A 3 semanas das eleições, países doadores temem pelo Haiti

Três semanas antes das eleições, se elas finalmente forem realizadas em 7 de fevereiro, os países doadores do Haiti estão preocupados com o futuro do país. Independentemente de quem for o presidente eleito entre os 35 candidatos ao cargo, representantes dos estados Unidos, França, Canadá e União Européia se perguntam se o novo governo terá condições de estabilizar a política e a economia do país, após a saída das tropas das Nações Unidas. O Haiti recebeu cerca de US$ 600 milhões (do total prometido de US$ 2 bilhões) da comunidade internacional desde fevereiro de 2004, quando o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto e levado para a África do Sul. Apesar do volume de recursos, poucos resultados apareceram até agora para melhorar a vida dos haitianos." Aqui a gente sobrevive", disse o alfaiate Stage Vertus, 40 anos, mulher e quatro filhos, em sua pequena oficina. Com quatro máquinas de costura e seis ajudantes, ele diz ser capaz de fazer o que for preciso - calças, camisas, paletós e até roupa feminina - mas falta encomenda. Apesar de trabalhar em Pétion Ville, município da área metropolitana de Porto Príncipe onde moram os ricos e milionários.Vida difícilPorto Príncipe está um pouco melhor do que 18 meses atrás, quando chegou o primeiro contingente brasileiro, mas a situação ainda é precária. A sujeira se acumula por toda a parte, só há energia elétrica de quatro a cinco horas por dia e não existe água encanada. Quem tem dinheiro, como os estrangeiros que moram nas colinas de Pétion Ville, compra caminhões-pipa, pagando US$ 50 pelo abastecimento de 10 mil litros. Não se sabe de onde vem a água, mas com certeza não é tratada.O lixo vai para terrenos baldios ou é lançado no mar. Com falta de segurança e tanta escuridão, é desaconselhável sair de casa à noite. Quem não tem gerador ou bateria para iluminação doméstica nas horas de apagão costuma ficar conversando na rua à luz das lâmpadas dos postes. Os estrangeiros tomam cuidados especiais, por causa da onda de seqüestros.No meio do tiroteio Fotógrafos se protegem de tiroteioCité Soleil é uma das áreas mais violentas de Porto Príncipe. Trata-se de uma região dominada por gangues, embora cercada pelas tropas da Jordânia. Ao entrar nesta área, o fotógrafo do Estado, Vidal Cavalcante, relata que ficou no meio de um tiroteio, junto com outros fotógrafos. Leia a seguir: Foram cinco minutos de tiroteio. Quando os disparos começaram, tiros intermitentes de um lado e rajadas de metralhadoras de outro, eu e mais quatro colegas - três fotógrafos e um cinegrafista de agências internacionais de notícias - nos deitamos no chão ou nos abrigamos atrás de pilastras de marquises. Não se via de onde partiam os tiros, mas o alvo eram dois blindados do Batalhão Jordaniano, que patrulhavam a área.Cité Soleil, o bairro-favela mais perigoso de Porto Príncipe, está ocupado por grupos armados, supostamente gangues de bandidos e traficantes. Ninguém entra ali, a não ser com a autorização dos chefes das gangues. Foi um deles que deu a senha, hoje de manhã, para a entrada dos jornalistas estrangeiros. A intenção dos grupos que dominam Cité Soleil seria mostrar o bairro e anunciar sua posição em relação às próximas eleições presidenciais.Contratamos 5 mototáxis para chegar em comboio a Cité Soleil. Seria o transporte mais prático e seguro para atravessar o caótico trânsito de Porto Príncipe e para escapar com mais agilidade em caso de necessidade. Deveríamos ser recebidos por um contato nos limites da favela, logo depois de cruzar Cité Militaire, sob controle das tropas brasileiras, mas ele não apareceu. Eduardo Queiroz, repórter da Reuters, se abriga no chão durante disparosAntes do tiroteio, conversamos com várias pessoas nas ruas de Cité Soleil. Misturando francês e crioulo, homens e crianças batiam na barriga para mostrar que tinham fome e denunciavam o abandono do bairro. Falta tudo - luz, água e segurança. As mulheres não se aproximaram dos jornalistas. Ninguém queria saber de fotos.Num cenário de casas destruídas pelos disparos dos blindados que patrulham as ruas, os moradores se queixavam da "truculência" dos jordanianos, a tropa da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) responsável pela segurança de Cité Soleil. Durante nossa permanência no bairro, pouco mais de uma hora, houve mais dois tiroteios nas proximidades do ponto em que nos encontrávamos. Pulamos nas garupas das motos e saímos em disparada. Ouça relato do fotógrafo

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