REUTERS/Willy Kurniawan
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25 mil mortes não registradas: rastreando o verdadeiro número de vítimas do coronavírus

Maioria dos países registra apenas as mortes por covid-19 que ocorrem em hospitais

Jin Wu e Allison McCann / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 11h25

Pelo menos 25 mil pessoas a mais do que o total apontado nos relatórios oficiais da contagem de mortos por covid-19 morreram durante a pandemia de coronavírus no último mês, segundo uma revisão dos dados de mortalidade em 11 países - fornecendo uma imagem mais clara, porém, ainda incompleta, do número de vítimas dessa crise.

No último mês, morreram muito mais pessoas nesses países do que nos anos anteriores, de acordo com a pesquisa do The New York Times. O número total de mortos inclui mortes por covid-19, bem como por outras causas, provavelmente incluindo pessoas que não puderam ser tratadas devido aos hospitais estarem sobrecarregados.

Esses números enfraquecem a ideia de que muitas pessoas que morreram com o vírus iriam morrer em breve de qualquer maneira. Em Paris, mais que o dobro do número habitual de pessoas morre todos os dias, muito mais do que o pico de uma estação de gripe ruim. Na cidade de Nova York, o número agora é quatro vezes maior que a quantidade normal.

Obviamente, os dados de mortalidade no meio de uma pandemia  não são perfeitos. As disparidades entre a contagem oficial de mortes e o aumento total de mortes muito provavelmente refletem mais o número limitado de pessoas testadas do que uma subnotificação intencional. Oficialmente, cerca de 165 mil pessoas morreram por conta do coronavírus em todo o mundo até terça-feira.

Mas o número total de mortes oferece um retrato mais completo da pandemia, dizem os especialistas, especialmente porque a maioria dos países registra apenas as mortes por covid-19 que ocorrem em hospitais.

"Qualquer número relatado em um determinado dia será uma subestimação grosseira", disse Tim Riffe, demógrafo do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, na Alemanha. "Em muitos lugares, a pandemia já existe há tempo suficiente para que haja tempo hábil para o registro tardio de óbitos, dando-nos uma imagem mais precisa do que realmente era a mortalidade".

As diferenças são particularmente acentuadas em países que demoraram a reconhecer a extensão do problema. Istambul, por exemplo, registrou cerca de 2.100 mortes a mais do que o esperado entre 9 de março e 12 de abril -   aproximadamente o dobro do número de mortes por coronavírus relatadas pelo governo turco para o país inteiro naquele período. O aumento de mortes em meados de março sugere que muitas pessoas que morreram foram infectadas em fevereiro, semanas antes de a Turquia reconhecer oficialmente seu primeiro caso.

Em março, o governo indonésio atribuiu 84 mortes ao coronavírus em Jacarta. Mas mais de mil pessoas acima do número habitual foram enterradas nos cemitérios de Jacarta naquele mês, segundo dados do Departamento de Parques e Cemitérios da cidade. (Os dados foram noticiados primeiro pela Reuters.)

O New York Times estimou o excesso de mortalidade de cada país comparando o número de pessoas que morreram devido a todas as causas este ano com a média histórica durante o mesmo período.

Em muitos países europeus, dados recentes mostram que 20% a 30% mais pessoas estão morrendo do que o normal. Isso se traduz em dezenas de milhares de outras mortes.

Os desvios dos padrões normais de mortes foram confirmados em muitos países europeus, de acordo com dados divulgados pelo Projeto Europeu de Monitoramento de Mortalidade, um grupo de pesquisa que coleta dados semanais de mortalidade de 24 países europeus.

É incomum que os dados sobre mortalidade sejam divulgados tão rapidamente, dizem os demógrafos, mas muitos países estão trabalhando para fornecer informações mais abrangentes e oportunas devido à urgência do surto de coronavírus. Os dados são limitados e as mortes em excesso são subestimadas porque nem todas foram relatadas.

"Nesta fase, trata-se de uma fotografia parcial [da situação]", disse Patrick Gerland, um demógrafo das Nações Unidas. "É uma visão do problema que reflete o lado mais agudo da situação, principalmente por meio do sistema hospitalar".

É provável que isso mude. "Nos próximos meses", disse Gerland, "uma imagem muito mais clara [da situação] será possível."

A discriminação por idade nos dados de mortalidade pode fornecer uma imagem ainda mais clara do papel da covid-19 no excesso de mortes. Na Suécia, por exemplo, uma alta taxa de mortalidade entre homens com 80 anos ou mais foi responsável pelo maior aumento de mortes, sugerindo que os números gerais subestimam a gravidade do surto, principalmente para os idosos.

Mesmo levando em conta os novos números, especialistas dizem que o número de mortos até o momento poderia ter sido muito pior.

"O aumento atual da mortalidade por todas as causas ocorre sob condições extraordinárias, como distanciamento social, confinamentos, fronteiras fechadas e aumento da assistência médica, pelo menos algumas delas têm impactos positivos", disse Vladimir Shkolnikov, demógrafo do Instituto Max Planck para Pesquisa Demográfica. "É provável que, sem essas medidas, o número atual de mortes fosse ainda maior." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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