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A África também

O coronavírus só estava um pouco atrasado: chegou em meados deste mês, discretamente de início, para em seguida apavorar populações totalmente desprotegidas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

 E a África? Ela não estava na lista global. O coronavírus estava adormecido ou atarefado em outros continentes. Além disso, a África já tinha tido a sua dose de desgraças; tuberculose, aids, cólera, e uma das mais letais, o ebola. O coronavírus só estava um pouco atrasado. Chegou em meados deste mês, discretamente de início, para em seguida apavorar populações totalmente desprotegidas, já esgotadas pelas outras doenças e pela miséria.

Denis Mukwege, que foi Prêmio Nobel da Paz em 2018, está inquieto. Na sua opinião, a covid-19 poderá se espalhar a uma velocidade impressionante, pois a África está totalmente desprovida dos meios para reduzir, e menos ainda para agarrar o “demônio” pela garganta.

E o confinamento? Algo impossível nessa África. As pessoas são pobres, precisam procurar comida dia após dia. “Como pedir que elas escolham entre morrer de fome dentro de casa e morrer de coronavírus saindo para ganhar seu pão?”, disse Mukwege. As grandes cidades também estão indefesas. Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, tem 12 milhões de habitantes, e uns 50 respiradores. Faltam os equipamentos indispensáveis: máscaras, álcool e desinfetante à base de cloro. Em Bukavu, de 1,5 milhão de habitantes, todos os hospitais juntos têm apenas 30 respiradores. E em toda a região, há uma ausência cruel de meios para a realização de testes e para conseguir máscaras.

No norte do continente africano, embora a miséria seja um pouco menos terrível (mas muito pouco menos), foi usada a trapaça, a mentira, as estatísticas imaginárias.

O Egito do general Sissi, particularmente dotado para a mentira, contou apenas 41 óbitos na segunda-feira. Os poderes públicos explicaram que o vírus havia sido trazido por uma americana taiwanesa que voltava de um cruzeiro, mas o contágio estava limitado apenas aos locais turísticos. Bobagem! O contágio estava em toda parte. O Cairo o confessou, adotando medidas severas: vilarejos em quarentena, fechamento dos locais públicos e suspensão dos voos nos aeroportos.

Na verdade, o Egito é um enorme foco de epidemias. O governo de Sissi encontrou uma resposta ainda mais estúpida do que sua mentira inicial. Ele começou a atribuir “informações falsas a espíritos maldosos e hostis ao marechal Sissi”. Quinze pessoas foram presas. Na realidade, segundo sérios pesquisadores canadenses, no início de março havia já mais de 6 mil pessoas contaminadas.

Desde o dia 17, o governo da Argélia havia tranquilizado a população argelina muito nervosa: “A situação está sob controle,” dissera Argel. Mas em Blida, uma cidade de dimensões médias, as autoridades decretaram o confinamento total. Na realidade, é o governo que se encontra “sob o controle total” dos mentirosos.

Pode-se pensar que a arte da mentira é cultivada principalmente entre os que são controlados pela tirania ou a ditadura. De fato, a China, que parece uma ditadura, maquiou por muito tempo a verdade. Mas as próprias democracias não estão isentas desse pecado. A França, ao que tudo indica, minimizou de início a verdade e criou deturpações mais sofisticadas da situação real. Na Itália, país que declarou os números mais elevados de óbitos, a mentira teria sido praticada em larga escala.

Como sabemos disso? São os jornalistas estrangeiros que o afirmam: eles ficaram assombrados com o número de caixões produzidos nestas semanas nas oficinas de carpintaria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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