A África do Sul depois de Nelson Mandela

Idade avançada de líder da luta contra o apartheid abre discussão sobre agravamento dos problemas nacionais e hegemonia do CNA na política do país

É JORNALISTA, ROY, ROBINS, FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, ROY, ROBINS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h02

O ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela foi hospitalizado pela terceira vez nos últimos anos. A última vez que Mandela apareceu em público foi há quase três anos, na cerimônia de encerramento dos jogos da Copa do Mundo de 2010, em Johannesburgo. Mas sua presença está por toda parte.

O ex-presidente tornou-se uma preocupação constante na África do Sul nos últimos meses.

Aos 94 anos, Mandela está debilitado. Acamado e confinado em sua casa em Johannesburgo, correm rumores sobre sua senilidade; alguns afirmam que ele não fala mais. Uma notícia de jornal particularmente devastadora, citando sua ex-mulher, informou que "sua centelha de vida estava se apagando".

Toda vez que Mandela é internado, um muro de silêncio é erguido entre os porta-vozes do ex-presidente e do governo do Congresso Nacional Africano (CNA), de um lado, e a mídia internacional e local, do outro. A linha oficial adotada pelo CNA é sempre a mesma: Mandela está em boas condições de saúde, seu estado é estável, os exames médicos a que está sendo submetido são de rotina. A posição não oficial é totalmente diferente e, sob todos os aspectos, muito mais próxima da verdade.

Existe também um abismo entre a mídia local e internacional no tocante às notícias sobre Mandela. A imprensa estrangeira demonstra mais beatitude - não poupando superlativos transcendentais para descrever o velho estadista -, mas também mais implacável e fatalista. Os jornalistas colocam uma auréola e tentam descrever a cena no leito de morte. Na maior parte dos casos, não parecem muito interessados a adotar uma atitude mais neutra. Cada vez que Mandela adoece, eles perguntam se sua estada no hospital será a última, se o impensável deverá ocorrer, se a grande notícia estará ali.

Os jornalistas sul-africanos geralmente são mais inteligentes e mais rigorosos, indiferentes às hipérboles e críticos quanto à posição do partido. Fazem um trabalho melhor, retratando Mandela como um verdadeiro ser humano. Mas também são mais disciplinados, submetendo-se a um governo que restringe a mídia, ameaça a liberdade dos jornalistas e questiona seu patriotismo.

Intimidação. O CNA tem explorado descaradamente as leis de segurança da era do apartheid para restringir a cobertura pela imprensa do estado de saúde de Mandela. Que se estende ao presidente atual, Jacob Zuma, cuja residência, financiada de maneira controvertida, foi convenientemente designada de interesse nacional. Para o CNA, todas as leis da época do apartheid são compreensivelmente repulsivas - exceto quando podem ser usadas para fortalecer o próprio partido, proteger seus políticos ou acobertar seus crimes - casos em que essas leis não são apenas aceitas, mas admiradas. Como observou o sociólogo Roger Southall, o CNA "torna ambígua a distinção entre partido e Estado (e entre legalidade e ilegalidade).

Parece que um número muito grande de jornalistas aparentemente objetivos esqueceu o preceito de George Orwell (ao comentar uma biografia de Mahatma Gandhi em 1949): "os santos deveriam ser sempre julgados culpados até provarem sua inocência". O próprio Mandela, após sua libertação em 1990, depois de 27 anos na prisão, anunciou que "aqui estou não como profeta, mas um humilde servo de vocês, o povo". O que é, a propósito, o tipo de coisa que um profeta diria".

O ativista Nathan Geffen, que faz campanha contra a aids na Cidade do Cabo, escreveu em seu site que "o mito criado em torno de Mandela, as constantes sugestões do CNA de que ele é um super-homem e infalível, juntamente com o fato de não conseguirmos discutir e debater com visão crítica suas ideias, ações, sucessos e fracassos em vida, constituem um desserviço para ele. Isso reduz a sua vida a citações que nos dão satisfação e desculpas de todo o tipo de má conduta manifestada em seu nome. Isto desumaniza Mandela e na verdade significa que não conseguimos tirar lições das suas realizações".

Geffen parece o único adulto num mundo povoado por adolescentes eternamente idealistas e excessivamente entusiasmados, mas cada vez mais os escritores sul-africanos vêm examinando o legado de Mandela com uma perspectiva crítica, e muitos jovens também começaram a ver Madiba (apelido carinhoso de Mandela) de modo mais desapaixonado, especialmente a chamada geração dos nascidos em liberdade, que apenas conheceram a democracia e não têm a gratidão e a benevolência da geração mais antiga com seu ex-presidente.

Problemas. Os que nasceram em liberdade sentem-se desencorajados diante da desigualdade existente no país (que na verdade aumentou desde o apartheid e hoje é uma das mais agudas do mundo), a taxa de desemprego entre os jovens de 71% , o sistema de ensino alquebrado e a falta de assistência médica e habitação adequadas. Estão enfurecidos com o número assombroso de crimes (o país é um dos mais violentos no mundo); frustrados por viver na pobreza eterna: de acordo com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, quase metade de todos os sul-africanos vivem abaixo da linha de pobreza.

