A ação israelense na Faixa de Gaza é moral?

A ação militar de Israel em Gaza justifica-se do ponto de vista moral? Diferentes respostas a esta pergunta são possíveis. Algumas dependem de outras questões anteriores envolvendo a fundação do Estado de Israel, as circunstâncias que fizeram com que muitos palestinos se transformassem em refugiados e a responsabilidade pelo fracasso de iniciativas com vistas a uma solução pacífica. Mas deixemos de lado estes problemas, que têm sido analisados em profundidade, e concentremo-nos nas questões morais levantadas por esse recente aumento das hostilidades.

Peter Singer, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2014 | 02h02

O fato imediato que desencadeou o presente conflito foi a morte de três adolescentes judeus na Cisjordânia. Israel, acusando o Hamas, prendeu centenas de militantes do grupo na Cisjordânia, embora jamais tenha esclarecido a base da acusação. O governo israelense pode ter se aproveitado dos infames assassinos como pretexto para provocar uma resposta do Hamas que permitiria a Israel, em troca, invadir e destruir os túneis do Hamas que ligam Gaza a Israel. Embora os líderes israelenses digam ter se surpreendido com a extensão e a sofisticação dos túneis descobertos, o Exército já havia informado sobre eles há mais de um ano.

O Hamas reagiu às prisões com foguetes que atingiram Tel-Aviv e Jerusalém, sem deixar vítimas, mas provocando uma resposta militar. Um país submetido a ataques de foguetes tem direito de se defender, mesmo que se interprete que suas ações é que provocaram os ataques e eles sejam relativamente ineficazes. Mas o direito à autodefesa não significa o poder de fazer qualquer coisa que possa ser interpretado um ato de defesa independentemente do custo em termos de morte de civis.

Apesar dos apelos em alguns jornais israelenses para Gaza ser bombardeada "até voltar à idade da pedra", o governo parece reconhecer que isso seria um erro. Israel adotou medidas para reduzir o número de vítimas civis, pedindo o abandono de áreas a ser atacadas.

O Hamas, ao contrário, não tem mostrado interesse em poupar civis em Israel ou Gaza. Ao disparar foguetes contra o território israelense, seu objetivo é provocar vítimas e o fato de esses foguetes em grande parte não cumprirem tal objetivo deve-se à sua imprecisão, ao sistema de defesa antimísseis e talvez um pouco de sorte. A estratégia do grupo, de lançar foguetes a partir de áreas residenciais e armazenando-os em escolas, reflete a disposição dos seus líderes de colocar os civis palestinos em situação de risco de modo que Israel se defronte com a nefasta alternativa de matar civis ou permitir que os ataques de foguetes continuem.

Assim, sejam quais forem as objeções de caráter moral às ações de Israel no mês passado, existem objeções ainda mais sérias a serem feitas contra o Hamas. Ao contrário de episódios anteriores, países árabes como o Egito, Jordânia, Arábia Saudita têm se mostrado bastante moderados em suas críticas a Israel, talvez menos por razões morais e mais porque consideram o Islã militante uma ameaça mais grave do que Israel para seus regimes.

Mas afirmar que as ações de Israel são menos erradas do que as do Hamas não significa muita coisa. Israel tem objetivos militares legítimos em Gaza: acabar com os foguetes e os túneis. E vai continuar perseguindo tais objetivos, embora demonstre preocupação com os civis. Esta é uma medida positiva, mas é superada pelos repetidos ataques israelenses que provocaram a morte de civis, desde os meninos que morreram numa praia no dia 16 aos palestinos mortos em escolas da ONU.

Algumas pessoas respondem com desdém que "guerra é o inferno". Mas entre os extremos do pacifismo e a exaltação da guerra como algo que vai além da moralidade há um ponto de equilíbrio para abrandar o demônio indiscutível da guerra. Podemos reconhecer que Israel tem adotado medidas, mas é preciso dizer também: não é o bastante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Peter Singer é professor de Bioética na Universidade de Princeton

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