A 1ª Guerra terminou neste ano

A Alemanha finalmente acabou de pagar as reparações impostas pelo Tratado de Versalhes que, para muitos, levaram à ascensão de Hitler

Margaret Macmillan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Poucas pessoas notaram na época, mas a 1.ª Guerra terminou neste ano. Bem, num sentido ela terminou: em 3 de outubro, a Alemanha finalmente terminou de pagar os juros sobre os bônus que foram emitidos pelo governo de Weimar num esforço para pagar as reparações de guerra impostas pelo Tratado de Versalhes.

Embora a quantia, menos de US$ 100 milhões, tenha sido trivial para os padrões de hoje, o pagamento significou o desfecho de um dos capítulos mais venenosos do século 20. Infelizmente, ele também recolocou em pauta um mito histórico insidioso: o de que as reparações e outras medidas do tratado foram tão odiosas que tornaram inevitáveis a ascensão de Adolf Hitler e a 2.ª Guerra.

Na verdade, as reparações, como o nome sugere, não tinham uma finalidade punitiva. Sua intenção era reparar os danos causados, principalmente à Bélgica e à França, pela invasão alemã e os subsequentes quatro anos de luta. Elas também ajudariam os Aliados a pagar os enormes empréstimos que haviam feito para financiar a guerra, principalmente os Estados Unidos. Nas conversações de paz de 1919, em Paris, o presidente Woodrow Wilson foi muito claro de que não haveria multas punitivas para os perdedores, somente custos legítimos.

Os outros principais estadistas em Paris, os premiês David Lloyd George, da Grã-Bretanha e Georges Clemenceau, da França, concordaram com relutância, e a Alemanha também assinou o tratado com igual relutância.

Na Alemanha de Weimar, uma sociedade profundamente dividida por classe e política, o ódio pela "paz ditada" era generalizado, e não havia nenhuma vergonha em tentar se furtar às suas provisões. A soma total das reparações não foi mencionada no tratado - em si uma humilhação aos olhos alemães -, mas foi finalmente estabelecida em 1921 em 132 bilhões de marcos de ouro (cerca de US$ 442 bilhões em termos atuais). O fato é que a Alemanha poderia ter conseguido pagar, mas por razões políticas não quis fazê-lo.

O governo alemão questionou repetidamente a quantia, pediu moratórias ou simplesmente declarou que não pagaria. Em 1924 e de novo em 1929, a soma total devida foi reduzida. Em 1933, quando os nazistas tomaram o poder, Hitler simplesmente cancelou unilateralmente as reparações. No fim, calcula-se que a Alemanha pagou menos em termos reais do que a França após a guerra franco-prussiana de 1870 a 1971 (e a França saldou essas obrigações em poucos anos).

Isso não pesou muito para os alemães, para quem era muito fácil atribuir cada problema às reparações, e, por extensão, ao governo de Weimar. Hitler não chegou ao poder por causa das reparações - a Grande Depressão e a loucura das classes dirigentes alemãs fizeram isso -, mas sua existência lhe deu uma ferramenta política contra Weimar. A disputa sobre as reparações também ajudou a jogar o povo alemão contra a cooperação com o sistema internacional.

Igualmente importante, a questão ajudou a enfiar uma cunha entre a França e a Grã-Bretanha numa época em que as democracias liberais precisavam ficar unidas. Muitos no mundo de fala inglesa vieram a concordar com os alemães de que o Tratado de Versalhes, e as reparações em particular, era injusto, e Lloyd George havia capitulado aos franceses vingativos. Esse sentimento de culpa jogou um papel nos esforços de sucessivos governos britânicos para aplacar Hitler nos anos 30.

Nessa atmosfera, muitos, se não a maioria dos alemães, vieram a acreditar que a 1.ª Guerra foi uma espécie de catástrofe natural, sem autores humanos. Corrida armamentista, nacionalismo, imperialismo, medo, ódio: tudo isso era visto em retrospecto como forças impessoais que simplesmente haviam se abatido sobre os europeus em 1914.

Num tempo notavelmente curto após 1918, muitos alemães também vieram a pensar que não tinham realmente perdido a guerra. Seus exércitos durante a guerra haviam infligido derrotas fragorosas aos inimigos da Alemanha, especialmente no leste, e pouco do solo alemão fora ocupado por tropas Aliadas tanto durante a guerra quanto na derrota. A elite militar montou uma campanha bem-sucedida nos anos 20 para atribuir o colapso final alemão a uma "facada nas costas" pelos inimigos em casa, particularmente, socialistas, liberais e judeus.

Essa percepção era absurda: os exércitos da Alemanha perderam feio nos campos de batalha no verão de 1918; seu povo estava à beira da inanição por causa do bloqueio naval britânico; seus aliados austríacos, turcos e búlgaros haviam desmoronado; e seus militares haviam implorado para o governo fazer as pazes antes que fosse tarde demais. O armistício assinado em 11 de novembro foi claramente uma rendição; a Alemanha abriu mão de sua Marinha e seus submarinos e de seu equipamento de campo pesado, de tanques a artilharia. Mas à medida que a situação ia de mal a pior, esses fatos foram facilmente distorcidos ou ignorados, em particular no fim dos anos 20 quando Weimar vacilava e Hitler ascendia.

Isso não significa que as reparações foram uma boa ideia. Elas foram pouco consistentes economicamente e um erro político com consequências graves. John Maynard Keynes, um membro da delegação britânica em Paris, argumentou corretamente que os Aliados deviam esquecer completamente as reparações (Isso teria ajudado se os EUA tivessem dado baixa como perda dos empréstimos de guerra que fizeram à Grã-Bretanha e à França, mas eles não estavam preparados para isso). Terminar guerras não é fácil, e antes de condenarmos a ideia toda das reparações como equivocada e perigosa, deveríamos pensar sobre penalidades mais recentes por agressão. O Iraque, por exemplo, ainda está pagando reparações ao Kuwait pela invasão de Saddam Hussein em 1990.

Mais significativamente, a Alemanha foi obrigada a pagar reparações após 1945 e, nesse caso, não houve nenhuma negociação: a Alemanha foi completamente derrotada e os Aliados simplesmente se serviram. A União Soviética, em particular, extraiu tudo que pôde e da maneira mais brutal. Houve pouco clamor na Alemanha por causa da extensão total da derrota e, igualmente importante, era impossível os alemães argumentarem que estavam sendo injustamente culpados pela guerra.

Vale notar que menos de uma década após a queda dos nazistas, o legado pendente das reparações da 1.ª Guerra foi acertado rapidamente e com muito pouco alvoroço. Uma conferência em Londres em 1953 produziu um acordo cujos termos foram cumpridos em outubro, A Alemanha Ocidental concordou em pagar os juros sobre seus bônus emitidos no entre guerras e indenizou reclamantes de trabalhos forçados, mas somente quando se reunificasse com a Alemanha Oriental. O acordo é com frequência lembrado como um modelo para países economicamente encrencados sobre como acertar dívidas pendentes.

Talvez a Grécia e a Irlanda e seus devedores devessem dar uma olhada nele. E talvez não devêssemos ser muito apressados em condenar as decisões do passado, mas reconhecer que às vezes há problemas para os quais não existem soluções fáceis. No meu entender, a Alemanha poderia, e deveria, ter feito reparações por sua agressão na 1.ª Guerra, mas será que o risco de uma nova guerra valeria forçá-la a isso? / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É DIRETORA DO ST. ANTHONY"S COLLEGE EM OXFORD E AUTORA DE "PARIS 1919" E DE "DANGEROUS GAMES: THE USES AND ABUSES OF HISTORY"

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