a boca em público. 

Até certo ponto, a viagem de Zhong a Wuhan não foi tanto profissional quanto política. Ele já sabia que o vírus estava se alastrando entre as pessoas; o seu objetivo real era quebrar o impasse no obscuro sistema de governo chinês. A China acabou assumindo o controle, tanto do vírus quanto do que se falaria a seu respeito. 

Diplomatas chineses afirmam que o que se sabe do país em matéria de abafar as infecções depois do fechamento de Wuhan acabou justificando a política do punho de ferro de Xi. Neste momento, o governo está retocando os acontecimentos das primeiras semanas, quando uma ação decisiva poderia ter contido a epidemia. Um dos primeiros estudos projetou que a China poderia ter reduzido o total de casos em 66% se as autoridades tivessem agido uma semana antes. Se agissem três semanas antes, o número de casos poderia ter caído em 95%.

A relutância da China a mostrar-se transparente a respeito daquelas semanas iniciais também deixou hiatos enormes no que o mundo conhece a respeito do coronavírus. Os cientistas não têm muito conhecimento sobre a origem do vírus e sobre as maneiras como se manifestou, em parte porque Pequim adiou uma investigação independente das origens animais do surto.

‘Todo mundo viu na internet'

No dia 30 de dezembro, depois que os médicos de Wuhan tomaram conhecimento de pacientes com uma misteriosa pneumonia difícil de tratar, as autoridades da cidade ordenaram que os hospitais relatassem a existência de casos semelhantes. Em geral, os hospitais deveriam também relatar diretamente  ao centro de controle e prevenção em Pequim. Não o fizeram. 

Entretanto, mal haviam se passado 12 minutos após a emissão do aviso interno, e a informação já circulava no WeChat, a rede social que está em toda parte na China. Um segundo aviso interno mais tarde sobre o tratamento de pacientes também se espalhou online. Os rumores a respeito de um surto misterioso de pneumonia chegaram então ao conhecimento de Gao, o virologista que estudara em Oxford, diretor do CDC chinês. 

“Mas afinal, todo mundo não falava sobre isto na internet?”, disse Gao quando perguntaram como ele soubera dos casos em Wuhan. “Todo mundo viu na internet”. Tarde naquela noite, a Comissão Nacional de Saúde chinesa ordenou que os especialistas corressem a Wuhan pela manhã. Horas mais tarde, o serviço de informações médico ProMED emitiu um boletim para os profissionais de saúde em todo o globo, incluindo a Organização Mundial da Saúde. 

Em Wuhan, o surto parecia concentrado no Mercado de Peixes de Huanan. Uma semana antes, médicos locais haviam enviado fluidos dos pulmões de um trabalhador do mercado de 65 anos para a Vision Medicals, um empresa genômica no sul da China. Lá foi encontrado um coronavírus mais ou menos semelhante ao da SARS. Logo em seguida, mais dois laboratórios comerciais chegaram à mesma conclusão. Ninguém ousou ir a público. 

A Vision Medicals enviou seus dados à Academia Chinesa de Ciências Médicas em Pequim e despachou um alto executivo para alertar a Comissão de Saúde de Wuhan. A equipe de Pequim que chegou a Wuhan no último dia de 2019 foi rapidamente informada a respeito dos resultados laboratoriais. 

A esta altura, o governo de Wuhan confirmava publicamente que os hospitais da cidade estavam lidando com uma pneumonia pouco comum, mas negaram que fosse potencialmente contagiosa.

Ao mesmo tempo, a Comissão Nacional de Saúde disse aos laboratórios comerciais que destruíssem ou entregassem as amostras com o vírus, e ordenou que as conclusões destas pesquisas só fossem divulgadas depois da aprovação oficial. O diretor da Comissão de Saúde de Guangdong, por ordem de Pequim, foi com uma equipe para a Vision Medicals para pegar sua amostra. 

