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40 anos da tomada da embaixada dos EUA no Irã: uma longa crise de reféns

Questão levou mais de 400 dias para ser resolvida e provocou a ruptura das relações entre os dois países

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2019 | 11h03

TEERÃ - O Irã celebra nesta segunda-feira, 4, o 40.º aniversário da tomada de reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã. A crise demorou 444 dias e provocou a ruptura das relações entre os dois países. O dia será marcado por diversas manifestações antiamericanas em várias cidades do país.

Em Teerã, milhares de pessoas se reuniram diante do prédio que abrigava a representação diplomática americana no centro da cidade. "Os EUA são como um escorpião com veneno mortal, que continua te importunando quando já está esmagado", disse o general de divisão Abdolrahim Musavi, comandante do Exército iraniano. 

"A única via para seguir avançando é manter o espírito revolucionário, com base na prudência e na obediência ao guia" supremo iraniano Ali Khamenei", completou o militar. Negociar com Washington seria o equivalente a aceitar a "submissão e a derrota", declarou, ao repetir as palavras do aiatolá.

Invasão da embaixada e tomada de reféns

No dia 4 de novembro de 1979, sete meses depois da proclamação da República Islâmica do Irã, entre 300 e 400 "estudantes islâmicos", que seguiam para um protesto em uma universidade, atacaram de maneira repentina a embaixada americana em Teerã.

Os participantes se apresentaram como "estudantes islâmicos seguindo o caminho do imã Khomeini" e exigiam a extradição do ex-xá Mohammad Reza Pahlavi, obrigado a abandonar o país em janeiro, após meses de manifestações, e que fazia tratamento médico nos EUA.

"Armados com pedaços de pau (...) os estudantes invadiram o consulado depois de três horas de resistência, período em que os marines usaram gás lacrimogêneo antes de serem tomados como reféns", relatou um jornalista que estava no local.

Os estudantes levaram os prisioneiros, com os olhos vendados e as mãos atadas, dos escritórios do consulado para outro ponto da embaixada. Mais de 60 americanos viraram reféns. Alguns foram liberados rapidamente, mas 52 foram submetidos a um longo tormento.

Bandeira em chamas

"Diante da embaixada, uma forca foi erguida e exibia uma placa com os dizeres 'Para o xá'. De um lado, uma bandeira americana queimava na frente de centenas de manifestantes que foram manifestar em apoio”, relatou o jornalista.

A bandeira dos EUA foi substituída por uma faixa branca com as palavras "Allahu Akbar" (“Alá é grande”, em árabe).

"Ao lado das grades fechadas com um cadeado, um homem com um alto-falante gritava frases antiamericanas, entre um verso do Alcorão e uma canção revolucionária. Policiais e guardas revolucionários estabeleceram vigilância diante de uma parede repleta de frases.”

Por trás do muro, estudantes barbudos, armados com pedaços de pau, e estudantes com véu e grandes retratos do aiatolá Khomeini caminhavam ao redor dos jardins da embaixada americana. "Pães e bandejas com sanduíches chegam até eles através das grades.”

Radicalização do regime

A tomada de reféns, aparentemente improvisada, reviveu de imediato o entusiasmo revolucionário que parecia ter diminuído. O sequestro foi usado pelo regime islâmico para acabar com o governo do primeiro-ministro Mehdi Bazargan, que poderia ter negociado com os EUA.

Aos gritos de "Marg bar Amrika" ("Morte aos Estados Unidos"), os iranianos expressavam apoio à ocupação da embaixada. No dia 6 de novembro, Bazargan renunciou, e o Conselho da Revolução, dominado por clérigos, tomou o controle do país.

O Irã se recusou a vender petróleo para os EUA. Em resposta, Washington decretou o embargo de bens de consumo e congelou as contas bancárias iranianas.

Em abril de 1980, o então presidente americano, Jimmy Carter, rompeu as relações diplomáticas entre os países e impôs um embargo comercial.

Fracasso da operação ‘Eagle Claw’

Em 25 de abril, uma tentativa das forças especiais americanas para libertar os reféns terminou em um desastre no deserto iraniano, perto de Tabas.

A operação “Eagle Claw” ("Garra de Águia") afundou em tempestades de areia e problemas mecânicos que provocaram seu cancelamento. Três helicópteros pararam de funcionar e um quarto caiu, matando oito soldados americanos. O aiatolá Khomeini considerou o incidente um castigo divino.

Os reféns foram espalhados imediatamente por várias cidades do Irã, incluindo a cidade sagrada de Qom, a 100 km de Teerã.

No dia 27 de julho, o ex-xá morreu no Cairo, depois de passar 18 meses no exílio. Os estudantes islamistas mantinham o controle da embaixada americana e afirmavam que os reféns seriam libertados apenas depois da devolução ao Irã dos bens de Pahlavi.

Fim da crise

Em setembro de 1980, o aiatolá Khomeini estabeleceu quatro condições para a libertação dos reféns: a devolução da propriedade do ex-xá, o desbloqueio dos ativos iranianos nos EUA, o cancelamento dos processos por danos contra o Irã por parte dos americanos e o respeito à não interferência nos assuntos iranianos.

Em 19 de janeiro de 1981, um acordo foi concluído entre Teerã e Washington, após mediação da Argélia. Um dia depois, na mesma data da posse de Ronald Reagan como presidente, os 52 reféns foram soltos.

A antiga representação americana, rebatizada como "ninho de espiões", foi transformada em um museu que exibe os "crimes" de Washington contra Teerã. / AFP

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