E sentem-se traídos pela elite do CNA que procura apenas enriquecer, que promete tudo em tempo de eleição, mas cumpre muito pouco. Nada disso é culpa de Nelson Mandela, naturalmente, mas também não é culpa da juventude sul-africana. Uma postagem provocativa num blog, em 2012, levava o título: "Como Mandela vendeu os negros".

A verdade é que Mandela jamais governou de fato a África do Sul como presidente. Desde o início do seu único mandato, em 1994, ele delegou (ou talvez tenha sido coagido a isso) todas as tomadas de decisão ao seu vice, o futuro presidente Thabo Mbeki.

Mesmo nessa época Mandela era pouco mais do que uma figura decorativa, passando a maior parte do tempo posando para fotógrafos com celebridades americanas, fazendo declarações aparentemente importantes, mas frequentemente inexpressivas.

O papel de Mandela era necessário na época: tranquilizando a África do Sul e o mundo de que a transição do apartheid para a democracia fora feita com sucesso, incentivando o turismo e o investimento internacional, e aquietando a alma de uma nação alarmada que tinha nele uma presença moral, estável. Muita coisa foi realizada durante o primeiro mandato de Mandela, mas com pouco aporte dele próprio.

Assim, com frequência ele assume o mérito pelas estratégias políticas que Mbeki e outros adotaram (uma economia neoliberal de sucesso relativo, as primeiras medidas importantes para acabar com a pobreza e habitação para os sem-teto) e ocasionalmente é acusado pelos erros cometidos por Mbeki (que não adotou uma posição mais firme com relação ao governo tirânico de Robert Mugabe, no Zimbábue; uma política externa confusa e contraproducente; o aumento da desigualdade).

Aids. Para os ativistas, o maior pecado de Mandela foi não se manifestar enfaticamente sobre a epidemia de aids, que danificou o país nas duas últimas décadas, provocando milhões de mortes - e não implantar uma política eficaz para evitar que a infecção se alastrasse, e nem distribuir antirretrovirais para aqueles que padeciam da doença. Mas mesmo neste caso Mandela merecia ter mais margem de manobra. Afinal, a Aids era um problema da alçada da então ministra da Saúde Dlamini-Zuma, ex-mulher do atual presidente.

Na verdade, uma dispendiosa tentativa da então ministra para chamar a atenção da nação para a doença foi um dos primeiros constrangimentos públicos da África do Sul. Além disso, é fácil, numa retrospectiva, falar sobre os equívocos do governo ao lidar com a bomba-relógio que é o vírus HIV. Nos primeiros anos de democracia, antes de Mbeki transformar a negação do HIV em política de governo, a aids era um enorme problema social entre muitos.

Rivalidade. Mesmo antes de se tornar presidente, o sucessor de Mandela, Thabo Mbeki humilhou Mandela, implícita e abertamente, em público e em particular. Como presidente, chegou mesmo a não atender telefonemas de Mandela. Este, por seu lado, suspeitava que seu sucessor mandara instalar dispositivos de escuta em sua casa - o que não era uma suposição irracional diante da bem conhecida paranoia de Mbeki.

A verdade é que Mandela representava uma barreira extremamente alta para qualquer político sul-africano. Incapaz de ser melhor que Mandela, seus sucessores na presidência pareciam satisfeitos em ser piores.

Mbeki, que costumava citar Shakespeare, Yeats e Langston Hughes, devia ter lido mais Freud. O sucessor de Mandela tornou-se cada vez mais autocrático, alienado e obcecado - e acabou expulso do partido quando tentou concorrer a um terceiro mandato, inconstitucional.

O atual presidente, Jacob Zuma, com 783 acusações de ligações com o crime organizado, fraude e corrupção, faz com que Lance Armstrong pareça um sujeito leal e confiável. Ele fez ameaças táticas à Constituição da África do Sul, à mídia e ao Judiciário. Recentemente aplicou US$ 28 milhões dos contribuintes na compra de uma luxuosa residência para ele e sua grande família. Segundo o correspondente do Guardian na África, Chris McGreal, Zuma "praticamente é desprovido de ideologia". Mas agora ficou clara qual é sua ideologia - a filosofia do enriquecimento pessoal.

Apesar da emergência de um novo partido político em fevereiro, nenhuma agremiação política atrai de maneira suficiente a maioria dos sul-africanos negros de maneira a se tornar uma ameaça possível para o CNA. Para o melhor ou o pior, o partido de Nelson Mandela continuará dominante na África do Sul no futuro.

E embora o próprio Mandela possa estar desaparecendo da vista pública, a "indústria Mandela" continua incessante - uma indústria que não tem nenhuma relação com o verdadeiro ser humano. É o Mandela do mundo, transformado em mercadoria em incontáveis reproduções: parte Che Guevara, parte Mickey Mouse. A imagem de Madiba adorna tudo, desde camisetas a xícaras de café e as novas cédulas de dinheiro recentemente impressas na África do Sul.

Talvez a morte de Mandela provoque uma avaliação compassiva sobre como está a África do Sul hoje, onde ela deveria estar, e como chegar lá. A esperança numa África do Sul pós-Mandela é de que os líderes mais jovens consigam ter voz novamente. É triste que seja preciso a morte de Mandela para isso se tornar possível. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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