A mais de 800 quilômetros no leste, Zhang, um dos principais virologistas do Centro Clínico de Saúde Pública de Xangai, estava muito preocupado. Assim como vários outros laboratórios chineses, Zhang e a sua equipe quebraram o código genético do vírus e concluíram que poderia ser contagioso. Ao contrário dos outros laboratórios, Zhang se sentiu no dever de divulgar a informação para ajudar os pesquisadores a trabalhar nos testes, tratamentos e vacinas.

Depois que a equipe de Zhang terminou o sequenciamento do vírus, no dia 5 de janeiro, o seu centro alertou os líderes em Xangai e as autoridades de saúde em Pequim, recomendando medidas de proteção em espaços públicos. Ele também se preparou para divulgar os dados, um passo que adquiriu maior urgência depois de visitar Wuhan para falar em uma universidade no dia 9 de janeiro. No mesmo dia, o governo confirmou que a nova doença era um coronavírus, mas continuou minimizando o seu perigo potencial. 

No dia 11 de janeiro, Zhang estava prestes a embarcar em um voo para Pequim quando recebeu um telefonema do seu parceiro de pesquisa de longa data, Edward Holmes, um virologista da Universidade de Sydney. Naquela altura, a China havia informado a sua primeira morte causada pelo vírus. Zhang já havia apresentado a sua sequência ao GenBank, uma vasta biblioteca online de dados genéticos. Holmes incentivou o amigo. “Observe o aumento dos casos em Wuhan,” ele falou.

Era uma decisão que somente Zhang podia tomar, afirmou Holmes. A divulgação dos dados corria o risco de as autoridades da saúde que estavam preocupadas em controlar as informações. “Eu o aconselhei a divulgá-los”, disse Zhang. E logo os dados estavam em um site de virologia. Cerca de duas horas e meia mais tarde, Zhang chegava em Pequim.

Quando ligou o celular, foi inundado por uma quantidade de mensagens. “Mostrá-los rapidamente era o único objetivo”, afirmou Holmes. “Nós sabíamos que poderia haver consequências”. 

Parceria interrompida

Redfield, o diretor dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos, era um velho amigo do colega chinês, Gao. Os dois cientistas haviam falado depois do alerta da ProMED, mas Gao insistira que o vírus só se espalhara de animais no mercado, e não de pessoa para pessoa.

Mas, no dia 8 de janeiro, Gao afirmou que o vírus havia infectado funcionários de hospitais e estava se espalhando entre seres humanos. Do ponto de vista político, a situação se tornara perigosa para ambos pesquisadores. 

Enquanto a sua guerra comercial com a China recrudescia, o governo de Donald Trump praticamente eliminou uma parceira na área de saúde pública com Pequim, iniciada depois do fracasso no caso da SARS, cuja finalidade era impedir uma possível pandemia. Ao sair, afirmam funcionários antigos e atuais da agência, Washington ficou excluído de qualquer informação sobre o vírus e perdeu a chance de colaborar com a China na batalha contra ele.

Durante a parceria, equipes de médicos americanos estavam trabalhando na China, onde ajudaram a treinar mais de 2.500 equipes chinesas na área de saúde pública. Outro programa americano no país - chamado Predict – tentou identificar perigosos patógenos em animais, particularmente o coronavírus, antes que pudessem passar para os seres humanos.

No entanto, em julho de 2019, sem qualquer explicação pública, os Estados Unidos retiraram o último médico americano da CDC chinesa. Um escritório separado da CDC americana em Pequim, havia fechado meses antes. O programa Predict também foi suspenso.

Um cão de guarda sem dentes

No papel, Ma Xiaowei, diretor da Comissão Nacional de Saúde da China, a pessoa mais poderosa da burocracia médica do país, dispunha de recursos formidáveis para deter o vírus em Wuhan. Na prática, ele estava de mãos atadas. Na hierarquia do Partido Comunista, ele estava à margem da elite.

Fora de Pequim, as autoridades do controle de doenças muitas vezes eram informados pelos supervisores locais, não por meio de Ma. Mas no dia 8 de janeiro, Ma despachou uma equipe a Wuhan. Alí, alguns funcionários afirmaram que há dias não estavam sendo detectados novos casos, e a nova equipe de Pequim não contestou publicamente esta avaliação. 

