Reuters - 24/2/2022
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3ª Guerra Mundial ou conflito local? Guerra na Ucrânia já traz custos econômicos e geopolíticos

Envolvimento de outras potências, risco de altercação nuclear e anexação de território são hipóteses que não podem ser descartadas

Carolina Marins e Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 13h51

A invasão russa da Ucrânia, iniciada na última quinta-feira, 24, é o conflito mais sério das últimas décadas e ainda tem potencial de escalada, disseram analistas ouvidos pelo Estadão. O envolvimento de outras potências, o risco de altercação nuclear e uma possível anexação do país à Rússia são hipóteses que não podem ser descartadas. Já uma solução por vias diplomáticas poderia levar meses para ser alcançada – a não ser que Kiev esteja disposta a fazer muitas concessões.

A invasão deixou mais de 2.000 civis mortos - e milhares de feridos, muitos deles civis, de acordo com dados do governo ucraniano. O número de mortos civis divulgado pelo serviço de emergência da Ucrânia representa um salto frente aos 136 confirmados pela ONU no dia anterior. A Rússia registra mais de 500 soldados mortos.  

Tropas russas enfrentam soldados e civis ucranianos em áreas urbanas, com bombardeios sendo registrados em zonas residenciais de grandes cidades como Kharkiv e Kiev,aumentando a letalidade da guerra. Estima-se que ao menos 150 mil soldados russos estejam em território ucraniano. Mais de um milhão de pessoas já fugiram da Ucrânia.

“A invasão é mais séria do que muitos esperavam nas últimas semanas. Um cenário potencial era que as tropas russas parassem nas regiões separatistas de Donetsk e Luhansk, mas isso não aconteceu”, afirma a cientista política Carla Martinez Machain, da Universidade do Estado do Kansas, que pesquisa política externa com foco em política militar e conflito internacional.

“Em vez disso, as forças russas terrestres seguiram para a capital, Kiev, deixando claro que a Rússia busca mais – provavelmente uma mudança de regime, substituindo Zelenski por um governo fantoche pró-Rússia, ou até uma potencial anexação da Ucrânia ou de parte do seu território.”

Potências ocidentais trabalham com a possibilidade de que Kiev caia nos próximos dias, mas a resistência dos ucranianos – que entraram em um “vale tudo” que inclui brigadas civis, fabricação de coquetéis molotov e alistamento de menores de idade  – pode prolongar o conflito e aumentar o número de baixas. 

Uma nova guerra global?

Para Martinez Machain, o conflito tem muito potencial para se tornar uma guerra global. “Se um aliado da Otan for atacado, isso provavelmente levará o resto dos aliados da Otan ao conflito”, afirma. Ela ressalta, no entanto, que este passo ousado de Putin traria implicações muito complexas para Moscou. “Atacar um aliado da Otan desencadearia o Artigo 5 da Aliança, que observa que um ataque contra um é um ataque contra todos”, explica.”Haveria uma guerra de grandes potências, potencialmente nuclear, entre a Rússia e a Otan.”

O conflito não se encerra em Rússia e Ucrânia. Além dos Estados Unidos, que lideram a Otan, outras nações acabaram envolvidas indiretamente no confronto.

A França – um dos membros da Otan – é um exemplo. O país se envolveu em uma troca de farpas com a Rússia na semana passada, quando o presidente russo, Vladimir Putin, se gabou da potência nuclear do país. A provocação não passou batida. “Putin tem que entender que a Otan é uma aliança nuclear”, disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, em entrevista à TV francesa.

Nesta segunda-feira, um novo atrito. “Hoje, algum ministro francês disse que eles declararam uma guerra econômica à Rússia. Cuidado com a língua, senhores! Não se esqueçam que, na história humana, as guerras econômicas muitas vezes se tornaram reais”, escreveu o vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa, Dmitri Medvedev, em sua conta oficial no Twitter.

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Finlândia e Suécia também acabaram sendo trazidas à mesa do conflito, com a Rússia ameaçando “sérias consequências” caso os países entrem na Otan. “É evidente que a entrada de Finlândia e Suécia na Otan, que é um bloco militar, teria sérias consequências político-militares, que exigiram uma resposta do nosso país", afirmou em entrevista coletiva a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova. Os dois países, no entanto, não pareceram se preocupar muito com o alerta.

Mas o envolvimento direto – e militar – de outras grandes potências no conflito não é uma realidade, ao menos ainda. Mesmo a China, a mais poderosa aliada de Moscou, que havia prometido uma “cooperação sem limites” com a Rússia às vésperas da invasão, parece tentar se distanciar do confronto. Oficiais chineses culparam os Estados Unidos pela crise, mas o país se absteve de votar na resolução do Conselho de Segurança da ONU que denunciava a invasão russa, fazendo com que Moscou precisasse vetá-la sozinha. 

