AFP PHOTO / Daniel LEAL-OLIVAS
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Depoimento: 'Todos sabiam que algo ocorria em Londres, após Paris e Berlim'

Correspondente da 'Agência Estado' estava no Palácio de Westminster no momento do atentado e relatou o clima no local

Célia Froufe CORRESPONDENTE / LONDRES, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2017 | 14h57
Atualizado 23 de março de 2017 | 12h14

LONDRES - Saí de casa às 7 horas da manhã. Durante o trajeto de trem e metrô, tentava antever o que aconteceria com um grupo de 24 jornalistas estrangeiros que vivem em Londres e foram convidados para um dia no Parlamento. Durante a manhã, o script correu como o programado: visita à Câmara dos Comuns (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira). Depois, à Câmara dos Lordes (semelhante ao Senado).

No almoço, o prato principal era carne bovina e tive a preocupação de checar a origem do animal, depois das últimas notícias vindas do Brasil. Alguns colegas da Rússia e do Japão entenderam a piada, mas o chefe do comitê de saída da União Europeia, Hon Hilaty Benn, sentado ao meu lado, não sabia sobre o que falávamos.

Após a refeição, uma conversa com um senador foi interrompida por uma jornalista da Turquia: “Lamento atrapalhar, mas a redação no meu país me informa que está ocorrendo um atentado aqui perto do Parlamento. Parece que é um tiroteio”. Eram quase 15 horas.

Não foi exatamente uma troca de tiros e ameaças de bomba não se confirmaram. O sentimento dos funcionários públicos do Parlamento era que “todos sabiam que alguma coisa ia ocorrer em Londres”, depois dos ataques na França e na Alemanha. “O governo só não sabia onde e como seria”, lamentou

uma servidora.

Da sala em que estávamos – os jornalistas e o staff do Parlamento destacado para nos receber –, fomos levados para um pátio interno. “O lugar mais seguro naquele momento”, avisaram. Tudo feito com muita tranquilidade, sem correria, com as pessoas acatando as orientações. No caminho, havia muitos policiais “armados até os dentes”. Tentei alguma informação: “Sem perguntas! Apenas ande!”. Obedeci.

Havia parlamentares no grupo, que a essa altura já atingia cerca de 200 pessoas. Entre elas, duas turmas escolares divertiam- se com os helicópteros que voavam baixo. Crianças começaram a cantar para passar o tempo. Havia cozinheiros, cadeirantes, estudantes, funcionários públicos e... mais jornalistas.

Após mais de uma hora parados no pátio, sem informação, eis que nos mandaram para o Westminster Hall. A essa altura, já éramos cerca de 500 pessoas. Parecia que aquilo já era comum para Londres. Ninguém gritava ou reclamava. Apenas ouviam-se conversas próximas entre colegas e amigos e um silêncio absoluto quando uma autoridade dava alguma nova orientação, sempre seguida à risca.

De lá, fomos encaminhados para a Abadia de Westminster, onde foram servidos água, café e cookies. No caminho, passamos por um corredor de policiais para que ninguém tentasse desviar do trajeto. As crianças e os idosos foram liberados. Então, o processo de saída começou, após o preenchimento de um formulário. Já eram quase 20 horas. Um policial disse que ficamos contidos para que se eliminasse o risco de um suspeito estar no grupo, e a polícia pediu que enviássemos fotos e vídeos que pudessem ajudar nas investigações.

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