Ma estava ciente dos riscos crescentes. Um turista de Wuhan que visitava a Tailândia tornou-se o primeiro caso confirmado fora da China. No dia 14 de janeiro, a Comissão Nacional de Saúde convocou as autoridades médicas de todo o país para uma videoconferência – que na época foi mantida em segredo – na qual foram predispostas as precauções a serem tomadas contra o vírus.

Em seguida, a comissão enviou uma diretriz interna de 63 páginas avisando hospitais e centros de controle de doenças em toda a China sobre  como rastrear e deter o novo vírus – presumindo aparentemente que fosse contagioso.  Entretanto as instruções mantinham a questão fundamental. “Não havia nenhuma prova clara de transmissão de pessoa para pessoa entre os casos”, declarava uma parte.

Em meados de janeiro, Xi presidiu uma reunião das vinte principais autoridades do país. Nada foi mencionado a respeito do coronavírus, pelo menos nas atas da reunião naquela época e depois. No dia 18 de janeiro, Ma convocou Zhong para chefiar uma terceira delegação a Wuhan.

Lá, Zhong soube de antigos estudantes que “a situação atual em Hubei está muito pior do que se conhece ou do que a imprensa afirma”, ele falou a um jornal de Guangdong. Entretanto, as autoridades ainda insistiam que o surto era controlável quando o governador da província de Hubei, Wang Xiaodong, recebeu a equipe de Zhong em uma sala de conferência de um hotel. 

Finalmente, um dos funcionários admitiu que 15 trabalhadores da área de saúde em Wuhan provavelmente haviam sido infectados, em uma admissão da transmissão de pessoa para pessoa. Zhong só precisava disso, e sua equipe correu para Pequim. A visita deu a Ma, a principal autoridade de saúde, cobertura política para pressionar a alta cúpula do poder a fim de que se agisse urgentemente.  

Na manhã seguinte, Zhong foi para o complexo murado da liderança do Partido Comunista, Zhongnanhai. Xi se encontrava no sudoeste da China, e o primeiro-ministro Li Keqiang ouviu os especialistas afirmarem que o vírus estava se espalhando. Três dias mais tarde, a China confirmava 571 casos de coronavírus, embora os especialistas calculem que o número real era de milhares. Xi fechou Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes.

Reescrevendo a história

Onze dias depois, Xi enfrentava uma crise política. Na internet da China, as pessoas manifestavam-se enfurecidas com o caso de Li Wenliang, um médico de Wuhan que foi censurado pela polícia por tentar alertar os colegas para o coronavírus. 

Li agora se encontrava em uma unidade de terapia intensiva depois de contrair o vírus. Encorajados, os jornalistas chineses publicaram relatos alarmantes sobre a série de passos em falso e de mentiras nas semanas anteriores. Atacado, Xi defendeu sua atuação em uma reunião do Politburo, no dia 3 de fevereiro, afirmando que cuidava do caso desde o início. 

Os contágios e as mortes continuaram crescendo. No dia 7 de fevereiro, Li morreu. Na China e no exterior, indagava-se sobre a permanência de Xi no poder. Ansiosas por mostrar que Xi continuava no comando, as autoridades da propaganda divulgaram o discurso do líder no Politburo no início de fevereiro – mas isto suscitou ainda mais indagações.

Até então, os primeiros comentários de Xi de que se tem conhecimento a respeito da crise foram em 20 de janeiro. Mas em seu discurso, Xi afirmava que havia dado instruções internas a respeito do surto ainda no dia 7 de janeiro – antes que a China anunciasse oficialmente que a doença era um coronavírus.

Na internet da China, as pessoas perguntavam por que motivo não haviam sido alertadas mais cedo, considerando que a questão era suficientemente urgente a ponto de chegar à mesa de Xi. E por que as instruções precisas de Xi não foram dadas a público? Mas o discurso de Xi pressagiava o que viria a seguir – a revisão da história da crise enquanto ela se desenrolava.

“Devemos responder ativamente às preocupações internacionais”, disse Xi aos líderes, “e contar uma boa história sobre o combate da China contra a epidemia”. / Tradução de Anna Capovilla

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