250 mil mortos depois, tutsis e hutus fazem a paz

Depois de uma longa guerra civil que custou cerca de 250 mil vidas, a guerra parece próxima do fim com a formação de um novo governo acertado entre os dois principais grupos étnicos do Burundi, os tutsis e os hutus. O novo governo burundinês, que assumiu nesta quinta-feira, nasceu de uma longa e difícil mediação conduzida pelo ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. O acordo alcançado prevê no poder executivo uma coalizão integrada pela minoria tutsi - de fato, sempre no poder desde a independência, em 1962 - e a maioria hutu. Durante os primeiros 18 meses, o titular será um tutsi, e o vice, um hutu - posição que se inverterá no ano e meio seguinte. Com este peculiar plano "made in Africa", como foi definido, espera-se pôr fim à guerra civil étnica que castigou o país nos últimos oito anos e que, além da enorme quantidade de mortos, provocou no país uma pavorosa crise humanitária, praticamente ignorada pelo Ocidente. Mas sobre o acordo - que será controlado por um contingente de 700 soldados sul-africanos, dos quais 300 já estão em seus postos - pesa o "não" dos dois principais grupos rebeldes armados hutus: a Frente de Libertação Nacional (FLN) e as Forças para a Defesa Democrática (FDD). Ao plano também se opõem os extremistas tutsis, que em duas ocasiões tentaram golpes de Estado. Para surpresa geral, no entanto, nesta quinta-feira os dois grupos extremistas hutus anunciaram disposição de dialogar com o novo governo, uma alternativa que antes haviam rejeitado integralmente. A informação foi divulgada pelo próprio Mandela em Bujumbura, a capital burundinesa, onde, ao lado de outros chefes de Estado africanos, participou da cerimônia de posse do novo governo. O apoio das Nações Unidas é apenas político, porque a entidade não quer prover a proteção militar de seus capacetes azuis, apesar de ter recebido vários pedidos nesse sentido. O atual presidente, Pierre Buyoya, um tutsi que esteve à frente do governo entre 1986 e 1993 e, logo após um golpe, desde 1996, dirigirá o novo governo. O vice é Domitien Ndayzeye, secretário-geral da Frente para a Democracia no Burundi (FRODEBU), o principal partido hutu moderado, cujo líder histórico é Jean Minani - que aprovou a mediação de Mandela e regressou à pátria no domingo, após um longo exílio, manifestando otimismo aos que se encontraram com ele. Quanto aos demais postos governamentais, 12 serão preenchidos por tutsis - entre eles as pastas de Relações Exteriores, Defesa e Finanças - e 14 pelos hutus, entre eles a do Interior e a de Segurança Nacional. Mandela, ao anunciar formalmente o final de sua missão como mediador - embora ressaltando que será o "garantidor moral do acordo de paz"- , disse: "Celebramos um triunfo, ainda que haja muito por fazer, até que o processo de paz seja definitivo".

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