Uma guerra que precisa ser vencida

O pesquisador de diplomacia europeia do Centre for European Policy Research (CEPS) Zach Paikin considera que a crise atual é a mais significativa desde o fim da Segunda Guerra, em 1945. “Estamos lidando com uma guerra entre Estados na Europa. Nós já tivemos outras, como Azerbaijão e Armênia em 2020, mas eram dois Estados pequenos. Aqui estamos falando de uma guerra entre Estados que envolve o maior Estado da Europa, com capacidades nucleares, isso é muito perigoso”, diz. “Traz riscos significantes para a segurança da região, não só em termos de refugiados ou de envolver poderes externos, mas em termos da capacidade que esse conflito tem de escalar.”

Na semana passada, Putin soou alarmes ao colocar as forças de dissuasão nuclear russas em alerta máximo. Na prática, a medida coloca as armas nucleares da Rússia em prontidão de lançamento, gerando temores de que a invasão possa escalar para  um conflito nuclear. Até o momento, não há indicativos de que Putin tenha planos concretos de utilizá-las, mas o movimento mostra a disposição do líder russo de pressionar seus adversários. 

“Não sou um expert em questões nucleares, então não posso dizer exatamente o que isso significa, mas posso te dizer que, para a Rússia, esta é uma guerra que precisa ser vencida. A Rússia precisa vencer. Falhar nisso, em convencer a Ucrânia a adotar uma posição neutra, seria um desastre para Moscou e um desastre particular para Putin”, afirma Paikin. “Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais visível que a sobrevivência do Estado da Rússia está ligada à sobrevivência de Putin. O futuro de sua presidência e da segurança do Estado russo estão em jogo.”

Por isso, afirma Paikin, é possível que, cercado, Putin tome medidas mais drásticas e mais perigosas. “Não estou dizendo que a escalada para uma guerra nuclear, por exemplo, é provável, mas definitivamente não é uma chance zero. É algo que deve despertar muito cuidado no Ocidente”, diz. “O que preocupa é que o conflito pode durar mais do que esperamos e que o perigo cresce conforme caminhamos”. 

No último domingo, 27, o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, aceitou sentar-se à mesa de negociações com a Rússia. A reunião terminou sem avanços e Moscou e Kiev anunciaram uma 2.ª rodada, inicialmente marcada para esta quarta-feira, mas foi adiada para quinta, 3.

Paikin não vê uma solução diplomática a curto prazo. “A Rússia quer que a Ucrânia aceite o status neutro, reconheça ser parte da Rússia, além de talvez algumas mudanças constitucionais. E a Ucrânia não vai concordar com isso. Ainda mais agora que eles provaram ser capazes de resistir”, afirma. “Estou pessimista de que isso possa ser resolvido diplomaticamente em curto prazo. Não sou um estrategista, mas acho que há duas opções: o conflito pode acabar rápido, se for uma solução militar, ou pode levar meses, se for uma solução diplomática.”

Consequências

Mesmo sem o envolvimento de outros países, a guerra deve trazer consequências a curto, médio e longo prazo para todo o mundo. Elas podem ser econômicas (à medida que as sanções contra a Rússia forem impostas, devemos esperar preços mais altos do petróleo, do gás e dos grãos, lembra Martinez Machain) e sociais. “É provável que haja um grande influxo de refugiados ucranianos deslocados em países próximos, como Polônia e Moldávia. Isso sobrecarregará seus recursos e apresentará a possibilidade de uma crise humanitária”, diz a pesquisadora. Em uma semana de conflito, mas de meio milhão de refugiados já cruzaram a fronteira.

A longo prazo, acredita Martinez Machain, o fato de a Rússia ter violado uma norma internacional contra a agressão e as normas internacionais de integridade territorial pode tornar mais provável que essas normas sejam violadas novamente no futuro, especialmente se a Rússia for bem-sucedida em conseguir uma mudança de regime na Ucrânia ou em conquistar seu território.

O cenário geopolítico também deve ser transformado. “Há muita coisa que pode mudar. Esta não é a primeira vez que vemos uma guerra na Europa, mas é a guerra entre Estados mais significativa desde 1945”, diz Zach Paikin. “É cedo para dizer, mas já estamos vendo, por exemplo, a UE atuar como um ator coletivo enviando suprimentos para a Ucrânia, entre outras mudanças em termos geopolíticos”, afirma. “Se a Rússia perder, provavelmente isso vai trazer grandes mudanças à habilidade russa de definir normas na ordem internacional. Ao contrário, se a Rússia vencer, ela vai impor limites ao Ocidente.”

 

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