40 anos após golpe, chilenos exigem melhorias sociais

O golpe militar que derrubou o governo socialista de Salvador Allende e instituiu a ditadura do general Augusto Pinochet completa 40 anos na quarta-feira em meio a uma onda de protestos pedindo por melhorias sociais.

Agência Estado

10 de setembro de 2013 | 02h36

Agora, uma socialista deve assumir novamente o poder. Enquanto isso, uma geração nascida nos anos 1990, após o retorno do país à democracia, toma as ruas para exigir uma série de demandas sociais que Allende prometia.

"Quarenta anos depois, ele é mais mencionado do que nunca pelos jovens, que inundam as ruas pedindo por educação livre e de qualidade", diz sua filha, a senadora Isabel Allende.

As revoltas do Chile se concentram contra um sistema universitário caro, instalado durante o regime militar de Pinochet, e contra uma grande diferença entre ricos e pobres, que emergiu das políticas econômicas de livre mercado. "Muitos dos problemas que nos afetam hoje têm sua origem nesse terrível período de nossa história", afirma Camila Vallejo, uma ex-líder de protestos e agora candidata ao Congresso pelo Partido Comunista.

Allende foi o primeiro líder marxista eleito nas Américas, em 1970, ao vencer uma eleição com 36% dos votos e tendo diante de si um Congresso hostil. Após assumir, o presidente deu início ao que chamava de "o caminho chileno para o socialismo", ao nacionalizar a indústria de cobre e usar o dinheiro para redistribuir terras, alfabetizar a população e melhorar os sistemas de saúde e educação.

Mesmo assim, o golpe de 11 de setembro de 1973 foi apoiado por muitos chilenos. Isso porque a inflação chegou a 500% em um ano, e a população mostrava descontentamento contra desabastecimentos crônicos e tomadas de fábricas pelo governo. A chegada de Pinochet ao poder derrubou uma das democracias mais fortes da América do Sul.

Pinochet, morto em 2006, fechou o Congresso, condenou partidos políticos à ilegalidade e enviou forças de segurança para agrupar e matar dissidentes suspeitos. A lista de pessoas mortas, torturadas ou aprisionadas por razões políticas durante o regime militar chega a mais de 40 mil nomes. O governo estima que 3.095 foram mortos.

Após chegar ao poder, Pinochet desfez as reformas de Allende, ao privatizar escolas, pensões e o sistema de água. Ele também devolveu terras a antigos proprietários, cortou salários, retirou barreiras comerciais e encorajou as exportações, construindo um modelo de livre mercado apontado como responsável pelo rápido crescimento e pela estabilidade institucional do Chile.

Muitos dos governos de esquerda que subiram ao poder depois de Pinochet mantiveram o núcleo de seu sistema, e até mesmo a constituição. "O modelo econômico implantando sob o regime ditatorial foi legitimado por cinco governos democráticos consecutivos, liderados por presidentes que pessoalmente se opunham ao ditador Pinochet", observou o cientista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York.

Agora, a nova geração de chilenos está lembrando que há demandas mais importantes que a economia, como a educação gratuita, um sistema de saúde melhor e o sistema de pensões, pondera Patricio Fernandez, editor da revista semanal mais lida do Chile, The Clinic.

As eleições presidenciais no Chile estão marcadas para 17 de novembro. Segundo as pesquisas de intenção de voto, é provável que a ex-presidente Michelle Bachelet, do Partido Socialista, retorne ao poder. A candidata promete levar adiante as reformas mais amplas em quatro décadas.

A outra candidata com possibilidade de eleição, Evelyn Matthei, é uma amiga de infância cujo pai dirigiu uma escola militar onde o próprio pai de Bachelet, um general, foi torturado até a morte por se opor ao golpe. Fonte: Associated Press.

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