A África de olho no Sudão

O país é um exemplo de como as nações africanas não souberam lidar com a diversidade

THABO MBEKI, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Tem-se falado, acertadamente, que o Sudão é um microcosmo da África. Por isso, todo o continente acompanhará de perto o que ocorrerá nos próximos meses. Hoje será realizado um referendo no Sudão do Sul para decidir se a região se separa ou não do restante do país. Se ficar independente, o novo Estado começará a existir em 9 de julho.

Nesse período, ao mesmo tempo em que o Sudão estiver tratando da questão das relações Norte-Sul, também terá de chegar a um acordo para pôr fim ao conflito em Darfur. Ao longo dos 55 anos de independência, o Sudão experimentou uma sucessão de violentos conflitos. Considera-se que a origem dessas guerras esteja na incapacidade do país - um dos mais multifacetados da África - de construir uma estratégia com base no princípio e na prática da diversidade.

Esse é o desafio enfrentado por quase todos os países africanos, que procuram criar sociedades estáveis e pacíficas. Praticamente todas as guerras civis na África pós-colonial ocorreram por causa da incapacidade de administrar de maneira correta a diversidade.

Os conflitos ensinaram a África que, para conter as pressões que estimulam a fragmentação, é preciso um esforço consciente para fortalecer a unidade nacional, o que deve incluir a prática democrática. O conflito trouxe também a mensagem inequívoca de que a unidade não pode ser garantida apenas pela força.

Ao contrário, somente pelo respeito pela diversidade - assegurando que cada grupo social desfrute de uma consciência comum de inclusão, e não se sinta marginalizado e excluído - será possível garantir a unidade do Estado e a paz. O Sudão aprendeu essas lições por meio da dura experiência, até mesmo da guerra.

Em 1975, Gafaar Nimeiry, chefe de Estado militar sudanês, apontou com grande clarividência o que seria necessário para que o país atingissem a paz e a estabilidade.

"A unidade com base na diversidade tornou-se hoje a essência e a razão de ser da entidade política e nacional de muitos países emergentes da África. Temos orgulho de o Sudão da revolução ter-se tornado a essência exemplar dessa nova esperança. O Sudão é o maior país da África, incrustado no seu coração, no ponto em que seus caminhos se cruzam. Seu território faz fronteira com nove países. Os problemas no Sudão acabam, necessariamente, extravasando para seus vizinhos e vice-versa. Portanto, um Sudão instável não seria um catalisador de paz e de estabilidade na África", disse.

Infelizmente, a incapacidade de aplicar políticas com base em um respeito autêntico por essa perspectiva mergulhou o Sudão em sua segunda e onerosa guerra Norte-Sul, alimentou os violentos conflitos no Sudão Ocidental e Oriental e criou a possibilidade da secessão do Sul.

Paz e estabilidade. Considerando essa trajetória histórica, é evidente que os governos do Sudão e do Sudão do Sul, bem como a esmagadora maioria do povo sudanês, estão cansados de guerras e desejam desesperadamente a paz.

Os processos nos quais os partidos sudaneses estão atualmente envolvidos - os preparativos para o referendo, as negociações sobre as disposições após a votação e a busca de um acordo em Darfur - estão impregnados desse desejo de paz. Por isso, a África acompanha a evolução do Sudão com interesse.

No entanto, independentemente do resultado da votação de domingo, os desdobramentos iminentes no Sudão produzirão importantes mudanças na estrutura do Estado sudanês.

Nesse contexto, as regiões sudanesas - Norte e Sul - aceitaram o importante princípio que estabelece a possibilidade de "dois Estados viáveis", caso o Sul decida pela secessão.

Como acontece em períodos de importantes e rápidas mudanças, o país experimentará tensões sociais, incertezas e inquietação. A África está ansiosa para que os líderes sudaneses cooperem efetivamente na administração dessa delicada situação, no interesse de todo o continente.

Isto exigirá que os vários colegiados no topo do poder tenham força e coesão suficiente para conduzir seu eleitorado a um acordo e, portanto, que ninguém, de perto ou de longe, possa enfraquecer, de algum modo, um desses lados.

É do interesse da África que a população do Sudão viva em paz e harmonia, cooperando em benefício mútuo, respeitando plenamente a diversidade do outro, mas sem interesses excludentes, seja em um país ou em outro.

Uma nação sudanesa que personifique verdadeiramente "a essência exemplar" do respeito pela diversidade, aquilo que falava Nimeiry, seria a catalisadora da paz e da estabilidade em nosso continente.

Devemos esperar que a enorme atenção internacional voltada para o país tenha como objetivo proporcionar o apoio necessário ao povo sudanês, para ajudá-lo a atingir suas metas, até mesmo a construção de dois Estados viáveis, se necessário. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL E PRESIDE O PAINEL DE ALTO NÍVEL DE IMPLEMENTAÇÃO DA UNIÃO AFRICANA PARA O SUDÃO

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