Antonio Parrinello / Reuters
Antonio Parrinello / Reuters

300 imigrantes estão desaparecidos na costa do Mar Mediterrâneo

Segundo a porta-voz da Acnur na Itália, Carlotta Sami, vítimas foram engolidas pelas ondas; 29 pessoas morreram no começo da semana

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

11 de fevereiro de 2015 | 09h13

PARIS - Pelo menos 300 imigrantes que tentavam chegar à Europa por via marítima estão desaparecidos desde a noite de domingo no Mar Mediterrâneo. A informação foi confirmada na manhã de hoje pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (HCR). Quatro botes infláveis que eram utilizados pelos imigrantes teriam virado nas águas geladas, reduzindo as chances de que haja sobreviventes. O acidente gera críticas contra a União Europeia, que assumiu as operações de vigilância no mar, reduzindo sua extensão a partir de novembro de 2014.

O grupo de imigrantes teria deixado a costa da Líbia, país em guerra civil, na noite de domingo, valendo-se de botes impróprios para a travessia marítima. Segundo a porta-voz da HCR, Carlotta Sami, nove sobreviventes reportaram em um primeiro momento o desaparecimento de 203 pessoas, mas o número foi atualizado para "mais de 300", o que ela classificou de "uma tragédia enorme e terrível".

De acordo com as autoridades europeias, os primeiros alertas de desaparecimento chegaram às autoridades costeiras no domingo à noite, quando uma tempestade atingia o Mediterrâneo com ventos de 120km/h, causando ondas de oito metros de altura - condições insustentáveis para a travessia em botes. O socorro foi ainda mais difícil porque no momento nenhum navio comercial cruzava a região, e as duas embarcações da Operação Triton, da Agência Europeia de Fronteiras Exteriores (Frontex), que realiza o patrulhamento da região, estavam em reabastecimento nas ilhas de Malta e Sicília.

As primeiras embarcações de socorro chegaram à região do desaparecimento só seis horas após o alerta de naufrágio. Em um dos botes localizados, havia sete corpos. No retorno, um total de 29 cadáveres foram resgatados do mar. Os sobreviventes localizados foram transportados na proa, sob frio e vento, condições de tratamento denunciadas pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Em razão do novo desastre no Mar Mediterrâneo, organizações não-governamentais de auxílio aos imigrantes na Europa denunciaram a postura das autoridades da União Europeia, que em 1º de novembro de 2014 puseram fim à operação Mare Nostrum, comandada pela Guarda Costeira da Itália, substituindo-a pela operação Triton. 

A alteração implicou a redução drástica da área vigiada pela marinha, que até então ia até o limite das águas territoriais da Líbia. Enquanto Mare Nostrum era realizada a até 318 quilômetros de distância das costas europeias, incluindo as ilhas de Lampeduza e Malta, Triton, a operação em vigor, limita-se a 55 quilômetros da costa, área que não inclui as duas ilhas mediterrâneas - dois dos destinos mais visados pelos imigrantes ilegais. O orçamento das operações também caiu de € 120 milhões por ano para € 90 milhões.

Desde então, um acidente já havia acontecido em 9 de fevereiro, quando 29 jovens entre 18 e 25 anos originários de países da África subsaariana morreram de hipotermia durante uma travessia. 
ONGs como Anistia Internacional acusam a Europa de ter reduzido intencionalmente a área de socorro, substituindo uma operação de caráter humanitário por outra de perfil policial. 

Pelo Twitter, a presidente da Câmara dos Deputados da Itália, Laura Boldrini, ex-porta-voz da agência para Refugiados das Nações Unidas, criticou o fim da operação Mare Nostrum. "Horror ao largo de Lampedusa", escreveu. "Pessoas morreram não pelo naufrágio, mas pelo frio. Eis as consequências do pós-Mare Nostrum."

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