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5.335 crianças mortas ou desaparecidas após tremor, diz China

Governo de Pequim restringe ação de repórteres; jornalistas trabalhando denunciam agressões e obstáculos

Agências internacionais,

07 de maio de 2009 | 08h12

Às vésperas do primeiro aniversário do terremoto que devastou a Província de Sichuan, na região central da China, e destruiu centenas de escolas, o governo finalmente anunciou nesta quinta-feira, 7, o primeiro número oficial de estudantes mortos ou desaparecidos: 5.335. Pequim começou a contagem horas depois do tremor de magnitude 7,9 no dia 12 de maio de 2008, mas recusou até agora a dizer quantas crianças e jovens estariam entre os cerca de 90 mil mortos ou desaparecidos. Outras 5 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.

 

Centenas de salas de aula desmoronaram enquanto os prédios construídos ao redor das escolas permaneceram intactos, transformando o incidente numa questão política. Oficialmente, 68.712 pessoas morreram por causa do abalo e 17.921 continuam desaparecidas, informou Huang Mingquan, chefe do Departamento de Assuntos Civis de Sichuan. Segundo a BBC, notícias veiculadas na época do terremoto estimavam o número de estudantes e professores mortos em nove mil. Levantamentos de fontes não oficiais calculam o número de crianças mortas está em torno de sete mil.

 

Os pais de vítimas ou desaparecidos afirmam que as escolas ruíram rapidamente por conta da corrupção e administração incompetente, que permitiram a construção de prédios frágeis e fora da legislação. O desabamento das escolas levantou a suspeita de que muitas haviam sido construídas com materiais de baixa qualidade. Ninguém foi responsabilizado ou punido. Oficiais, no entanto, culpam o poder do abalo sísmico pelo colapso dos prédios e dizem que compilar e confirmar o nome de todos os estudantes mortos é um processo complicado.

 

Muitos pais foram proibidos de retornar aos escombros dessas 14 mil escolas, segundo a ONGs de direitos humanos, Human Rights Watch, que acompanha o caso. O governo de Sichuan estima que 3.340 escolas terão que ser construídas na província e espera conseguir colocar 95% dos estudantes de volta às salas de aula antes do final do ano. Atualmente, muitas crianças da região ainda assistem a aulas em barracas e acampamentos improvisados.

 

Censura

 

O governo chinês está restringindo o acesso de jornalistas à área e criando obstáculos às famílias que tentam pedir na Justiça indenização pela morte de seus filhos. O Clube de Correspondentes Estrangeiros da China registrou desde 1º de abril seis casos de interferência no trabalho de repórteres enviados a Sichuan para fazer o balanço de um ano do terremoto. Quase todos envolveram alguma forma de agressão física aos jornalistas, ainda que ninguém tenha ficado ferido.

 

Em março, o governo anunciou que exigiria dos repórteres que fossem a Sichuan o registro prévio juntamente às autoridades locais. Isso significa que os jornalistas devem entrar em contato e pedir autorização a cada uma das inúmeras localidades atingidas pelo tremor, em um processo que está longe de ser rápido e fácil.

 

A entidade Human Rights Watch afirma que vários dos pais que perderam seus filhos em escolas que desabaram durante o tremor não conseguiram até hoje que as cortes chinesas aceitassem suas ações de indenização, nas quais sustentam que as mortes foram provocadas pela má qualidade das construções.

 

"Não apenas há pais que têm sido ameaçados, detidos e, em alguns casos, chutados e socados por funcionários e forças de segurança, como o governo também tem pressionado muitas das famílias das vítimas a aceitar uma compensação única em troca da interrupção das demandas por uma investigação pública (das condições das mortes)", afirmou a Human Rights Watch em documento divulgado na quarta.

 

Os jornalistas também sofrem agressões, praticadas principalmente por grupos paramilitares que contam com a conivência das autoridades locais. Katri Moakkonen, repórter de uma TV finlandesa, e sua equipe foram cercados em Fuxin por cerca de dez pessoas, que tentaram arrancar os equipamentos que eles utilizavam. "Nós quase perdemos nossa câmera. Foi muito violento", disse Katri, segundo relato divulgado pelo Clube de Correspondentes. O repórter do Financial Times Jamil Anderlini foi vítima de dois episódios de interferência em menos de 24 horas.

 

O primeiro também ocorreu em Fuxin quando ele tentava entrevistar pais de crianças que morreram durante o terremoto. Um homem tentou arrancar a câmera de vídeo do repórter e logo ganhou o apoio de 12 pessoas. No dia seguinte, outro homem impediu que Anderlini entrevistasse uma mulher que apresentou uma petição com queixas às autoridades locais. A câmera do repórter foi atirada no chão. Quando reclamou ao departamento de propaganda local, o jornalista foi informado de que a polícia poderia deter repórteres por qualquer razão. Também escutou que a polícia havia sido violenta para "protegê-lo" da mulher que havia apresentado a petição.

 

Os outros três casos de interferência ocorreram no início de abril e, em dois deles, os chineses que davam entrevistas a jornalistas foram detidos. Em 1º de abril, um repórter francês foi detido com um casal que perdeu a filha quando a escola em que estudava desabou. O casal foi solto logo depois e o jornalista foi levado à delegacia de polícia, onde foi informado que deveria ter se registrado previamente.

 

Em 2 de abril, um repórter alemão que entrevistava pessoas em um cemitério público acompanhado de jornalistas chineses foi retirado do local por policiais. No dia 6, uma equipe de TV alemã preparava-se para entrevistar o pai de outra criança vítima do terremoto quando o homem foi carregado por um grupo de desconhecidos. Os repórteres permaneceram detidos por cinco horas.

 

(Com Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo)

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